Por ocasião do Dia Internacional da Pessoa Cigana, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, participou num encontro com membros da comunidade cigana do Bairro da Bela Vista, em Setúbal, nas instalações da Cáritas Diocesana. O encontro, acolhido pelo Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, permitiu um diálogo franco sobre os desafios enfrentados pela comunidade.
Durante o evento, Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou a importância da educação como instrumento fundamental para a inclusão social. “Durante muito tempo a comunidade muito cedo começava a trabalhar em família. Os rapazes e sobretudo as meninas, as mais jovens, havia uma espécie de tradição que, hoje em dia, já não é suficiente”, referiu o Presidente, apontando a necessidade de mudança deste paradigma.
O Chefe de Estado alertou para o crescente clima de intolerância que se vive atualmente. “Há uma manipulação política, é uma coisa que está a jeito, sobretudo nos períodos de medo”, afirmou, acrescentando que “infelizmente, vivemos numa época em que são muitos preconceitos e muitas desigualdades e discriminações”.

D. Américo Aguiar, por sua vez, destacou a importância de reconhecer a pessoa acima de qualquer categorização. “Este dia é o Dia Internacional da Pessoa Cigana. Acima de tudo, eu gostava de sublinhar o Pessoa. É daí que nós temos de partir”, referiu o Cardeal. O Bispo de Setúbal mostrou preocupação com a polarização social: “Nós estamos num tempo, como disse o Sr. Presidente da República, que é muito perigoso, que é pólvora, que é nós começarmos a aceitar que há pessoas de bem e há pessoas de mais”.
Na visão do prelado, a solução passa pela educação. “Isto não vai à pancada. Isto vai pela educação. Ou seja, sermos capazes de criar as melhores condições possíveis para que estas meninas e estes meninos que estão aqui, quando ganhem a nossa idade, falar de problemas da comunidade cigana seja alguma coisa que já não faz parte da história”.
Por isso, D. Américo Aguiar reforça que “o nosso papel é provar por A mais B mais C, com a vida, com o sucesso, com o sucesso no comércio, com o sucesso no trabalho, com o sucesso na família, que uma mentira repetida muitas vezes não é verdade. É mentira, mesmo”.

O encontro contou também com depoimentos da comunidade cigana. Um líder comunitário do Bairro da Bela Vista partilhou a sua experiência: “Hoje em dia parece que as coisas mudaram, para pior. Por acaso fui integrado já há seis anos numa fábrica, e pronto, lá nunca senti essa parte, nunca senti nada disso, mas aí onde tenho passado, em outros sítios, há sempre aquele olhar de lado”.
A esposa deste líder, não sendo cigana, ofereceu uma perspetiva única sobre a integração: “Eu não sou cigana, o meu marido é cigano, portanto temos aqui a noção de duas culturas totalmente diferentes. Trabalhamos para que os nossos filhos estudem, e que demonstrem a diferença”, relatou, apontando também problemas de discriminação: “Por vezes, torna-se complicado, chegarmos a certos sítios e não entramos, porque o restaurante não tem vaga, mas se nós ligarmos, olha, tem vaga”, lamentou.
Paulo Valente da Cruz, presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, sublinhou o trabalho desenvolvido pela instituição. “Damos o apoio de uma forma transversal a todo o tipo de pessoa. Somos a favor da inclusão e, portanto, eles estão precisamente incluídos nos mesmos sítios que têm os outros tipos de crianças, os outros tipos de pessoas idosas, os outros tipos de jovens”, explicou.
Valente da Cruz destacou ainda o desafio particular relacionado com a educação: “Nem sempre as famílias pensam todas da mesma maneira quanto à inserção da educação, que é a base do indivíduo, mas já começa a haver, de facto, famílias que contam connosco como Cáritas Diocesana de Setúbal para fazer esse caminho”.

No final do encontro, em declarações aos jornalistas, o Presidente da República reforçou a mensagem de integração e igualdade: “Este evento foi importante porque é uma forma de lembrar que o que é a força de sermos todos pessoas e sermos todos cidadãos portugueses é realmente a procura da igualdade, o respeito à igualdade e a preocupação da integração”, concluiu Marcelo, defendendo a construção de uma sociedade mais inclusiva “pela positiva”.
Texto e fotos: Ricardo Perna




