O Cardeal D. Américo Aguiar tomou posse como bispo de Setúbal a 26 de outubro de 2023. Um ano depois, é tempo de fazer balanço do caminho percorrido e lançar os desafios que se colocam à diocese de Setúbal, agora que estamos em plena celebração do seu Jubileu. Por isso, estivemos à conversa com o nosso bispo uns dias antes da sua partida para Roma, para participar no Sínodo dos Bispos.
D. Américo, estamos a celebrar um ano da sua tomada de posse enquanto Bispo de Setúbal. Que retrato é possível fazer desta diocese ao fim de um ano?
Ora, em primeiro lugar, fazer memória daqueles que me antecederam nesta missão e lembrar que esta data, do 26 de outubro, foi a data da ordenação episcopal, da tomada de posse do nosso primeiro Bispo, D. Manuel Martins, e depois sucedeu-lhe o Sr. D. Gilberto, o Sr. D. José Ornelas, estes dois, felizmente, vivos connosco e damos graças a Deus pelo Sr. D. Gilberto e agora o Sr. D. José Ornelas, que tem o múnus e a responsabilidade de acompanhar a porção do povo de Deus de Leiria Fátima. Portanto, primeiro fazer esta memória e também dos sacerdotes e dos leigos que, ao longo destes quase 50 anos, serviram, deram a sua vida e já regressaram à Casa do Pai e que agora, na Comunhão dos Santos, também continuam a acompanhar esta diocese.
Bem, os sentimentos são diversos. Eu tenho feito a volta ao mundo, não em 60 dias, mas a volta à diocese neste ano e eu acho que já percorri todo o território, enfim, da Península de Setúbal, quase a totalidade das paróquias propriamente ditas, muitas realidades principalmente do todos, todos, todos, ou seja, civis, empresariais, estatais, culturais, recreativas, as mais diversas e de todas. Aliás, eu tenho feito um esforço por, se alguém me convida, eu sinto-me honrado com o convite e, se a agenda permite, eu vou ao encontro.
E, portanto, este ano tem sido muito marcado pela ida e pela visita e pela presença, junto de tantos e tantos e tantos que fazem acontecer aquilo que é a vida desta Península de Setúbal, muito até para além daquilo que é o território propriamente dito da diocese de Setúbal. E eu estou a conhecer, estou a conhecer cada vez mais, o conhecer, o amar e o servir. E estou a conhecer principalmente aquilo que significa a vida das comunidades, a vida das paróquias, conhecer o clero, eu não conhecia quase ninguém, conhecia meia dúzia de sacerdotes da diocese de Setúbal. Conhecer, entender e também rezar para que eles me conheçam e me entendam que isto não é fácil, eu não sou propriamente fácil e também cada um é como é. E, portanto, também é uma aprendizagem nos dois sentidos, naquilo que significa o estilo, a maneira, o exercer o ministério e, portanto, é uma aprendizagem que faço, quero fazer e também peço e desejo que, do outro lado também, como tem acontecido em tantas circunstâncias, possa acontecer.
Nestes últimos dias ando a fazer o roteiro, por exemplo, das misericórdias que existem no nosso território e tem sido também uma aprendizagem, tem sido muito útil, muito importante para termos consciência de que estas instituições e tantas outras, muitas da tutela da Igreja Católica no território, mas muitíssimas outras do mundo civil, do mundo privado, do mundo estatal e que fazem a diferença naquilo que é o trabalho, por exemplo, de ir ao encontro das necessidades e dos gritos daqueles que mais precisam na área sociocaritativa.

D. Américo Aguiar abençoa a carruagem da Fertagus dedicada a Sebastião da Gama.
Se tivesse que escolher algo que o tenha mais impressionado pela positiva neste périplo que foi fazendo para conhecer a diocese, o que é que o tocou mais neste ano?
Olha, de muito positivo, duas coisas. O mundo empresarial e universitário. Não tinha ideia, não tinha ideia daquilo que era a capacidade instalada no território de empresas, de marcas e de produtos que são importantes para o país e até para o mundo, e aquilo que é a academia. Não tinha ideia de que o Instituto Politécnico, a Nova, o campus da Caparica e mesmo a Egas Moniz e a outra escola, o Piaget. Portanto, esta oferta universitária não tinha consciência que existia e fiquei muito positivamente impressionado e da visita que já fiz a algumas delas, daquilo que significa a garantia de um futuro, atendendo à excelência do ensino, à excelência daquilo que é a oferta e àquilo que é a procura até muito internacional destes cursos e destas ofertas universitárias.
