Nos 35 anos da APAV, um encontro inter-religioso para rezar pelas vítimas de crime

Jun 26, 2025

 

Seis confissões religiosas uniram-se hoje no Santuário de Cristo Rei, em Almada, para celebrar os 35 anos da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) num encontro que teve como mote a defesa da dignidade humana e o combate à violência. O evento, promovido pela própria APAV, contou com representantes do judaísmo, catolicismo, islamismo, anglicanismo, hinduísmo e budismo, que plantaram palmeiras no final da cerimónia como símbolo eterno do compromisso e da oração pela paz e pelo fim da violência em todas as suas formas de expressão.

João Lázaro, presidente da APAV, sublinhou a importância desta união inter-religiosa num “momento particularmente relevante e simbólico” para a organização. “A APAV reconhece e presta o devido respeito ao papel das comunidades religiosas na promoção da paz, na mediação dos conflitos e no acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade”, afirmou, destacando que “são muitas vezes a estes espaços das comunidades religiosas que as vítimas de crime vão primeiramente recorrer e pedir ajuda”.

Isaac Assor, representante da comunidade judaica, trouxe a perspectiva bíblica ao encontro, citando a Torah: “Não oprimirás o estrangeiro, pois conheces o coração do estrangeiro, porque fostes estrangeiro na terra do Egito”. O dirigente judaico enfatizou o conceito de “tikkun olam” – reparar o mundo – como “uma responsabilidade ativa na luta contra a injustiça e o sofrimento humano”.

O Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, alertou para os desafios contemporâneos, comparando a atual “revolução digital” com a revolução industrial de há um século. “Nunca seja a justificação para fazer sofrer o outro, nunca seja a justificação para pôr em causa a dignidade da pessoa humana”, defendeu, prestando homenagem às vítimas que “não tiveram a graça de encontrarem um interlocutor que as acolhesse, que as entendesse e que lhes devolvesse a dignidade”.

O prelado afirmou que “queremos dar graças a Deus pelo trabalho de tantos profissionais, de tantos técnicos e, acima de tudo, o criar de relações de confiança para que aquela pessoa, naquele momento e naquela circunstância, confie que aquele número de telefone, aquele técnico, aquele profissional vai ajudar a ultrapassar a circunstância de vítima que essa pessoa viveu”.

 

Muhammad Ibrahim, porta-voz da comunidade muçulmana, partilhou ensinamentos do profeta Maomé, lembrando que “de entre as melhores ações está aliviar o sofrimento do outro”. Citando o Alcorão, sublinhou que “quem salva uma vida é como se tivesse salvo toda a humanidade”, alertando para as estatísticas preocupantes da APAV que mostram que “mais de 80% das vítimas apoiadas foram mulheres”.

A pastora Ilma Oliveira Rios, da Igreja Lusitana, elogiou o trabalho da APAV ao longo destas “três décadas e meia”, destacando a importância de “criar um espaço de acolhida” para quem sofre violência doméstica. Eurica Reis da Luz, da comunidade hindu, trouxe os princípios do “Ainsa” (não violência) e “Seva” (serviço desinteressado), afirmando que “a dor de uma vítima não é apenas uma questão individual, é uma ferida aberta na própria consciência da sociedade”.

Fernando Santos, representante da União Budista Portuguesa, partilhou uma experiência pessoal comovente sobre uma criança de 12 anos que foi ajudada pela APAV após anos de abuso sexual, demonstrando o impacto prático do trabalho da associação. Citando o Dalai Lama, lembrou: “O nosso principal propósito nesta vida é ajudar os outros e se não pode ajudá-los, pelo menos não lhes cause sofrimento”.

Maria Inês de Medeiros, presidente da Câmara Municipal de Almada, encerrou as intervenções destacando o papel do Estado laico que “acolhe, recebe e respeita todas as religiões”. Citando o Papa Francisco, apelou para que não se tenha medo: “A paz constrói-se, a solidariedade, a fraternidade constrói-se neste combate” contra “os fazedores do medo”.

O encontro culminou com a plantação simbólica de palmeiras por cada uma das religiões presentes, materializando o compromisso conjunto de todas as confissões na luta pela dignidade humana e no apoio às vítimas de violência, missão que a APAV tem desenvolvido há 35 anos em Portugal.

 

 

 

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