Nota Episcopal “Cuidar com o Coração: Presença, Esperança e Vida no Mistério da Dor”

Mai 9, 2026

 

“Dar-vos-ei um coração novo
e porei em vós um espírito novo” (Ez 36,26)

 

 

Introdução

 

Reverendos Padres e Diáconos, religiosos e religiosas, consagrados e consagradas, queridos irmãos e irmãs,

Na Carta Pastoral para este biénio, recordei que queremos ser uma Igreja “próxima, samaritana e comprometida com a vida concreta das pessoas”[1]. Não se trata de um ideal abstrato, mas de uma escolha que nos define e nos responsabiliza. Uma escolha que nos pede coerência, coragem e perseverança.

A realidade diária da nossa sociedade interpela-nos com força: envelhecimento, solidão, fragilidade social e familiar. Não são apenas dados, são rostos. São histórias. São vidas marcadas, muitas vezes, pela doença, pela morte e pelo luto. E cada uma delas pede uma resposta que não pode ser adiada nem superficial, porém, profundamente humana e autenticamente evangélica. Como nos recorda a Igreja, “o cuidado é a resposta responsável ao valor inalienável de cada vida humana”[2].

É neste horizonte que se situa o caminho que vos proponho, um caminho marcado por três momentos distintos.

Num primeiro momento, somos convidados a olhar de frente para a fragilidade humana nas suas expressões mais concretas: a doença, a morte e o luto. A pastoral junto dos mais frágeis, tão multifacetada, ganha deste modo rosto e forma. Num segundo momento, somos chamados a uma verdadeira conversão pastoral, que passa pela compaixão e pela empatia e que tem, no coração do pastor, um lugar decisivo. Finalmente, somos desafiados a edificar uma autêntica proximidade, capaz de consolar, mobilizar e transformar, mesmo no meio da dor.

Mais do que multiplicar iniciativas, somos chamados a transformar o nosso modo de estar: aprender a ver com mais atenção, a escutar com mais profundidade, a permanecer com mais fidelidade. A Igreja não é chamada a fazer tudo, mas é chamada a estar onde ninguém quer estar. É chamada a não deixar ninguém para trás.  Vivo convicto de que é nos lugares concretos e reais da vida, que somos chamados a estar como Igreja: não à margem, mas presentes; não distantes, mas próximos, acolhendo o apelo recente do Papa Leão XIV, que sublinha que o coração cristão se manifesta numa presença que cuida, acompanha e permanece fiel mesmo nas situações de maior vulnerabilidade.

Cuidar com o coração, como nos propõe o título desta nota, não é apenas uma expressão sugestiva. É o caminho de que vos falo, uma forma de viver a fé que se traduz em presença fiel, proximidade concreta e compromisso com a vida tal como ela é, com as suas luzes e as suas sombras. Fragilidade e força, saúde e doença, morte, luto e vida.

Convido cada comunidade, cada família, cada agente pastoral, cada consagrado e cada sacerdote a dar este passo: tornar-se presença de esperança. Sigamos juntos este caminho.

 

1. Cuidar da fragilidade: a caridade da presençana doença, na mortee no luto

A fragilidade humana manifesta-se na solidão, na angústia, na privação, também eminentemente na doença, na morte e no luto, exigindo uma resposta unificada pela lógica evangélica da caridade da presença.

Cuidar é identidade antes de ser ação. Implica responsabilidade, atenção, vínculo e uma ética da proximidade. Reconhece-se, assim, que a pessoa é sempre mais do que a sua dor, através da afirmação do valor da vida em todas as suas fases, mesmo quando a autonomia diminui.

 

A doença: lugar de encontro e humanização

A doença revela a vulnerabilidade constitutiva da condição humana. Quanto o corpo falha, a dignidade não diminui, mas torna-se ainda mais exigente o cuidado e a atenção a esta dignidade. A presença cristã junto dos doentes traduz-se numa proximidade que escuta, respeita e acompanha, sem reduzir a pessoa à sua fragilidade. Importa garantir que o doente permanece sujeito da sua própria história, mesmo na dependência. 

