«Ninguém pode fazer tudo, mas ninguém está dispensado da missão.» Foi com este apelo que o Cardeal D. Américo Aguiar marcou hoje, 3 de outubro, a abertura do ano pastoral da Diocese de Getafe, na Basílica do Sagrado Coração de Jesus, no Cerro de los Ángeles.
Perante sacerdotes e diáconos, consagrados, leigos, catequistas, educadores, voluntários, famílias e jovens, o Bispo de Setúbal sublinhou na homilia da eucaristia a que presidiu que, apesar das diferentes vocações e responsabilidades, existe uma missão comum: «Temos vocações, ministérios e responsabilidades diferentes, mas partilhamos o mesmo Baptismo e a mesma missão. Todos fomos chamados por Cristo e enviados a anunciar o Evangelho».
A partir da figura bíblica de Job, D. Américo Aguiar alertou para o risco de uma fé reduzida ao conhecimento sobre Deus. «Também nós podemos saber muitas coisas acerca de Deus, falar d’Ele, ensinar a doutrina, organizar actividades pastorais e participar generosamente na vida da Igreja. Mas existe sempre o perigo de conhecer Deus somente “de ouvir falar”», afirmou.
«Podemos falar muito de Deus e reservar pouco tempo para estar com Deus. Podemos multiplicar as reuniões, os projectos, as catequeses e as celebrações, e esquecer que a missão nasce sempre do encontro com o Senhor», acrescentou.
O Cardeal alertou igualmente para a tentação de medir a missão pelos resultados: «o número de participantes, as actividades realizadas, a repercussão pública, as visualizações, os seguidores ou o sucesso das nossas iniciativas». Em contraponto, afirmou: «a nossa alegria mais profunda não nasce daquilo que conseguimos, mas de sabermo-nos conhecidos e amados pelo Pai».
O tema «Enviados» foi concretizado como uma missão de presença. «“Enviados” não significa simplesmente receber uma tarefa. Significa levar uma presença», afirmou, apontando para «a criança e o jovem, a família que atravessa uma dificuldade, o idoso que vive sozinho, o doente, aquele que deixou de acreditar e aquele que nunca escutou verdadeiramente o Evangelho».

Além de presidir à eucaristia, D. Américo Aguiar proferiu uma conferência intitulada «Por que razão a nossa missão é hoje mais necessária do que nunca?» Aí, o prelado aprofundou o desafio da evangelização numa sociedade marcada pelas novas tecnologias e pela inteligência artificial, a partir da experiência da JMJ Lisboa 2023. «A nossa missão é hoje mais necessária do que nunca porque nunca tivemos tantos meios para comunicar e, talvez, nunca tenha sido tão difícil encontrarmo-nos verdadeiramente. Nunca tivemos acesso a tanta informação e continuamos sedentos de sentido. Nunca dispusemos de tantas possibilidades de estar ligados e, no entanto, tantos homens e mulheres experimentam a solidão», afirmou.
Para o Cardeal, «quanto mais tecnológica se torna a nossa sociedade, mais precisa daquilo que nenhuma tecnologia pode produzir por si só: presença, sentido, relação, esperança, perdão, comunhão e encontro com Cristo».
Sobre a inteligência artificial, deixou uma distinção: «A inteligência artificial pode imitar expressões da inteligência. Não vive uma biografia». E, no âmbito pastoral, resumiu: «A ferramenta pode assistir. Não pode substituir».
No final, D. Américo Aguiar deixou uma imagem de esperança: «Não controlamos a graça. Preparamos o caminho. Não produzimos o encontro. Abrimos as portas. Não fabricamos a fé. Damos testemunho. E depois deixamos espaço».
«Deixamos uma janela aberta. Porque o Espírito sopra. E, quando sopra, nunca sabemos completamente até onde nos levará», concluiu.
Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Diocese de Getafe