E muito do futuro da península e destes homens e mulheres adolescentes passa por esta carreira universitária que fará a diferença no futuro para este território também. São as duas marcas que não conhecia e que me surpreenderam. Quanto à população, quanto aos sadinos ou em cada município, estas realidades, nós temos aqui duas realidades muito diferentes, que eu vou aprendendo: os que estão virados para o Tejo e os que estão virados para o Sado, que não é propriamente a mesma coisa.
Temos aqui dois pulmões, digamos assim, na maneira de ser, na maneira de empenhar, na maneira de viver, na maneira de organizar a vida, temos aqui duas coisas muito diferentes. Depois, aquilo que significa uma realidade também, que há muitíssima gente que vive uma maior parte do tempo na outra margem, no trabalho, na escola, enfim, em tantas outras coisas. E, portanto, significa que muita da vida que acontece na margem certa, que é a nossa, é muito pós-laboral.
Significa a noite, significa os fins de semana, significa a família e, portanto, também temos que ter consciência disso, destes dois pulmões e destas duas realidades que se encontram e que se cruzam.
Um problema que eu vou identificando tem a ver com a mobilidade, ou seja, há territórios que têm muita dificuldade na mobilidade. Há dias visitámos a Misericórdia de Canha, Pegões, Canha, e, de facto, há pessoas que vivem neste território e que não é fácil deslocarem-se, seja para o que for, seja para questões de saúde, seja de educação, seja de trabalho.
Ou seja, há pessoas no nosso território que a mobilidade é um impedimento, ou é um sofrimento, ou é um custo muito elevado para aquilo que possa ser a normalidade de outros que têm o metro à porta, que têm a carreira metropolitana, que têm meios próprios e que circulam facilmente neste território. Portanto, a mobilidade é uma área sensível a trabalhar e a desenvolver cada vez melhor, seja o comboio na ponte, sejam os, agora não se diz cacilheiros, os férries, o metropolitano de superfície, sejam muitas outras ofertas que vão decorrendo e ocorrendo, mas há franjas do território da população que nós temos de ter consciência, mesmo nós Igreja, quando convidamos as pessoas para encontros, para formação, para celebrações, temos de ter consciência que há gente, que é muito difícil percorrerem o território.
E, por outro lado, das visitas que fez, das pessoas com quem contactou, o que é que o intranquilizou mais?
Olha, há uma coisa que fiquei mais sossegado, mas preocupado na mesma. Tem a ver com a área social. Eu faço parte do grupo de portugueses que tinha gravado no meu coração e na minha retina as imagens dos anos 80. Para muitos portugueses Setúbal era igual a fome, miséria, dificuldades.
Ora, felizmente, hoje Setúbal não é isto. Há problemas, há dificuldades, mas não são naquela fotografia que nós guardámos porventura dos anos 80. E aqui temos uns focos, temos focos que a Igreja faz o que pode, um pouquinho, mas que o Estado, propriamente dito, e as entidades públicas, de um modo especial, estão no terreno e nós temos de ajudar, temos de estar aqui em subsidiariedade, ou seja, cada um exercer aquilo que é a sua função, não nos calcarmos, mas ajudarmo-nos mutuamente para poder corresponder aos sonhos que esta população tem.
Nós temos ainda bairros problemáticos, e problemáticos não é que seja de violência, não, problemáticos da vida das próprias pessoas. Se nós falarmos no 2º Torrão, se nós falarmos em Santa Marta, se nós falarmos em zonas de Almada, se nós falarmos em zonas de Seixal, se nós falarmos num bairro que, entretanto, já foi demolido e depois foram realojados, o bairro da Jamaica, de um momento para o outro, mediaticamente, tomou, enfim, o prime time das preocupações. Infelizmente, continuamos a ter muitos irmãos e irmãs, de proveniências diversas, que é difícil verem correspondidos os mínimos ou os médios daquilo que é a sua dignidade, seja na alimentação, seja na educação, seja na habitação.
Ora, mas o que eu noto e testemunho no território é muito o empenho, a dedicação e a entrega das autarquias, por exemplo, para tentarem, juntamente com o Estado, Governo, tentarem corresponder a essas necessidades de habitação. E nós ainda hoje ouvíamos que começa o processo de realojamento e de solução, por exemplo, para o bairro de Santa Marta, em Corroios, como já foi para outros, como também, até amanhã a dia este testemunhámos, o nascimento de um novo problema, o bairro de Penajóia, também um bairro, enfim, problemático, começa a nascer ali no território de Almada.