Neste horizonte, torna-se particularmente relevante valorizar a Unção dos Doentes como verdadeiro sacramento de cura e de conforto espiritual, ajudando a pessoa a reconhecer-se como membro vivo da comunidade e não como alguém dela afastado. Sempre que possível, a sua celebração em contexto comunitário, integrada na Eucaristia, pode tornar mais visível esta pertença e fortalecer os laços eclesiais, evitando que seja percebido apenas como um gesto reservado ao espaço privado ou à iminência da morte.

Neste mesmo dinamismo pastoral, importa valorizar os agentes da Pastoral da Saúde, voluntários de assistência espiritual e religiosa e ministros extraordinários da comunhão como membros essenciais desta missão, uma verdadeira equipa que vai ao encontro dos mais frágeis, visitando idosos e doentes, oferecendo companhia e levando o consolo da Eucaristia, tornando concreta a proximidade da Igreja e prolongando, no quotidiano, a comunhão celebrada. A Pastoral da Saúde não é periférica: é expressão essencial de uma Igreja que se faz próxima, que permanece e que, sobretudo, humaniza.

 

A morte: devolver-lhe a sua verdade pascal

A morte, frequentemente ocultada na cultura contemporânea, requer uma maturidade espiritual que não seja aprisionada pelo medo. A missão da Igreja é devolver-lhe a sua verdade pascal: não como rutura definitiva, mas como passagem; não como fracasso, mas como cumprimento; não como silêncio, mas como promessa.

A experiência da morte coloca o ser humano diante da sua pergunta mais radical: quem é a pessoa perante o limite? Como recorda Gianfranco Ravasi, “o homem é um ser que interroga o infinito mesmo quando se confronta com o nada aparente da morte”[3]. Nesta tensão entre finitude e transcendência, revela-se a profundidade do mistério humano.

A memória recente de Alhos Vedros, onde tantas famílias foram feridas na sua memória e no seu luto, recorda-nos com particular intensidade a urgência de uma presença pastoral firme e profundamente humana no momento da sepultura. Nessa circunstância, foi dirigida uma palavra de proximidade, respeito e compaixão às famílias inesperadamente confrontadas com uma dor tão profunda[4]. À luz desta ferida concreta, torna-se claro que a presença do presbítero na sepultura não é um gesto secundário, mas um momento pastoral decisivo, no qual a Igreja acompanha os seus filhos, na passagem da despedida à entrega confiada a Deus. Assim sublinha o Ritual das Exéquias, ao valorizar a oração junto do túmulo, como expressão da Fé Pascal[5]. Permanecer junto da sepultura rezando, escutando e acolhendo o silêncio, torna-se sinal de uma Igreja peregrina que guarda a memória dos seus filhos e se une à dor daqueles que lhe são confiados, testemunhando uma presença que consola e sustenta a esperança.

A celebração das exéquias não é um rito de obrigação social, mas uma proclamação da esperança. Nela, a comunidade afirma que o amor de Deus é mais forte do que a morte e que a vida não termina no túmulo. A liturgia, vivida com autenticidade, oferece linguagem, sentido e horizonte às famílias, permitindo que a morte seja integrada não como negação da vida, mas como passagem pascal aberta à plenitude em Deus.

Face às transformações contemporâneas, recomenda-se que a crescente opção pela cremação seja acompanhada por um adequado discernimento pastoral reconhecendo a sua legitimidade, quando não contrarie a fé na ressurreição e a dignidade do corpo humano. Reitera-se a importância de que as cinzas sejam conservadas em lugar sagrado e estável, destinado à oração e à memória, evitando práticas que comprometam a dimensão comunitária do luto e a compreensão cristã da pessoa. Neste sentido, encoraja-se a promoção de espaços próprios, como os cendrários, enquanto expressão coerente da fé da Igreja e sinal visível de uma esperança, que permanece para além da morte.

