O Cardeal D. Américo Aguiar presidiu à Eucaristia comemorativa dos 50 anos da Cáritas Diocesana de Setúbal, celebrada na Sé de Setúbal, numa ocasião marcada pela gratidão e pela reflexão sobre os desafios sociais atuais. Na homilia, destacou a missão da instituição como expressão concreta da caridade cristã: “50 anos de Cáritas, 50 anos de mãos estendidas, de portas abertas, de esperança renovada. 50 anos de Evangelho vivido, não apenas anunciado”.
Partindo das leituras bíblicas, o Bispo de Setúbal sublinhou que a caridade implica reconhecer Cristo no rosto dos mais frágeis. “A caridade cristã não é simplesmente fazer o bem, é reconhecer Jesus Cristo no rosto dos mais pobres, dos mais frágeis, dos esquecidos e deixar que esse encontro transforme a nossa vida”, afirmou.
Um dos principais alertas da homilia incidiu sobre a necessidade de adaptar as respostas sociais às necessidades concretas de cada pessoa. D. Américo Aguiar, a partir das visitas pastorais que tem realizado, criticou a uniformização dos apoios: “Por vezes, acho que estamos a obrigar todas as pessoas a vestir a mesma roupa. […] E às vezes essa roupa não serve à pessoa”.

O Cardeal defendeu maior autonomia para as instituições que trabalham no terreno, considerando que os meios disponíveis devem corresponder às necessidades identificadas. “A pessoa tem fome, mas nós queremos tratar-lhe da roupa. A pessoa quer roupa, mas nós queremos que ela coma. Não dá”, exemplificou.
Neste contexto, alertou para o risco de perpetuar o assistencialismo, defendendo a criação de percursos individualizados, que designou como “PPV, Plano Pessoal de Vida”. “Andamos há 50 anos a ajudar os mesmos, há 40 anos a ajudar os mesmos, há 20 anos a ajudar os mesmos e estamos todos felizes. Não pode. Isso não respeita a dignidade daqueles a quem queremos servir”, afirmou.
A falta de respostas para a população sénior mereceu igualmente particular preocupação. “Não há respostas para os séniores, não há lares, não há ERPIS”, alertou, considerando que o envelhecimento da população constitui um problema crescente. D. Américo Aguiar chamou ainda a atenção para situações de isolamento extremo, afirmando: “E a falha é nossa. Obviamente que é nossa”.
Na reflexão sobre a identidade da instituição, o Bispo de Setúbal reafirmou que a Cáritas deve assumir-se como “o braço da caridade do Bispo”, numa lógica de articulação e dinamização da solidariedade. “A Cáritas não existe para competir, duplicar respostas ou disputar protagonismos. Existe para animar, congregar, articular e promover a caridade em toda a diocese”, sublinhou.

A celebração evocou também D. Manuel Martins, primeiro Bispo de Setúbal e fundador da Cáritas Diocesana, e Eugénio Fonseca, antigo presidente da instituição, recentemente falecido. D. Américo Aguiar destacou o legado de ambos, afirmando: “D. Manuel Martins e Eugénio Fonseca, duas vidas diferentes, mas uma mesma paixão, Jesus Cristo e os mais pobres”.
As comemorações prosseguiram no Fórum Municipal Luísa Todi, com uma sessão solene que contou com a presença do Bispo de Setúbal. O Presidente da República, António José Seguro, não pôde estar presente, tendo enviado uma mensagem de reconhecimento pelo percurso da instituição. O Chefe de Estado sublinhou que “a dignidade de cada pessoa deve permanecer no centro da vida coletiva” e que “uma sociedade mais justa se constrói através da proximidade, do cuidado e da responsabilidade partilhada”.
Na mesma sessão, o presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal destacou o percurso de cinco décadas da instituição e homenageou Eugénio Fonseca, recordando-o como uma referência de dedicação aos mais frágeis. Sublinhou ainda que a missão da Cáritas é “construída diariamente por colaboradores, voluntários, dirigentes, parceiros e comunidades paroquiais”, agradecendo a todos os que contribuem para uma “ação social assente na proximidade e na cooperação”.

No final da homilia, D. Américo Aguiar apelou à continuidade de uma missão que deve prolongar-se no quotidiano das comunidades. “Não podemos receber o pão da vida e esquecer o pão que falta na mesa de tantos irmãos. Não podemos reconhecer Cristo na Eucaristia e ignorá-lo à nossa porta”, afirmou.
“Cinquenta anos depois, a missão continua. Porque o amor não se reforma, a esperança não desiste e a caridade não pode esperar”, concluiu.
Fotos: Ricardo Perna