Ou seja, temos que estar atentos sempre em todas as frentes, porque quando pensamos que está solucionado aqui um problema, ele está a nascer com outras pessoas do outro lado da rua, porventura. E isso é a maior preocupação, resolvermos os problemas que existem já há umas dezenas de anos, não permitirmos que novos possam nascer, e também não perdermos o norte naquilo que é o esforço de quebrarmos os ciclos de pobreza e quebrarmos os ciclos de não sair desta situação, que é muito difícil.
E olha lá, não é diferente do que eu conheço no Porto, do que eu conheço em Lisboa e do que eu conheço em muitas outras áreas urbanas. Não é diferente. Setúbal não tem, enfim, problemas mais complicados do que têm outras geografias.
Agora, as ferramentas e as possibilidades de os resolver é que são diferentes para uma área metropolitana do Porto ou para uma área metropolitana de Lisboa ou para aquilo que significa as ferramentas que Setúbal tem ao seu dispor.

D. Américo Aguiar na Festa das Vindimas de Palmela.
Em termos pastorais, e como disse há pouco, já teve oportunidade de percorrer praticamente todas as paróquias, todas as comunidades. Esteve nos crismas de grande parte das paróquias. Como é que encontrou as paróquias? Que dinamismo trazem? O que é que é preciso fazer nesta altura?
Bem, ainda não tenho dados suficientes para fazer esse tipo de avaliação ou de juízo. Noto comunidades muito diferentes. Noto comunidades de muita gente, noto comunidades com pouquinha gente, noto comunidades muito diversas. Eu olho para uma assembleia e vejo uma paleta de origens e de culturas, o que é muitíssimo positivo. Não é um problema, pelo contrário, é uma oportunidade, é uma riqueza. Mas há situações muito diversas.
Mesmo na cidade de Setúbal há zonas de muita gente e de muita população e de muita procura, como há zonas de gente idosa, de pouca procura, de pouca mobilidade, como noutros territórios. Portanto, a situação da península, naquilo que significa a diocese, naquilo que significa a vida real das nossas comunidades paroquiais, é muito diversa e, portanto, ainda estou na fase de conhecer para poder, como os sacerdotes também, aliás, está no território a dita Comissão de Estudo do mapa das paróquias, das vigararias, para depois também tentarmos adaptar um bocadinho mais a máquina, a estrutura, àquilo que é a missão real no território.
Porque, efetivamente, as estruturas começam a não ser capazes de espelhar a realidade da mobilidade social.
Sim, eu isso já estou convencido há séculos. Há séculos, bom, tenho 50 anos (risos). Portanto, já estou convencido há muito tempo. Um dos nossos problemas da Igreja Católica no nosso país, e eventualmente noutros países, é uma estrutura que, porventura, já não se adapta ou não tem nada a ver com a realidade das exigências da Missão que temos pela frente. Portanto, é uma estrutura, porventura, romana, medieval, que sempre foi assim, o mapa, o território. E nós, agora, colocamos em cima deste mapa e deste território romano medieval, colocamos autoestradas, colocamos o mundo digital, colocamos novos centros urbanos, colocamos mobilidades, e uma coisa não encaixa na outra, obviamente. E, portanto, estou muito curioso, expectante, daquilo que possam ser as recomendações desta Comissão.
A sua vida, durante este ano, tem sido bastante preenchida, em termos de compromissos, como já disse. Como é que equilibra a necessidade de acompanhamento pastoral, mas também acompanhamento civil da sociedade? Porque é que, para si, é importante ter estes dois polos?
É importante, e tenho plena consciência, que valorizei e enchi mais o balão civil. É muito aquele eco do Papa Francisco, do todos, todos, todos. Se eu me dedicar de uma maneira mais expressiva e mais totalizante àqueles que estamos, eu acho que não estou a corresponder àquilo que é a urgência, o sonho missionário de chegar a todos. Quanto mais eu me reservar ou dedicar à sacristia, quanto menos eu vier para o adro, quanto menos eu vier para as empresas, para as comunidades, para as coletividades e para o local onde as pessoas estão, em geral, menos terei oportunidade de anunciar Cristo Vivo.
