Nota Episcopal: Sobre a Participação Política

Mar 19, 2025

 

 

Nota Episcopal

Sobre a Participação Política

 

Caras irmãs e irmãos Sadinos, mulheres e homens de boa vontade,

Todas as épocas são singulares nas suas incertezas e angústias, mas também nos sinais de alento e esperança. Escrevo esta Nota Episcopal consciente do tempo que estamos a viver e do futuro próximo que nos aguarda.

Acredito que a maioria dos portugueses e, de um modo concreto os homens e mulheres da Diocese de Setúbal, estão conscientes das crises que nos assolam e muito particularmente da crise política que provocou a queda do governo e a necessidade de termos pela frente mais um período eleitoral.

Neste sentido, com humildade, mas também com veemência, desejo apelar à participação política de todos vós, nas várias eleições que se avizinham: Legislativas, Autárquicas e Presidenciais.

Em todas elas, os católicos têm a obrigação de participar, mas não só. Johann-Baptist Metz, teólogo alemão considerado o fundador da nova teologia política, é contundente numa das suas obras ao afirmar que “a religião, pelo menos a bíblica, a judaico-cristã, tem uma dimensão política intrínseca, que só pode negar-se por oportunismo ou auto-engano (…) Por apolítico ou politicamente neutral o Filho de Deus não teria sido crucificado”[1]. É necessário, eu diria mesmo, é urgente que os princípios e valores cristãos se vejam de forma clara e assumida na vida dos partidos e dos movimentos políticos. Já lá vai o tempo em que era normal ouvir referências à ala católica da bancada A ou B, do partido C ou D, ou ainda dos movimentos aos sindicatos e em tantas outras estruturas de representação política e ou partidária.

Citando S. Paulo VI, disse-nos o Papa Francisco: “a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. Falo da POLÍTICA com maiúsculas, não da politiquice. Falo da política que escuta a realidade, que está ao serviço dos pobres, não da que está escondida em grandes edifícios com longos corredores. Falo da política que se preocupa com os desempregados e sabe muito bem como pode ser triste um domingo quando a segunda-feira é um dia a mais sem poder ir trabalhar. Se a vemos assim, a política é muito mais nobre do que aparenta.”[2]

A POLÍTICA é nobre, disse o Papa Francisco, num apelo à necessidade de que os católicos estejam presentes na nobre missão de fazer política, de participar na vida da pólis, com capacidade de intervir, de inovar, de corrigir e fiscalizar. Mas, seguindo S. Paulo, é fundamental que “nada façais por ambição, nem por vaidade; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós próprios, não tendo cada um em vista os próprios interesses, mas todos e cada um exatamente os interesses dos outros.”( Fl 2, 3-4)

Assim, não alimentemos nem sejamos promotores de “assassinatos de caráter”, de destruição de pessoas e famílias com base em boatos, denúncias que apenas servem para retirar do caminho os concorrentes adversários… por vezes até dentro da própria estrutura de pertença. Exijamos saber o que cada candidato pensa, o que propõe, o que quer efetivamente fazer. Exijamos respostas aos problemas reais dos cidadãos e das nossas comunidades. Nas nossas ações e nas nossas escolhas, é urgente seguir o apelo do Papa Francisco: “escutai os homens, mulheres, idosos, jovens e crianças reais, nas suas realidades, nos seus gritos silenciosos expressos nos seus olhares e nos seus gemidos profundos. Prestai atenção de modo a não dar respostas a perguntas que ninguém faz, a não dizer palavras que não interessam a ninguém, nem são úteis. Escutai com os ouvidos abertos à novidade e com um coração samaritano.”[3]

Não votemos nos mais simpáticos ou nos mais ruidosos, apenas porque parecem mais simpáticos ou porque revelam maior capacidade na luta verbal dos debates… sejamos mais exigentes com as candidaturas e connosco próprios.

Estou até mesmo convencido de que, para uma significativa percentagem de concidadãos, os debates «esquerda vs direita», já não dizem nada ou quase nada. Mais que slogans vazios e ocos, procuremos escutar e dialogar com quem fale dos problemas reais e das respetivas soluções, como é o caso da saúde, da educação ou da habitação; os pensionistas, os estudantes, os jovens, os trabalhadores, os precários, os migrantes, a preocupação com a sustentabilidade da segurança social, com a mobilidade, a ecologia integral. Escutar aqueles que, com verdade, não escondem a dificuldade do caminho e do processo e não embarcam em soluções mágicas, fantasiosas e imediatas. Na verdade, escutar aqueles para quem a pessoa, cada pessoa, é o centro e a razão primeira do tão nobre exercício da política.