 

O luto: caminho que exige acompanhamento

O luto é um processo interior complexo que envolve memória, identidade, vínculos e reorganização existencial. Acompanhar o luto implica reconhecer que não se trata apenas de superar uma perda, mas de reconfigurar a relação com quem morreu e reconstruir o sentido da própria vida. A Igreja é chamada a permanecer junto dos que choram, respeitando o tempo da dor e a singularidade de cada percurso. 

Neste caminho, a Tradição da Igreja oferece um recurso de grande valor espiritual e pastoral: a celebração da Eucaristia em memória dos defuntos. A oração de sufrágio, especialmente na Santa Missa, exprime de forma plena a comunhão que une a Igreja peregrina à Igreja que já partiu, testemunhando que o vínculo de amor não se rompe com a morte, mas se transforma na esperança da vida eterna. Como nos ensina o Catecismo, “a Igreja oferece sufrágios pelos defuntos, em particular o sacrifício eucarístico, para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus”.

A celebração das Missas pelos defuntos constitui, assim, um verdadeiro ato de cuidado: cuidado espiritual pelos que partiram, confiados à misericórdia de Deus, e cuidado pastoral pelos que permanecem, sustentados na sua dor. Em cada celebração, a memória é iluminada pela fé, o sofrimento encontra expressão e a esperança é alimentada. Além disso, estas celebrações possuem uma dimensão comunitária fundamental: impedem o isolamento dos enlutados, integram a perda na vida da comunidade e tornam visível a solidariedade eclesial. Ao recordar os defuntos, a Igreja afirma que cada vida permanece inscrita no mistério de Deus e na comunhão do Corpo de Cristo. 

Os ritos exequiais, nas suas múltiplas formas e propostas, enraizados nas realidades culturais concretas de cada lugar, devem ser expressão da presença e da esperança de toda a comunidade cristã; neles, o presbítero ocupa um lugar central como sinal sacramental ; preside à celebração, sem que, contudo, a ação eclesial se esgote nos ministros ordenados, pois, em comunhão com eles, também os fiéis leigos são chamados a participar ativamente, oferecendo proximidade, escuta e acompanhamento àqueles que enfrentam a perda.

Num tempo em que a morte tende a ser ocultada e o luto privatizado, a redescoberta desta prática assume um valor pastoral renovado. Ela educa para uma compreensão cristã da morte, sustenta o caminho interior do luto e abre à possibilidade de que a dor, vivida na fé, se transforme em caminho de amadurecimento e de esperança.

 

O contexto português: uma urgência pastoral inadiável

Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (2024)[6]:

  • ​Portugal apresenta um índice de envelhecimento de 192,4 idosos por cada 100 jovens;
  • ​A idade mediana da população atingiu 47,3 anos;
  • ​A taxa de natalidade situa-se em 7,9‰;
  • ​O número médio de filhos por mulher é de 1,40;
  • ​Mais de 30% das pessoas com 65+ vivem sozinhas;
  • ​Cerca de 40% das pessoas com 80+ apresentam limitações funcionais significativas.

Estes dados interpelam diretamente a ação pastoral e exigem uma leitura atenta da realidade concreta das nossas comunidades. 

Na região de Setúbal, marcada por contrastes sociais, mobilidade populacional e zonas de crescente isolamento particularmente em áreas periféricas e envelhecidas, estes desafios assumem contornos ainda mais exigentes. A conjugação entre envelhecimento, solidão e fragilidade social constitui um apelo claro à reorganização da presença pastoral, orientando-a para formas mais próximas, contínuas e territorialmente enraizadas.

Cuidar da fragilidade na doença, na morte e no luto exige uma presença estruturada, capaz de chegar aonde as redes familiares se tornaram também elas muito frágeis ou inexistentes. Implica igualmente reforçar a dimensão comunitária da fé, para que ninguém permaneça invisível ou desamparado.

É neste contexto que a Igreja é chamada a redescobrir a sua vocação de proximidade concreta. A Igreja tem de ser presença significativa junto dos mais frágeis e sinal visível de cuidado numa sociedade marcada pela dispersão e pelo isolamento. Neste horizonte, torna-se particularmente atual o apelo recente do magistério, que a todos recorda como o amor que nasce do coração de Cristo e impele a Igreja a aproximar-se das periferias humanas. É lá que a fragilidade se torna mais visível e mais esquecida. 

