“Dar-vos-ei um coração novo
e porei em vós um espírito novo” (Ez 36,26)
Introdução
Reverendos Padres e Diáconos, religiosos e religiosas, consagrados e consagradas, queridos irmãos e irmãs,
Na Carta Pastoral para este biénio, recordei que queremos ser uma Igreja “próxima, samaritana e comprometida com a vida concreta das pessoas”[1]. Não se trata de um ideal abstrato, mas de uma escolha que nos define e nos responsabiliza. Uma escolha que nos pede coerência, coragem e perseverança.
A realidade diária da nossa sociedade interpela-nos com força: envelhecimento, solidão, fragilidade social e familiar. Não são apenas dados, são rostos. São histórias. São vidas marcadas, muitas vezes, pela doença, pela morte e pelo luto. E cada uma delas pede uma resposta que não pode ser adiada nem superficial, porém, profundamente humana e autenticamente evangélica. Como nos recorda a Igreja, “o cuidado é a resposta responsável ao valor inalienável de cada vida humana”[2].
É neste horizonte que se situa o caminho que vos proponho, um caminho marcado por três momentos distintos.
Num primeiro momento, somos convidados a olhar de frente para a fragilidade humana nas suas expressões mais concretas: a doença, a morte e o luto. A pastoral junto dos mais frágeis, tão multifacetada, ganha deste modo rosto e forma. Num segundo momento, somos chamados a uma verdadeira conversão pastoral, que passa pela compaixão e pela empatia e que tem, no coração do pastor, um lugar decisivo. Finalmente, somos desafiados a edificar uma autêntica proximidade, capaz de consolar, mobilizar e transformar, mesmo no meio da dor.
Mais do que multiplicar iniciativas, somos chamados a transformar o nosso modo de estar: aprender a ver com mais atenção, a escutar com mais profundidade, a permanecer com mais fidelidade. A Igreja não é chamada a fazer tudo, mas é chamada a estar onde ninguém quer estar. É chamada a não deixar ninguém para trás. Vivo convicto de que é nos lugares concretos e reais da vida, que somos chamados a estar como Igreja: não à margem, mas presentes; não distantes, mas próximos, acolhendo o apelo recente do Papa Leão XIV, que sublinha que o coração cristão se manifesta numa presença que cuida, acompanha e permanece fiel mesmo nas situações de maior vulnerabilidade.
Cuidar com o coração, como nos propõe o título desta nota, não é apenas uma expressão sugestiva. É o caminho de que vos falo, uma forma de viver a fé que se traduz em presença fiel, proximidade concreta e compromisso com a vida tal como ela é, com as suas luzes e as suas sombras. Fragilidade e força, saúde e doença, morte, luto e vida.
Convido cada comunidade, cada família, cada agente pastoral, cada consagrado e cada sacerdote a dar este passo: tornar-se presença de esperança. Sigamos juntos este caminho.
1. Cuidar da fragilidade: a caridade da presençana doença, na mortee no luto
A fragilidade humana manifesta-se na solidão, na angústia, na privação, também eminentemente na doença, na morte e no luto, exigindo uma resposta unificada pela lógica evangélica da caridade da presença.
Cuidar é identidade antes de ser ação. Implica responsabilidade, atenção, vínculo e uma ética da proximidade. Reconhece-se, assim, que a pessoa é sempre mais do que a sua dor, através da afirmação do valor da vida em todas as suas fases, mesmo quando a autonomia diminui.
A doença: lugar de encontro e humanização
A doença revela a vulnerabilidade constitutiva da condição humana. Quanto o corpo falha, a dignidade não diminui, mas torna-se ainda mais exigente o cuidado e a atenção a esta dignidade. A presença cristã junto dos doentes traduz-se numa proximidade que escuta, respeita e acompanha, sem reduzir a pessoa à sua fragilidade. Importa garantir que o doente permanece sujeito da sua própria história, mesmo na dependência.
Neste horizonte, torna-se particularmente relevante valorizar a Unção dos Doentes como verdadeiro sacramento de cura e de conforto espiritual, ajudando a pessoa a reconhecer-se como membro vivo da comunidade e não como alguém dela afastado. Sempre que possível, a sua celebração em contexto comunitário, integrada na Eucaristia, pode tornar mais visível esta pertença e fortalecer os laços eclesiais, evitando que seja percebido apenas como um gesto reservado ao espaço privado ou à iminência da morte.
