“Nos pobres, Ele ainda tem algo a dizer-nos”

Out 13, 2025

No passado dia 9 de outubro foi publicado o primeiro documento oficial do ensino do Papa Leão XIV. Tal como o Papa Francisco, que em 2013 fez seu um texto já preparado por Bento XVI (a encíclica Lumen Fidei), também agora o Papa Leão XIV herdou e deu continuidade a um projeto inacabado de Francisco: um documento acerca do cuidado da Igreja pelos pobres.

Este novo texto é como que a continuação natural da última encíclica de Francisco, Dilexit nos («ele amou-nos»), dedicada ao amor do Coração de Jesus. Consequência do amor de Jesus por nós, deve ser o nosso amor pelos pobres, que Jesus ama e com os quais se identifica. O título desta nova exortação, Dilexi te («eu amei-te») realça a relação entre os dois documentos e, mais do que isso, entre os dois «amores»: o amor de Jesus pela humanidade e o amor da Igreja pelos pobres.

A mensagem central de Leão XIV é a de que Jesus se identificou de forma particular e pessoal com os pobres. Por conseguinte, a relação de amor e de cuidado dos cristãos para com os pobres faz parte da sua relação com Jesus: «O contacto com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história. Nos pobres, Ele ainda tem algo a dizer-nos» (n. 5). Assim, portanto, o amor pelos pobres não é opcional ou acessório na vida da Igreja, mas um dos seus aspetos incontornáveis.

Nos capítulos centrais da exortação, o Santo Padre mostra como o amor aos pobres sempre foi constitutivo da identidade da Igreja. Começa por nos apresentar o ensino da Bíblia sobre a pobreza, realçando a forma como Jesus a viveu e o destaque que lhe deu nas suas parábolas. Depois, percorre toda a História da Igreja, mostrando como o cuidado dos pobres foi uma constante, apesar de se ter manifestado de formas muito diversas. A História é apresentada a partir do exemplo dos Santos que protagonizaram a resposta às necessidades dos pobres, consoante o contexto da época e a vocação própria de cada um. O Papa oferece-nos ainda uma revisão da Doutrina Social da Igreja sobre o tema, desde Leão XIII até ao Papa Francisco, valorizando também o contributo dos bispos da América do Sul.

Para Leão XIV, a Igreja precisa hoje de dar continuidade a esta Tradição, sob pena de perder parte da sua identidade. Nesse sentido, deixa críticas, entre outros, aos grupos cristãos que se desinteressam pelo tema da pobreza, como se este fosse uma responsabilidade apenas do Estado; aos que confiam cegamente que as leis económicas solucionam, por si mesmas, as carências dos pobres; aos que aceitam sem critério uma «falsa visão da meritocracia» (n. 14); aos que dedicam o cuidado pastoral apenas às elites; aos que não reconhecem valor à prática da esmola.

Assim, com a sua primeira exortação apostólica, o Santo Padre vem provocar a consciência de todos os cristãos, para que reconheçam a urgência em responder ao «clamor do pobre» (n. 8) e não o considerem como alguém de fora, sem o qual se estaria «mais à vontade» (n. 114), mas alguém que verdadeiramente pertence «aos nossos» (n. 104).

Pe. José Cachaço
Prefeito do Seminário de Almada

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