Ora, eu tenho consciência que, agora, com o 2º ano e o 3º ano, e o que Deus quiser, que poderei, e terei de equilibrar mais aquilo que é uma presença no contexto eclesiástico, das comunidades paroquiais, para aquilo que tem sido um esforço. Aliás, e também agora, conto equilibrar com a ajuda da minha troika de vigários-gerais. O Mons. José Pinheiro, o Rui Gouveia e o Jorge Almeida, de me ajudarem também, porque eu também quero que os vigários-gerais sejam mais do que meramente figuras administrativas. Quero também que pastoralmente possam ser referência no trabalho que vamos fazer aqui na Península de Setúbal.

Isso também é um hábito que as comunidades têm que ganhar, que efetivamente a figura do Bispo não pode e não consegue, de facto, chegar a todo lado e tem, efetivamente, este trabalho pastoral de acompanhamento e de equipa.
E mesmo agora, quando, por exemplo, tomámos uma opção que nem todos compreendem, porventura, por exemplo, as tomadas de posse dos novos párocos. Tomei a opção de pedir que os vigários-gerais fossem dar posse aos novos párocos. Não é porque eu não pudesse, não. É para que comecem a entender e a encaixar nas suas mentes e nos seus corações que este trabalho que me é confiado é partilhado com estes três sacerdotes.
E mesmo, lá chegará o tempo, em que não haverá qualquer problema, em que eu vá celebrar o Crisma à paróquia X e naquele domingo existam outros quatro Crismas, outros santos Crismas, em que os vigários-gerais também o possam fazer sem qualquer tipo de discriminação, de achar que onde eu vou é que é importante ou onde eu crismo é que vale. Isso não é verdade. Agora, nós temos que ajudar, temos de ser pedagógicos, temos de ajudar para que as pessoas entendam que os vigários-gerais são figuras de referência e de partilha do trabalho do Bispo e com a normalidade do tempo chegaremos lá.
Estamos a celebrar os 50 anos. Este primeiro ano acaba por tocar muito neste início das comemorações dos 50 anos. É uma altura em que a Igreja enfrenta desafios, nomeadamente em termos de participação, número de fiéis, número de sacerdotes. Como é que estes 50 anos também vão ser vividos nesta perspetiva? Temos os censos também que foram feitos agora. O que é que estes 50 anos também podem dar neste…
É assim, ter 50 anos é uma vantagem e uma desvantagem, não é? Aliás, como o próprio, não é (risos)? Tem coisas boas, tem coisas menos boas. Eu estou convencido, e agora os censos que nós fizemos vieram reforçar, aliás, a Comissão fez-me chegar há dias censos dos anos 50 e 70, que é divertidíssimo. Porque a gente agora faz o histórico e conclui que não há novidade nenhuma. Não há novidade nenhuma.
E eu estou convencido que ou nos convertemos a fazer qualquer coisa diferente ou isto vai continuar assim. Ou seja, há aqui uma queda livre com maior ou menor velocidade naquilo que significa a prática dominical. E, portanto, não sei se é surpresa para alguém, eu tenho consciência disso há alguns anos. Agora, com responsabilidades, tenho a obrigação de fazer alguma coisa. E, portanto, eu tenho dito e vou continuar a dizer para mim, para os meus padres e para a comunidade e para os agentes pastorais diversos: se nós só estivermos dispostos a fazer o que é costume, e eu costumo ilustrar isto dizendo assim. Se só estamos dispostos a que no domingo há missas às 10 e às 11, como sempre houve e as coisas estão todas bem, podemos continuar. Mas os números e a realidade vai continuar na queda livre. Ora, nós temos que estar disponíveis para a missão e temos que estar disponíveis para fazer diferente. Temos que estar disponíveis para a mudança.
E a mudança custa. É óbvio que se eu tenho uma comunidade ou duas comunidades e a missa sempre foi às 11 e vai passar a ser às 10 ou vai passar a ser no sábado, isto é logo uma revolução. É uma revolução porque nem todos estamos ainda convertidos à urgência da Missão.
Nós temos que nos desinstalar todos, o bispo, os padres, os responsáveis das comunidades, das capelas, das capelanias, das reitorias. Nós temos que nos desinstalar. Não há outra solução. Quando eu olho para uma realidade pastoral em que tem três igrejas, separadas por 200, 300, 400, 500 metros, e em que há, nas três igrejas, missa às 11, por três sacerdotes, isto tem que acabar. Não é possível. Mas isto acontece, e acontece não muito longe dos nossos olhos e do nosso coração. Isto acontece. E, meus caros, não acontece em Setúbal só. Acontece em Setúbal, acontece no Porto, acontece em Lisboa, acontece em muitas, ou vou arriscar, em todas as nossas dioceses. Isto tem que terminar. Porque se não terminarmos com isto, esta situação vai terminar connosco.
