Novo Desafio… da inscrição na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica

Mar 15, 2026

 

Queridos Pais e Encarregados de Educação, Educadores, Clero, Agentes Pastorais, Estudantes,

e todos, todos, todos…

Volto a escrever-vos, uma vez mais, sobre a importância da inscrição na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC). Faço-o porque este tema, longe de se esgotar, ganha ainda maior urgência num momento em que o mundo atravessa perturbações profundas: conflitos bélicos que se alastram, crises económicas e sociais que fragilizam milhões, tensões culturais que polarizam comunidades e um clima global de incerteza que desafia a nossa capacidade de educar para a esperança. Nunca é demais recordar aquilo que nos dizia o Papa Francisco no seu Pacto Educativo Globali: vivemos uma mudança epocal, uma metamorfose cultural e antropológica que coloca a educação à prova e exige a coragem de recolocar a pessoa no centro de todos os processos educativos.

Aliás, esta preocupação não é nova. Acabamos de celebrar 60 anos da Declaração GRAVISSIMUM EDUCATIONIS – Sobre a Educação Cristãii (28 de outubro de 1965) e percebemos que já aí o Concílio Vaticano II convidava a Igreja a dialogar com o mundo contemporâneo e percebemos como aquele texto foi profético ao defender uma educação aberta, crítica e dialogante, capaz de responder às mudanças culturais e de promover o bem comum. Na mesma linha, o papa Leão XIV na Carta Apostólica Traçar Novos Mapas de Esperançaiii (Por ocasião do LX aniversário da Declaração Conciliar Gravissimum Educationis) sublinha a necessidade de unir tradição e inovação, afirmando que o discernimento cultural é parte essencial da missão educativa, mas que “ninguém educa sozinho”.

É neste horizonte, simultaneamente desafiante e esperançoso, que se compreende a relevância da EMRC no sistema educativo português. A escola não é apenas um espaço de transmissão de conteúdos. É, como lembra a própria carta que anteriormente vos dirigi, um lugar para a construção de cultura, liberdade e diálogo, onde todo o currículo (explícito e oculto) contribui para formar pessoas plenas, responsáveis e inseridas no seu tempo.

A EMRC, integrada no currículo com o mesmo rigor das restantes disciplinas, oferece às crianças e jovens um espaço único para pensar o sentido da vida, compreender o lugar das religiões e das culturas na sociedade, dialogar com a diferença e crescer numa visão humanista inspirada pela mundividência cristã, mas aberta a TODOS, TODOS, TODOS: crentes, não crentes, pessoas em busca, indiferentes ou de outras tradições religiosas.

Num mundo onde crescem fenómenos de fechamento identitário, tribalismos digitais e relações de “mesmidade”, que impedem o encontro com o outro, a EMRC é um espaço de diálogo plural que forma para a convivência, a empatia e a fraternidade. É uma disciplina que acolhe a diversidade e a transforma em ponte, não em muro. É um lugar de escuta, não de exclusão.

Ao mesmo tempo, vivemos num contexto em que a Inteligência Artificial marca cada vez mais a vida diária, as decisões políticas, económicas e educativas. Os documentos da UNESCOiv sobre a IA alertam para os riscos de discriminação algorítmica, decisões opacas e disseminação de desinformação, sublinhando a urgência de cultivar uma cidadania digital crítica, ética e responsável. Aqui também a EMRC desempenha um papel fundamental: ajuda os alunos a olhar a tecnologia com humanismo, a discernir o verdadeiro do falso, a cultivar consciência ética e a compreender que nenhuma máquina substitui a profundidade da relação humana, da interioridade e da responsabilidade moralv.

Por ser uma disciplina confessional e simultaneamente aberta, inclusiva e dialogante, a EMRC constitui um contributo precioso para a formação integral de cada estudante, a partir de uma visão cristã da pessoa e da vida. As crianças e jovens precisam, cada vez mais e com mais urgência, deste espaço de reflexão, de encontro e de esperança, porque educar é sempre muito mais do que instruir: é capacitar para viver com sentido, propósito, liberdade e responsabilidade num mundo complexo.

Por isso vos renovo o apelo, com toda a convicção: inscrevam os vossos filhos e educandos na disciplina de EMRC. Não como um gesto identitário, mas como uma escolha consciente a favor do diálogo, da abertura ao outro, da formação integral e da construção de um futuro mais humano para todos, todos, todos.

Com estima e confiança renovada,

Setúbal, 15 de março de 2026, IV Domingo da Quaresma, Domingo Laetare, Domingo da Alegria

† Cardeal Américo Aguiar
Bispo de Setúbal

 

i Pacto Educativo Global – vademecum-portuges.pdf

ii Gravissimum educationis

iii Carta Apostólica “Traçar Novos Mapas de Esperança” por ocasião do LX aniversário da Declaração Conciliar “Gravissimum Educationis” (27 de outubro de 2025)

iv The Six Pillars Framework | UNESCO
Guía para el uso de IA generativa en educación e investigación

v Antiqua et nova. Note on the Relationship Between Artificial Intelligence and Human Intelligence (28 January 2025)

 

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