E, temos de ser honestos, é isto que tem ocupado o prime time das notícias e das agendas dos potenciais candidatos? Infelizmente, nem sempre ou raramente. O assunto é quase sempre o adversário. Impor-me contra o outro, em vez de me impor por mim mesmo pelas minhas ideias, projetos e compromissos, é o que mais testemunhamos nestes últimos tempos da vida política.

Creio que a República tem de desenvolver mecanismos de defesa dos eleitos, quando infelizmente caem e/ou são arrastados para a lama, sendo inocentes. A presunção de inocência tem de ser aplicada sempre e a todos. Com tudo o que temos vivido e testemunhado em prol de tantos casos, nas últimas décadas, a República arrisca-se, isto é, arriscamo-nos a não poder contar com a disponibilidade de concidadãos com capacidades de excelência para servirem a res pública, porque naturalmente não estão dispostos aos riscos da forma atual de fazer política, nem as suas famílias.

Urge um debate profundo, sem populismos, em torno do Estatuto dos eleitos, das remunerações, das incompatibilidades, penalizações e defesa. Se não o fizermos, todos perderemos direitos enquanto cidadãos com deveres cívicos.

Por último, reforço o apelo, sensibilizando, provocando mesmo, para que sejamos proativos, militantes ou não, filiados, associados, membros, se assim o entenderem, das mais diversas realidades da vida política e associativa. Porém, que nunca deleguem nos outros, as decisões e as responsabilidades que determinam o presente e o futuro das nossas comunidades, do nosso país e, nos dias de hoje, do próprio continente europeu.

Que a Diocese de Setúbal seja um exemplo de cidadania interventiva e responsável. Assim o exigem de um modo particular, os mais pobres, os mais frágeis e dependentes desta nossa terra.

Que a Diocese de Setúbal seja um exemplo de cidadania interventiva e responsável na forma como irá acompanhar e viver os próximos períodos eleitorais.

Termino com as palavras do Papa Francisco: “Por que não relançar, apoiar e multiplicar os esforços para uma formação social e política que comece com os jovens? Por que não compartilhar a riqueza do ensinamento social da Igreja? Podemos prever lugares de debate e diálogo, favorecendo sinergias para o bem comum. Se o processo sinodal nos preparou para o discernimento comunitário, que o horizonte do Jubileu nos veja ativos, peregrinos de esperança. Este é o papel da Igreja: envolver na esperança, pois sem ela administra-se o presente, mas não se constrói o futuro. Sem esperança seríamos administradores, equilibristas do presente, não profetas e construtores do futuro.”[4]

Neste dia muito especial, dedicado a S. José e a todos os pais, rezemos ao Padroeiro da Igreja Universal[5]:

Salvé, guardião do Redentor e esposo de Maria!
A vós, Deus confiou o seu Filho;
em vós, Maria depositou a sua confiança;
convosco, Cristo tornou-se homem.
Bem-aventurado S. José, mostrai-vos pai, também para nós,
e guiai-nos no caminho da vida.
Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem, e defendei-nos de todo o mal.

Amen.

 

Setúbal, 19 de março de 2025
Solenidade de São José

† Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal

 

[1] Dios y Tiempo. Nueva Teologia Politica. Madrid: Editorial Trotta, 2002, p.101

[2] Papa Francisco , Vídeo do Papa para o Mês de Agosto de 2024 da Rede Mundial de Oração do Papa – Papa: rezemos para que os líderes políticos estejam ao serviço de seu povo – Vatican News

[3] Papa Francisco – Mensagem ao Fórum Internacional da Ação Católica (27 de novembro de 2022).

[4] Papa Francisco – Discurso na Visita Pastoral a Trieste, Itália, a 7 de julho de 2024 – Visita Pastoral a Trieste (Itália): Discurso do Santo Padre (7 de julho de 2024) | Francisco

[5] Papa Francisco – Oração a S. José na Catequese quarta-feira, de 16 de fevereiro de 2022.

 

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