E eu não posso, por exemplo, nós ordenámos sacerdotes. Nós não podemos partir do princípio de que vamos pegar neles e vamos mandá-los para a frente da luta com uma, duas, três, quatro, cinco paróquias. Rebentamos com eles. Nós em Setúbal ainda, se calhar é a vantagem de ser uma jovem de 50 anos, ainda temos quase um padre, uma paróquia, um padre, uma paróquia. Mas isto vai acabar. E vai acabar muito rapidamente.
E, portanto, mesmo para os sacerdotes temos que rezar para que também se convertam pastoralmente, porque a realidade um padre, uma paróquia, está a terminar e vai terminar muito rapidamente. E, portanto, nós temos que, é como se diz na economia, é encontrar o novo paradigma pastoral. Como é que nós nos organizamos? Como é que calendarizamos e programamos a oferta das Eucaristias? Como é que isto se faz? Como é que podemos ir ao encontro de mais e de uma maneira mais saudável, quer para o sacerdote não ser um corredor de fundo, nem um pregador do alcatrão, dos quilómetros de viagens que faz, mas também não esquecer os mais velhos, com mobilidade reduzida, mas também sermos capazes de inovar pastoralmente para irmos ao encontro de todos, todos, todos, que é isso o objetivo.
As comunidades precisam de mais do que a Eucaristia, o serviço habitual. Do que é que estamos a falar naquilo que se diz inovar, criar dinamismo?
Nós tivemos uma vivência muito dolorosa que se chamou Covid e que se chamou confinamento. E foi uma prova, foi um soco no estômago para quem não quer ver às vezes a realidade. As paróquias que viviam única e exclusivamente da oferta eucarística, ponto, viram como é que foi a realidade das suas vidas na Covid e no pós-Covid: uma deserção.
As paróquias que viviam alicerçadas na Eucaristia, na caridade, nas mais diversas pastorais, na fraternidade, na rede comunitária, sobreviveram. Porque não estavam única e exclusivamente numa estação de serviço eucarístico. Ou seja, eu vou à missa, eu sinto-me corresponsável, temos a pastoral da Caridade, temos a pastoral dos jovens, temos a pastoral disto, temos a pastoral daquilo, temos os jovens, temos os escuteiros, temos uma rede diversificada que se alimenta da Eucaristia.
Ora, quando nós testemunhamos que esta rede não existe e é única e exclusivamente “eu vou à missa ali, ponto”, tivemos a prova, vivenciada por tantos, no território de que isso é um risco demasiado grave a correr e que depois tem o fim que tem, tem o resultado final que tem.

Falávamos há pouco também da falta de clero e da sobrecarga dos sacerdotes. O Papa também tem falado muito na questão dos ministérios laicais. Até que ponto é que, de facto, é preciso criar uma solução pensando nisto? Não necessariamente por causa da falta de sacerdotes, mas porque efetivamente há aqui uma corresponsabilização de todos na Missão.
Dentro de dias eu vou enviar [a carta já foi enviada, a entrevista foi gravada antes da partida de D. Américo para Roma] uma carta ao clero e à comunidade em geral para reabrir o processo do diaconado permanente. A Diocese de Setúbal acidentalmente foi a primeira a ordenar diáconos permanentes no pós retoma dos mesmos. Agora não me lembro ao certo, não sei se era o Funchal ou quem é que ia ser, mas houve um problema qualquer e os primeiros a ser ordenados foram Setúbal. Fica sempre bem na reta final, ali no sprint final.
Bem, mas depois nas dioceses, cada uma delas teve as suas experiências. Eu lembro que no Porto D. Manuel Clemente, quando esteve no Porto, reabriu o diaconado permanente e ele quando lá chegou, agora vou inventar, tinha 20 e tal e quando saiu de lá tínhamos 100. Bem, nós também temos uma realidade que está, enfim, congelada no tempo e vamos reabrir o processo de discernimento, de formação e de ordenação de diáconos permanentes.