Neste mesmo dinamismo pastoral, importa valorizar os agentes da Pastoral da Saúde, voluntários de assistência espiritual e religiosa e ministros extraordinários da comunhão como membros essenciais desta missão, uma verdadeira equipa que vai ao encontro dos mais frágeis, visitando idosos e doentes, oferecendo companhia e levando o consolo da Eucaristia, tornando concreta a proximidade da Igreja e prolongando, no quotidiano, a comunhão celebrada. A Pastoral da Saúde não é periférica: é expressão essencial de uma Igreja que se faz próxima, que permanece e que, sobretudo, humaniza.
A morte: devolver-lhe a sua verdade pascal
A morte, frequentemente ocultada na cultura contemporânea, requer uma maturidade espiritual que não seja aprisionada pelo medo. A missão da Igreja é devolver-lhe a sua verdade pascal: não como rutura definitiva, mas como passagem; não como fracasso, mas como cumprimento; não como silêncio, mas como promessa.
A experiência da morte coloca o ser humano diante da sua pergunta mais radical: quem é a pessoa perante o limite? Como recorda Gianfranco Ravasi, “o homem é um ser que interroga o infinito mesmo quando se confronta com o nada aparente da morte”[3]. Nesta tensão entre finitude e transcendência, revela-se a profundidade do mistério humano.
A memória recente de Alhos Vedros, onde tantas famílias foram feridas na sua memória e no seu luto, recorda-nos com particular intensidade a urgência de uma presença pastoral firme e profundamente humana no momento da sepultura. Nessa circunstância, foi dirigida uma palavra de proximidade, respeito e compaixão às famílias inesperadamente confrontadas com uma dor tão profunda[4]. À luz desta ferida concreta, torna-se claro que a presença do presbítero na sepultura não é um gesto secundário, mas um momento pastoral decisivo, no qual a Igreja acompanha os seus filhos, na passagem da despedida à entrega confiada a Deus. Assim sublinha o Ritual das Exéquias, ao valorizar a oração junto do túmulo, como expressão da Fé Pascal[5]. Permanecer junto da sepultura rezando, escutando e acolhendo o silêncio, torna-se sinal de uma Igreja peregrina que guarda a memória dos seus filhos e se une à dor daqueles que lhe são confiados, testemunhando uma presença que consola e sustenta a esperança.
A celebração das exéquias não é um rito de obrigação social, mas uma proclamação da esperança. Nela, a comunidade afirma que o amor de Deus é mais forte do que a morte e que a vida não termina no túmulo. A liturgia, vivida com autenticidade, oferece linguagem, sentido e horizonte às famílias, permitindo que a morte seja integrada não como negação da vida, mas como passagem pascal aberta à plenitude em Deus.
Face às transformações contemporâneas, recomenda-se que a crescente opção pela cremação seja acompanhada por um adequado discernimento pastoral reconhecendo a sua legitimidade, quando não contrarie a fé na ressurreição e a dignidade do corpo humano. Reitera-se a importância de que as cinzas sejam conservadas em lugar sagrado e estável, destinado à oração e à memória, evitando práticas que comprometam a dimensão comunitária do luto e a compreensão cristã da pessoa. Neste sentido, encoraja-se a promoção de espaços próprios, como os cendrários, enquanto expressão coerente da fé da Igreja e sinal visível de uma esperança, que permanece para além da morte.
O luto: caminho que exige acompanhamento
O luto é um processo interior complexo que envolve memória, identidade, vínculos e reorganização existencial. Acompanhar o luto implica reconhecer que não se trata apenas de superar uma perda, mas de reconfigurar a relação com quem morreu e reconstruir o sentido da própria vida. A Igreja é chamada a permanecer junto dos que choram, respeitando o tempo da dor e a singularidade de cada percurso.
Neste caminho, a Tradição da Igreja oferece um recurso de grande valor espiritual e pastoral: a celebração da Eucaristia em memória dos defuntos. A oração de sufrágio, especialmente na Santa Missa, exprime de forma plena a comunhão que une a Igreja peregrina à Igreja que já partiu, testemunhando que o vínculo de amor não se rompe com a morte, mas se transforma na esperança da vida eterna. Como nos ensina o Catecismo, “a Igreja oferece sufrágios pelos defuntos, em particular o sacrifício eucarístico, para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus”.
A celebração das Missas pelos defuntos constitui, assim, um verdadeiro ato de cuidado: cuidado espiritual pelos que partiram, confiados à misericórdia de Deus, e cuidado pastoral pelos que permanecem, sustentados na sua dor. Em cada celebração, a memória é iluminada pela fé, o sofrimento encontra expressão e a esperança é alimentada. Além disso, estas celebrações possuem uma dimensão comunitária fundamental: impedem o isolamento dos enlutados, integram a perda na vida da comunidade e tornam visível a solidariedade eclesial. Ao recordar os defuntos, a Igreja afirma que cada vida permanece inscrita no mistério de Deus e na comunhão do Corpo de Cristo.