Esta interpelação reforça a necessidade de uma lúcida reorganização da geografia pastoral, capaz de responder às transformações demográficas, à dispersão territorial e às novas formas de solidão que marcam a realidade diocesana. Torna-se, assim, necessário repensar a distribuição das comunidades, a articulação entre paróquias e serviços e a constituição de redes que assegurem uma presença efetiva junto dos mais frágeis. Não se trata apenas de reorganizar estruturas, mas de recentrar a ação pastoral na lógica do cuidado, garantindo que nenhuma pessoa nem realidade concreta fique fora do horizonte da presença eclesial[7].

 

 2. Compaixão e empatia: uma conversão pastoral necessária

A missão de cuidar exige maturidade humana e espiritual. Num contexto marcado pela aceleração dos ritmos de vida, pela fragmentação das relações e pela dificuldade de escuta, a compaixão e a empatia tornam-se condições essenciais da ação pastoral. A compaixão cristã não é sentimentalismo, mas inteligência espiritual que permite reconhecer o outro na sua verdade, sem o reduzir às suas feridas. A empatia nasce desta atitude e traduz-se na capacidade de escutar sem antecipar, de acompanhar sem controlar e de permanecer sem impor.

Esta missão exige mais do que adaptações superficiais: pede uma transformação profunda do modo de compreender, discernir e agir pastoralmente. Não basta multiplicar respostas; é necessário aprender a integrar, a relacionar e a habitar a complexidade das situações humanas. A realidade das pessoas não se apresenta de forma linear, e por isso a ação pastoral deve estar para lá de abordagens fragmentadas; deve sim desenvolver uma visão mais ampla, unificada e atenta à totalidade da pessoa.

No centro desta transformação encontra-se o coração do pastor. Antes de qualquer estratégia ou organização, é o coração do presbítero que deve estar continuamente configurado ao de Cristo. Um coração capaz de se deixar tocar, de permanecer disponível e de não endurecer diante do sofrimento repetido. Um coração que sabe guardar, escutar e discernir, sem se refugiar na distância nem na eficiência funcional. Os pastores são chamados a uma formação contínua, que integre a arte de cuidar, o reconhecimento dos próprios limites e a gestão da própria vulnerabilidade. 

Quem cuida precisa também de ser cuidado; quem acompanha precisa de aprender a deixar-se acompanhar.

A pressão pastoral, a multiplicação de tarefas e a exposição constante ao sofrimento podem desgastar a capacidade de escuta e de proximidade. Quando isso acontece, o risco não é apenas o cansaço, mas a perda de sensibilidade interior. Por isso, é essencial criar espaços de silêncio, de oração, de partilha fraterna e de acompanhamento espiritual, onde o coração do pastor possa ser descansar e reconstruir-se.

Uma Igreja que cuida dos seus pastores protege o centro da sua própria missão. Só um coração habitado pela compaixão, pode gerar uma proximidade verdadeira. Só um pastor interiormente unificado pode sustentar, com fidelidade, a complexidade da vida que lhe é confiada. A compaixão pastoral, assim entendida, não é apenas uma atitude: é uma forma de presença que devolve humanidade às relações, e torna visível o cuidado de Deus no meio do seu povo.

 

3. Pastoral da Esperança: indignar-se com Amor, consolar com Verdade, anunciar com Coragem

A esperança cristã nasce da Ressurreição e permite enfrentar a realidade com lucidez, acolhendo a fragilidade como lugar onde a vida continua a ser chamada à plenitude. Sempre que o sofrimento se torna mais evidente, a Igreja é chamada a tornar visível a proximidade de Deus. O cuidado dos que sofrem constitui, assim, uma verdadeira Pastoral da Esperança, enraizada na vida concreta das comunidades e atenta às situações reais das pessoas.

