Ao iniciar as Visitas Pastorais às 57 paróquias da Diocese de Setúbal, faço-o com o desejo sincero de caminhar convosco, de escutar com atenção e de discernir, à luz do Evangelho, os caminhos que o Senhor nos abre neste tempo.
A Visita Pastoral não é um acontecimento extraordinário desligado da vida quotidiana das comunidades. É, antes de mais, um gesto de proximidade, no qual o Bispo se faz presente para confirmar na Fé, fortalecer a Comunhão e renovar a Esperança. Como tantas vezes nos recordou o Papa Francisco¹ , o pastor é chamado a caminhar com o povo, a conhecer a sua vida concreta e a não ter medo de se aproximar das suas feridas.
O Concílio Vaticano II² ajudou-nos a redescobrir a identidade mais profunda da Igreja. A Lumen Gentium³ recorda-nos que a Igreja é Povo de Deus a caminho na história, onde todos os batizados partilham a mesma dignidade e são corresponsáveis pela missão. Nesse mesmo horizonte, o ministério do Bispo é apresentado como serviço de unidade e de comunhão. A Visita Pastoral torna visível esta visão: o pastor não governa à distância, mas caminha com o seu povo, escutando, acompanhando e cuidando.
A experiência que trago comigo — como presbítero⁴ na Diocese do Porto e, mais tarde, como Bispo Auxiliar de Lisboa⁵ , numa Visita Pastoral interrompida pela pandemia — ensinou-me que estes momentos são sempre lugares de verdade, onde se escuta o que alegra, o que preocupa, o que cansa e o que faz esperar.
Escutar uma Igreja real, peregrina e ferida
Visitar é, antes de mais, escutar. Escutar pessoas concretas, comunidades concretas, histórias feitas de fidelidade generosa e também de fragilidades. Esta atitude corresponde à visão profundamente realista de Santo Agostinho⁶ , que via a Igreja como peregrina, caminhando na história entre as tribulações do mundo e as consolações de Deus.
O Papa Francisco ajudou-nos a reencontrar esta imagem de uma Igreja que não se apresenta como perfeita, mas que se reconhece em caminho, chamada à conversão e à misericórdia. A Visita Pastoral nasce desta consciência: não procuramos comunidades ideais, mas comunidades reais, acompanhadas com paciência e esperança.
Comunhão e corresponsabilidade no anúncio
Toda a Visita Pastoral está orientada para a missão. São Paulo VI⁷ , na Evangelii Nuntiandi⁸ , recordou com clareza que a Igreja existe para evangelizar. Este ensinamento continua plenamente atual e foi retomado com força pelo Papa Francisco, que insiste numa Igreja que anuncia Cristo não a partir de si mesma, mas a partir do encontro com as pessoas concretas e com as realidades do mundo.
Neste horizonte, a autoridade pastoral só pode ser entendida como serviço. Como tem sublinhado o Papa Leão XIV⁹ , em sintonia com o magistério do Papa Francisco, a autoridade na Igreja torna-se credível quando se traduz em proximidade, escuta e cuidado, e não em distanciamento ou mera gestão. No respeito pelos dons e carismas, sob a coordenação do Pastor próprio, o povo de Deus deve lutar por se impregnar no tecido social e sobretudo nas periferias de qualquer espécie: esse é o vigor missionário que se pretende, do centro para fora, do antigo para o novo, do conhecido para o ignorado.
Discernir para uma Igreja em saída
A Evangelii Gaudium¹⁰ constitui um verdadeiro programa pastoral para o nosso tempo. Nela, o Papa Francisco convida a Igreja a uma conversão missionária permanente, a sair de si mesma e a ir ao encontro das periferias geográficas e existenciais, levando a alegria do Evangelho e a misericórdia de Deus.
As Visitas Pastorais querem ser um tempo de discernimento sereno, ajudando cada paróquia a identificar prioridades, a fortalecer a corresponsabilidade e a iniciar processos que deem frutos de esperança, mesmo quando exigem paciência e perseverança.