Os ritos exequiais, nas suas múltiplas formas e propostas, enraizados nas realidades culturais concretas de cada lugar, devem ser expressão da presença e da esperança de toda a comunidade cristã; neles, o presbítero ocupa um lugar central como sinal sacramental ; preside à celebração, sem que, contudo, a ação eclesial se esgote nos ministros ordenados, pois, em comunhão com eles, também os fiéis leigos são chamados a participar ativamente, oferecendo proximidade, escuta e acompanhamento àqueles que enfrentam a perda.
Num tempo em que a morte tende a ser ocultada e o luto privatizado, a redescoberta desta prática assume um valor pastoral renovado. Ela educa para uma compreensão cristã da morte, sustenta o caminho interior do luto e abre à possibilidade de que a dor, vivida na fé, se transforme em caminho de amadurecimento e de esperança.
O contexto português: uma urgência pastoral inadiável
Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (2024)[6]:
- Portugal apresenta um índice de envelhecimento de 192,4 idosos por cada 100 jovens;
- A idade mediana da população atingiu 47,3 anos;
- A taxa de natalidade situa-se em 7,9‰;
- O número médio de filhos por mulher é de 1,40;
- Mais de 30% das pessoas com 65+ vivem sozinhas;
- Cerca de 40% das pessoas com 80+ apresentam limitações funcionais significativas.
Estes dados interpelam diretamente a ação pastoral e exigem uma leitura atenta da realidade concreta das nossas comunidades.
Na região de Setúbal, marcada por contrastes sociais, mobilidade populacional e zonas de crescente isolamento particularmente em áreas periféricas e envelhecidas, estes desafios assumem contornos ainda mais exigentes. A conjugação entre envelhecimento, solidão e fragilidade social constitui um apelo claro à reorganização da presença pastoral, orientando-a para formas mais próximas, contínuas e territorialmente enraizadas.
Cuidar da fragilidade na doença, na morte e no luto exige uma presença estruturada, capaz de chegar aonde as redes familiares se tornaram também elas muito frágeis ou inexistentes. Implica igualmente reforçar a dimensão comunitária da fé, para que ninguém permaneça invisível ou desamparado.
É neste contexto que a Igreja é chamada a redescobrir a sua vocação de proximidade concreta. A Igreja tem de ser presença significativa junto dos mais frágeis e sinal visível de cuidado numa sociedade marcada pela dispersão e pelo isolamento. Neste horizonte, torna-se particularmente atual o apelo recente do magistério, que a todos recorda como o amor que nasce do coração de Cristo e impele a Igreja a aproximar-se das periferias humanas. É lá que a fragilidade se torna mais visível e mais esquecida.
Esta interpelação reforça a necessidade de uma lúcida reorganização da geografia pastoral, capaz de responder às transformações demográficas, à dispersão territorial e às novas formas de solidão que marcam a realidade diocesana. Torna-se, assim, necessário repensar a distribuição das comunidades, a articulação entre paróquias e serviços e a constituição de redes que assegurem uma presença efetiva junto dos mais frágeis. Não se trata apenas de reorganizar estruturas, mas de recentrar a ação pastoral na lógica do cuidado, garantindo que nenhuma pessoa nem realidade concreta fique fora do horizonte da presença eclesial[7].
2. Compaixão e empatia: uma conversão pastoral necessária
A missão de cuidar exige maturidade humana e espiritual. Num contexto marcado pela aceleração dos ritmos de vida, pela fragmentação das relações e pela dificuldade de escuta, a compaixão e a empatia tornam-se condições essenciais da ação pastoral. A compaixão cristã não é sentimentalismo, mas inteligência espiritual que permite reconhecer o outro na sua verdade, sem o reduzir às suas feridas. A empatia nasce desta atitude e traduz-se na capacidade de escutar sem antecipar, de acompanhar sem controlar e de permanecer sem impor.
Esta missão exige mais do que adaptações superficiais: pede uma transformação profunda do modo de compreender, discernir e agir pastoralmente. Não basta multiplicar respostas; é necessário aprender a integrar, a relacionar e a habitar a complexidade das situações humanas. A realidade das pessoas não se apresenta de forma linear, e por isso a ação pastoral deve estar para lá de abordagens fragmentadas; deve sim desenvolver uma visão mais ampla, unificada e atenta à totalidade da pessoa.