Esta Esperança concretiza-se em práticas de proximidade e em comunidades que se organizam para cuidar. Comunidades capazes de responder à solidão e acompanhar de forma continuada os mais frágeis. Inclui também a capacidade de se indignar diante da indiferença e da desumanização. Esta indignação, quando nasce do Evangelho, não destrói, desperta; não paralisa, mobiliza; não fecha, abre caminhos de conversão. É a recusa de aceitar como normal aquilo que fere a dignidade da pessoa. Também implica o compromisso de responder com cuidado e responsabilidade ao que encontra. Esta Esperança exige uma presença pastoral coerente e integrada, capaz de articular dimensões espirituais, humanas e sociais, promovendo respostas enraizadas na vida das comunidades.

A Pastoral da Esperança forma comunidades capazes de ver, escutar e agir com fidelidade, sustentando a vida onde ela se encontra mais vulnerável. Nas palavras saudosas do Papa Francisco, “a Esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais”[8]. A Esperança cristã consola e compromete, permitindo à Igreja permanecer junto da dor e testemunhar que a última palavra sobre a vida humana pertence ao amor fiel de Deus.

 

Desafios Pastorais

À luz do caminho percorrido e dos desafios que emergem da realidade atual, a Diocese é chamada a assumir compromissos concretos. Só estes tornam visível a caridade da presença e consolidam, de modo coerente e eficaz, o cuidado pastoral dos mais frágeis.

 

Presença que sustenta: “Estava doente e fostes visitar-me” (Mt 25, 36)
  • Promover uma pastoral de visitação contínua e relacional, com equipas paroquiais de proximidade;
  • Valorizar a presença silenciosa como expressão da misericórdia;
  • Valorizar os agentes da Pastoral da Saúde, voluntários de assistência espiritual e religiosa e Ministros Extraordinários da Comunhão como membros essenciais desta missão pastoral. Todos devem integrar equipasque vão ao encontro dos mais frágeis, visitando idosos e doentes, oferecendo companhia e levando o consolo da Eucaristia;
  • Reforçar a presença de voluntários de assistência espiritual e religiosa nas capelanias hospitalares e outras instituições de saúde e solidariedade social;
  • Reforçar a valorização do sacramento da Unção dos Doentes, promovendo, sempre que possível, a sua celebração em contexto comunitário, integrada na Eucaristia, como expressão de cura, conforto espiritual e pertença eclesial.

 

Comunidades que acompanham: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18)
  • Criar grupos de apoio ao luto;
  • Formar leigos para o ministério da consolação;
  • Garantir que os espaços paroquiais, nomeadamente as capelas funerárias, sejam dignos, acolhedores e bem cuidados, com condições adequadas de acessibilidade e inclusão, favorecendo uma despedida serena e respeitadora;
  • Promover a criação de espaços próprios para a deposição das cinzas, cendrários ou columbários, assegurando que sejamlugares dignos, estáveis e devidamente autorizados; destinados à oração e à memória, em conformidade com as normas vigentes, devem preservara dimensão comunitária do luto e exprimindo a fé na ressurreição.

 

Igreja que anuncia e transforma: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5)
  • Integrar a esperança nos itinerários pastorais;
  • Promover ações de justiça e cuidado;
  • Tornar cada paróquia espaço de acolhimento e reconciliação;
  • Testemunhar a esperança com gestos concretos.

 

Conclusão

 

O nosso tempo exige uma renovação profunda do nosso modo de compreender, discernir e agir: uma inteligência pastoral capaz de integrar a complexidade da vida, de articular dimensões humanas, espirituais e comunitárias, e de superar visões fragmentadas da realidade. Só assim poderemos responder de forma mais fiel e adequada aos desafios contemporâneos, sem reduzir o mistério da pessoa, nem simplificar o drama do sofrimento.

Que a nossa Diocese seja verdadeiramente a casa onde a esperança se aprende, se partilha e se renova; que seja o lugar onde cada pessoa, independentemente da sua fragilidade, encontra rosto, nome e pertença. Que nos sintamos chamados a ser uma comunidade que não foge da fragilidade, que não teme a noite e que não desiste de ninguém. 