Mas eu vou tentar que todos entendam que não é uma questão única exclusivamente logística, porque se é, é errada. É uma questão de apreciarmos a diversidade das vocações na comunidade. Quando eu digo a um padre, olhe lá, aqui não há um diácono, não precisa de um diácono, não sei o que mais. “Ah, não, não, não preciso. Estive a pensar, não preciso”. Isto é errado, porque isto é olhar única e exclusivamente com o foco logístico, do departamento de recursos humanos. Preciso mais ou preciso menos? Não. Uma comunidade, na plenitude da sua atividade, da sua existência, deve ter o gosto e Deus deve-lhe providenciar que tenha um sacerdote, que tenha um diácono, que tenha leigos nas mais diversas tarefas, que tenha acólitos e leitores, que tenha da pastoral da caridade, da pastoral do acolhimento, da pastoral não sei o que mais. Isto é a riqueza da diversidade dos dons e das tarefas de uma comunidade. E nós às vezes, muitas vezes, ficamos prisioneiros do preciso ou não preciso. E o preciso ou não preciso não é a palavra-chave para refletirmos sobre a riqueza e a diversidade das vocações dos leigos. E, portanto, nós temos que ir para a outra, que é abrirmo-nos à riqueza daquilo que são as vocações que Deus manda para a comunidade.
Queria tocar também num outro aspeto que tem sido muito falado pelo D. Américo, que é a questão da imigração aqui na Diocese, esta preocupação por um lado dos desafios que coloca, mas por outro lado a diversidade que traz. Há locais, e vimos isso há dias em Canha, onde a comunidade migrante já, se não é mais, é tanto quanto a comunidade local. Efetivamente, que benefícios, que desafios traz esta questão à Diocese?
No recenseamento da prática dominical saltou também à vista que um quarto dos praticantes, ou melhor, um quarto dos que estiveram nas celebrações nesse fim de semana, coincidiam com irmãos e irmãs migrantes, o que também se espelha naquilo que é mais ou menos a população da Península também, e o que também é uma realidade cada vez mais significativa. Portugal tem mais de um milhão já de irmãos e irmãs, oriundos de outras geografias, na população, já significa mais de 10% da população instalada. É uma riqueza e é um desafio.
O problema não são os migrantes. O problema são os protocolos, as metodologias e as burocracias, que são mais ou menos céleres, ou são mais ou menos amigas ou complicadas. E depois é que gera… porque é assim, quando estes irmãos e irmãs não têm documentos, não estão legalizados, há um conjunto de mafiosos e de pessoas de mal que os exploram. Eu lembro-me há dias, numa entrevista da Senhora Provedora de Justiça, que dizia exatamente isso, dizia que quanto mais tempo estes irmãos e irmãs estiverem pendurados na indefinição da regularização da sua situação, mais as redes de escravatura e de tráfico de pessoas mais rapidamente os apanham e os exploram. E nós, infelizmente, temos isso no nosso território. E depois às vezes temos até, depois outra coisa, que temos que rezar pela conversão das pessoas. Às vezes eu agricultor, eu empresário, eu empreendedor, enfim, olhar para essas pessoas e ver ali uma mão de obra barata e ilegal que vai fazer com que eu tenha um retorno económico mais imediato, explorando aquelas pessoas.
Ora, isto é uma questão humana e, portanto, temos que ajudar todos os intervenientes, a comunidade em geral, a que isto não possa acontecer. Porque quando nós falamos de Odemira… há muitas odemiras espalhadas pelo território.
E, às vezes, todos nós sabemos, toda a gente sabe, na terra, mas toda a gente assobia para o ar porque toda a gente está a viver, está a ter retorno, infelizmente, daquela situação. E nós não podemos permitir o modo como vivem, as condições como vivem, as pessoas que vivem 20 pessoas num sítio e ainda têm que pagar. Eu há dias ouvia o aluguer dos colchões, já não é dos quartos, é o aluguer dos colchões. Ou, como há pouquinho ouvíamos, numa Misericórdia, o aluguer de colchões num bairro, enfim, que ele próprio já não tem condições absolutamente para nada. Portanto, isto também passa pela conversão de cada um de nós e da comunidade porque nós não podemos permitir que isto aconteça.
Depois, diabolizar os migrantes é o pior que pode acontecer. Porque, como nós ouvimos na misericórdia de Canha e ouvimos em muitas empresas e muitas atividades económicas, se nós retirarmos os trabalhadores migrantes da agricultura, da indústria, das IPSS e de tantos outros setores, o país bloqueia. Porque são estes irmãos e irmãs que estão a corresponder a muita da urgência e da necessidade de mão de obra que os portugueses ou já não existem para o fazer ou têm outras opções profissionais.
Entrevista e Fotos: Ricardo Perna