No centro desta transformação encontra-se o coração do pastor. Antes de qualquer estratégia ou organização, é o coração do presbítero que deve estar continuamente configurado ao de Cristo. Um coração capaz de se deixar tocar, de permanecer disponível e de não endurecer diante do sofrimento repetido. Um coração que sabe guardar, escutar e discernir, sem se refugiar na distância nem na eficiência funcional. Os pastores são chamados a uma formação contínua, que integre a arte de cuidar, o reconhecimento dos próprios limites e a gestão da própria vulnerabilidade.
Quem cuida precisa também de ser cuidado; quem acompanha precisa de aprender a deixar-se acompanhar.
A pressão pastoral, a multiplicação de tarefas e a exposição constante ao sofrimento podem desgastar a capacidade de escuta e de proximidade. Quando isso acontece, o risco não é apenas o cansaço, mas a perda de sensibilidade interior. Por isso, é essencial criar espaços de silêncio, de oração, de partilha fraterna e de acompanhamento espiritual, onde o coração do pastor possa ser descansar e reconstruir-se.
Uma Igreja que cuida dos seus pastores protege o centro da sua própria missão. Só um coração habitado pela compaixão, pode gerar uma proximidade verdadeira. Só um pastor interiormente unificado pode sustentar, com fidelidade, a complexidade da vida que lhe é confiada. A compaixão pastoral, assim entendida, não é apenas uma atitude: é uma forma de presença que devolve humanidade às relações, e torna visível o cuidado de Deus no meio do seu povo.
3. Pastoral da Esperança: indignar-se com Amor, consolar com Verdade, anunciar com Coragem
A esperança cristã nasce da Ressurreição e permite enfrentar a realidade com lucidez, acolhendo a fragilidade como lugar onde a vida continua a ser chamada à plenitude. Sempre que o sofrimento se torna mais evidente, a Igreja é chamada a tornar visível a proximidade de Deus. O cuidado dos que sofrem constitui, assim, uma verdadeira Pastoral da Esperança, enraizada na vida concreta das comunidades e atenta às situações reais das pessoas.
Esta Esperança concretiza-se em práticas de proximidade e em comunidades que se organizam para cuidar. Comunidades capazes de responder à solidão e acompanhar de forma continuada os mais frágeis. Inclui também a capacidade de se indignar diante da indiferença e da desumanização. Esta indignação, quando nasce do Evangelho, não destrói, desperta; não paralisa, mobiliza; não fecha, abre caminhos de conversão. É a recusa de aceitar como normal aquilo que fere a dignidade da pessoa. Também implica o compromisso de responder com cuidado e responsabilidade ao que encontra. Esta Esperança exige uma presença pastoral coerente e integrada, capaz de articular dimensões espirituais, humanas e sociais, promovendo respostas enraizadas na vida das comunidades.
A Pastoral da Esperança forma comunidades capazes de ver, escutar e agir com fidelidade, sustentando a vida onde ela se encontra mais vulnerável. Nas palavras saudosas do Papa Francisco, “a Esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais”[8]. A Esperança cristã consola e compromete, permitindo à Igreja permanecer junto da dor e testemunhar que a última palavra sobre a vida humana pertence ao amor fiel de Deus.
Desafios Pastorais
À luz do caminho percorrido e dos desafios que emergem da realidade atual, a Diocese é chamada a assumir compromissos concretos. Só estes tornam visível a caridade da presença e consolidam, de modo coerente e eficaz, o cuidado pastoral dos mais frágeis.
Presença que sustenta: “Estava doente e fostes visitar-me” (Mt 25, 36)
- Promover uma pastoral de visitação contínua e relacional, com equipas paroquiais de proximidade;
- Valorizar a presença silenciosa como expressão da misericórdia;
- Valorizar os agentes da Pastoral da Saúde, voluntários de assistência espiritual e religiosa e Ministros Extraordinários da Comunhão como membros essenciais desta missão pastoral. Todos devem integrar equipasque vão ao encontro dos mais frágeis, visitando idosos e doentes, oferecendo companhia e levando o consolo da Eucaristia;
- Reforçar a presença de voluntários de assistência espiritual e religiosa nas capelanias hospitalares e outras instituições de saúde e solidariedade social;
- Reforçar a valorização do sacramento da Unção dos Doentes, promovendo, sempre que possível, a sua celebração em contexto comunitário, integrada na Eucaristia, como expressão de cura, conforto espiritual e pertença eclesial.