A caridade da presença, que somos chamados a viver, não é apenas uma resposta prática às necessidades humanas, mas a participação no próprio modo de agir de Deus, o que permanece, acompanha e salva. É nesta presença fiel que a Igreja se torna sinal visível da graça, sobretudo nos lugares onde a vida parece obscurecida pela dor.

Neste caminho, contemplamos Cristo, o Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, caminha à sua frente e não abandona nenhuma, sobretudo quando o sofrimento se torna mais pesado: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). Como recorda o Papa Leão XIV, “Cristo, Bom Pastor, é a esperança que não abandona o seu povo: caminha à frente, permanece na noite da dor e sustenta com o seu amor aqueles que mais sofrem”[9].

E no caminho de uma Igreja que se faz próxima da fragilidade humana, é justo elevar uma palavra de gratidão a todos aqueles que, com dedicação, discrição e sentido de missão, se tornam presença de cuidado e esperança junto dos mais vulneráveis.

Agradeço aos agentes pastorais, ministros ordenados, consagrados e leigos comprometidos, bem como aos profissionais de saúde e da ação social que, nas mais diversas responsabilidades, servem generosamente a vida humana nas suas fragilidades. Recordo igualmente os familiares, cuidadores e voluntários que, no silêncio do quotidiano, sustentam com amor e fidelidade a dignidade de quem sofre.

Estendo também este reconhecimento aos funcionários dos cemitérios, floristas e profissionais das agências funerárias que, com respeito, humanidade, acompanham as famílias na hora da despedida e prestam um contributo importante no cumprimento das obras de misericórdia que nos chamam a consolar os tristes e a sepultar os mortos.

Em todos se torna visível um cuidado fiel que acompanha, não abandona e se faz sinal de esperança no meio da dor, testemunhando a proximidade misericordiosa da Igreja junto daqueles que mais necessitam de amparo e consolação. Porque onde a caridade se faz presença, Deus torna-se visível e a esperança renasce. Mesmo no coração da dor.

 

Vaticano, junto da Sede de Pedro, 8 de maio de 2026
Primeiro aniversário da eleição do Papa Leão XIV

 † Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal

[1] Diocese de Setúbal, Carta Pastoral: Pastoral da Esperança 2025–2026, Setúbal, 2025.
[2] Congregação para a Doutrina da Fé, Samaritanus Bonus, 22 de Setembro de 2020.
[3] Gianfranco Ravasi, O que é o homem?, Lisboa: Paulinas, 2012.
[4] Américo Aguiar, Nota da Diocese de Setúbal sobre a profanação de sepulturas em Alhos Vedros.
[5] Conferência Episcopal Portuguesa, Ritual das Exéquias.
[6] Instituto Nacional de Estatística, Indicadores Demográficos 2024; Instituto Nacional de Estatística, Retrato da População 2024; Instituto Nacional de Estatística, Estatísticas Vitais 2024; Instituto Nacional de Estatística, Fertilidade em Portugal 2024; Instituto Nacional de Estatística, Condições de Vida dos Idosos 2024.
[7] Cf. Leão XIV, Exortação Apostólica Dilexi te.
[8] Francisco, Fratelli Tutti, 55.
[9] Papa Leão XIV, oc.

 

Newsletter

Em destaque

Conselho Pastoral Diocesano – Comunicado Final

Conselho Pastoral Diocesano – Comunicado Final

  Realizou-se hoje, dia 25 de julho, Festa do Apóstolo São Tiago, na Casa Episcopal, em Setúbal, o segundo Conselho Pastoral Diocesano.  A sessão de abertura foi presidida pelo Cardeal D. Américo...

Últimas notícias

Uma palavra de proximidade e comunhão com o Papa Leão XIV

Uma palavra de proximidade e comunhão com o Papa Leão XIV

  Há momentos em que, mais do que muitas palavras, importa estarmos próximos. E este é, sem dúvida, um desses momentos. Quero, antes de mais, deixar ao nosso querido Papa Leão XIV uma palavra muito sentida de amizade, de carinho, de solidariedade e, sobretudo, de...

Agenda

Out 10
Out 24
Nov 14