O bispo não vai ficar ad Intra¹¹ mas espera conseguir visitar também realidades só tangencialmente tocadas pela igreja durante a visita, abrindo portas para a comunidade se inserir nessas realidades. E talvez fosse interessante referenciar que a comunidade não dilui a necessidade de um testemunho pessoal em ambientes adversos ou indiferentes.
Caminhar confiados à Esperança
Tudo isto só pode ser vivido na Esperança. Uma esperança concreta, feita de rostos, encontros e passos partilhados. Confio este tempo de Visitas Pastorais à intercessão de Maria, Mater Spei¹² , para que nos ensine a escutar, a guardar no coração e a responder com disponibilidade ao que Deus realiza no meio de nós.
Que este caminho fortaleça a comunhão, renove o ardor missionário e nos ajude a caminhar juntos, como Igreja viva, próxima e servidora, no coração do mundo.
Uma saudação fraterna a todos, todos, todos, em Cristo Vivo, nossa Esperança.
+ Américo, Cardeal
Bispo de Setúbal
Sé de Setúbal, 1 de janeiro de 2025
Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus – Dia Mundial da Paz
² O Concilio Vaticano II decorreu em Roma entre 1962 e 1965. Foi convocado pelo Papa S. João XXIII e concluído pelo Papa S. Paulo VI. A Igreja procurou renovar-se, dialogando melhor com o mundo moderno, valorizando o papel dos leigos e centrando a Fé em Jesus Cristo, promovendo a Unidade, a Participação e a Missão.
³ Constituição Dogmática LUMEN GENTIUM. Documento do Concilio Vaticano II sobre a IGREJA. LUMEN GENTIUM são das duas primeiras palavras do documento, em latim: A LUZ DOS POVOS… É CRISTO…
⁴ Padre Américo Aguiar. Fui ordenado padre na Diocese do Porto no dia 8 de julho de 2001 pelo Bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho.
⁵ D. Américo Aguiar. Fui Bispo Auxiliar de Lisboa, nomeado pelo Papa Francisco no dia 1 de março de 2019. Fui nomeado titular da diocese de DAGNO, na Albânia. Exerci essa missão até à nomeação para Bispo de Setúbal em 21 de setembro de 2023.
⁶ SANTO AGOSTINHO. Viveu entre os anos 354 e 430. Foi um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros séculos do cristianismo. A Cidade de Deus e as Confissões são dois exemplos de obras incontornáveis da sua autoria.
⁷ PAPA S. PAULO VI. O Cardeal Montini foi o 262º sucessor de Pedro. Foi eleito a 21 de junho de 1963 e faleceu a 6 de agosto de 1978. Tinha sucedido ao Papa S. João XXIII e foi sucedido pelo Papa Beato João Paulo I. O Papa Francisco beatificou-o em 2014 e canonizou-o em 2018. Foi o Papa S. Paulo VI que criou a Diocese de Setúbal a 16 de julho de 1975. No passado dia 26 de outubro do Ano Santo Jubilar 2025, foi inaugurada e benzida uma sua imagem, esculpida em mármore na Sé de Setúbal, por ocasião dos 50 anos da criação da diocese.
⁸ EVANGELII NUNTIANDI. É uma Exortação Apostólica do Papa S. Paulo VI, datada de 8 de dezembro de 1975, sobre a Evangelização. O nome do documento são as duas primeiras palavras em latim.
⁹ PAPA LEÃO XIV. O Cardeal Prevost é o 267º sucessor de Pedro. Foi eleito a 8 de maio de 2025, sucedendo ao Papa Francisco.
¹⁰ EVANGELII GAUDIUM. É uma Exortação Apostólica pós-Sinodal do Papa Francisco , datada de 24 de novembro de 2013, após o encerramento do Ano da Fé. O nome do documento são as duas primeiras palavras em latim.
¹¹ AD INTRA. Expressão em latim que quer dizer “por dentro”.
¹² MATER SPEI. Expressão em latim que quer dizer “Mãe da Esperança”.