Comunidades que acompanham: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18)
- Criar grupos de apoio ao luto;
- Formar leigos para o ministério da consolação;
- Garantir que os espaços paroquiais, nomeadamente as capelas funerárias, sejam dignos, acolhedores e bem cuidados, com condições adequadas de acessibilidade e inclusão, favorecendo uma despedida serena e respeitadora;
- Promover a criação de espaços próprios para a deposição das cinzas, cendrários ou columbários, assegurando que sejamlugares dignos, estáveis e devidamente autorizados; destinados à oração e à memória, em conformidade com as normas vigentes, devem preservara dimensão comunitária do luto e exprimindo a fé na ressurreição.
Igreja que anuncia e transforma: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5)
- Integrar a esperança nos itinerários pastorais;
- Promover ações de justiça e cuidado;
- Tornar cada paróquia espaço de acolhimento e reconciliação;
- Testemunhar a esperança com gestos concretos.
Conclusão
O nosso tempo exige uma renovação profunda do nosso modo de compreender, discernir e agir: uma inteligência pastoral capaz de integrar a complexidade da vida, de articular dimensões humanas, espirituais e comunitárias, e de superar visões fragmentadas da realidade. Só assim poderemos responder de forma mais fiel e adequada aos desafios contemporâneos, sem reduzir o mistério da pessoa, nem simplificar o drama do sofrimento.
Que a nossa Diocese seja verdadeiramente a casa onde a esperança se aprende, se partilha e se renova; que seja o lugar onde cada pessoa, independentemente da sua fragilidade, encontra rosto, nome e pertença. Que nos sintamos chamados a ser uma comunidade que não foge da fragilidade, que não teme a noite e que não desiste de ninguém.
A caridade da presença, que somos chamados a viver, não é apenas uma resposta prática às necessidades humanas, mas a participação no próprio modo de agir de Deus, o que permanece, acompanha e salva. É nesta presença fiel que a Igreja se torna sinal visível da graça, sobretudo nos lugares onde a vida parece obscurecida pela dor.
Neste caminho, contemplamos Cristo, o Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, caminha à sua frente e não abandona nenhuma, sobretudo quando o sofrimento se torna mais pesado: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). Como recorda o Papa Leão XIV, “Cristo, Bom Pastor, é a esperança que não abandona o seu povo: caminha à frente, permanece na noite da dor e sustenta com o seu amor aqueles que mais sofrem”[9].
E no caminho de uma Igreja que se faz próxima da fragilidade humana, é justo elevar uma palavra de gratidão a todos aqueles que, com dedicação, discrição e sentido de missão, se tornam presença de cuidado e esperança junto dos mais vulneráveis.
Agradeço aos agentes pastorais, ministros ordenados, consagrados e leigos comprometidos, bem como aos profissionais de saúde e da ação social que, nas mais diversas responsabilidades, servem generosamente a vida humana nas suas fragilidades. Recordo igualmente os familiares, cuidadores e voluntários que, no silêncio do quotidiano, sustentam com amor e fidelidade a dignidade de quem sofre.
Estendo também este reconhecimento aos funcionários dos cemitérios, floristas e profissionais das agências funerárias que, com respeito, humanidade, acompanham as famílias na hora da despedida e prestam um contributo importante no cumprimento das obras de misericórdia que nos chamam a consolar os tristes e a sepultar os mortos.
Em todos se torna visível um cuidado fiel que acompanha, não abandona e se faz sinal de esperança no meio da dor, testemunhando a proximidade misericordiosa da Igreja junto daqueles que mais necessitam de amparo e consolação. Porque onde a caridade se faz presença, Deus torna-se visível e a esperança renasce. Mesmo no coração da dor.
Vaticano, junto da Sede de Pedro, 8 de maio de 2026
Primeiro aniversário da eleição do Papa Leão XIV
† Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal
[1] Diocese de Setúbal, Carta Pastoral: Pastoral da Esperança 2025–2026, Setúbal, 2025.
[2] Congregação para a Doutrina da Fé, Samaritanus Bonus, 22 de Setembro de 2020.
[3] Gianfranco Ravasi, O que é o homem?, Lisboa: Paulinas, 2012.
[4] Américo Aguiar, Nota da Diocese de Setúbal sobre a profanação de sepulturas em Alhos Vedros.
[5] Conferência Episcopal Portuguesa, Ritual das Exéquias.
[6] Instituto Nacional de Estatística, Indicadores Demográficos 2024; Instituto Nacional de Estatística, Retrato da População 2024; Instituto Nacional de Estatística, Estatísticas Vitais 2024; Instituto Nacional de Estatística, Fertilidade em Portugal 2024; Instituto Nacional de Estatística, Condições de Vida dos Idosos 2024.
[7] Cf. Leão XIV, Exortação Apostólica Dilexi te.
[8] Francisco, Fratelli Tutti, 55.
[9] Papa Leão XIV, oc.




