“Quero-me apresentar com a simplicidade e a sinceridade do Evangelho”

Dez 10, 2024

Recém-nomeado para o Patriarcado de Lisboa, D. Rui Gouveia revela que a notícia da sua nomeação foi acolhida com surpresa, terror e disponibilidade. Nesta primeira entrevista depois da sua nomeação, o novo bispo auxiliar de Lisboa revela que se apresenta “com a simplicidade e a sinceridade do Evangelho, que é o nosso tesouro, e é isso que eu sou chamado a anunciar”.

 

D. Rui, começava por lhe perguntar como é que acolheu este desafio que o Papa Francisco lhe lançou de ser Bispo Auxiliar de Lisboa?
Primeiro, o primeiro sentimento foi de surpresa. Surpresa por ser inesperado. O segundo sentimento, posso dizer que foi quase de terror. E o terceiro sentimento foi lembrar-me muito daquilo que tenho vivido no Advento e esta disponibilidade para Jesus de facto falar-nos e sermos dele e respondermos com todo o coraçãoE perante isto aceitei esta nova missão, certamente conturbado com tudo o que isto pode fazer e ter consequência na minha vida, mas também por toda a esperança que eu tenho e que tenho que depositar nos Nosso Senhor, que me chama e eis-me aqui.

Já era pastor, vai continuar a ser pastor, mas também agora pastor de pastores. Portanto, que diferenças vê neste trabalho que agora vai iniciar?
Assim, a primeira diferença é certamente a responsabilidade. A responsabilidade para ser o sucessor dos apóstolos. Só de pensar nisto põe qualquer um em sentido e creio que daqui emano o desejo de ser fiel a esta missão que a Igreja me confia pela pessoa do Papa Francisco e tentando e quero profundamente dar o melhor que tenho. Sou eu próprio, mas que Deus Nosso Senhor faça de mim aquilo que Ele quiser.

Inicia o seu múnus episcopal num tempo de pós-sínodo em que há uma transformação em curso na Igreja. Como é que vê também este seu trabalho de bispo agora nesta nova realidade que o Papa Francisco também foi trazendo para a Igreja?
Creio que a minha posição será muito aquela que tenho tido na minha vida, que é primeiro amar aqueles que me são dados e caminharmos juntos. Neste caso concreto, é-me dada neste momento uma nova Igreja para eu missionar, vamos assim dizer. Fá-lo-ei como bispo auxiliar na comunhão com o Senhor Patriarca que preside à diocese, ou Patriarcado de Lisboa e depois neste corpo que é esta Igreja particular, obviamente que me situarei no meu lugar para nesta comunhão poder caminhar. D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa, acaba de publicar também uma carta pastoral. Creio que me situarei muito dentro desse contexto e deste seu desejo, no seu pontificado.

 

Não vai para muito longe, muda-se para uma diocese vizinha, mas como é que é também deixar esta diocese de Setúbal que durante tantos anos foi sua?
Pronto, é uma grande pergunta, não é? Porque a resposta se calhar é aquela que me causa mais transtorno interiormente. Transtorno porque no sentido em que é Deus Nosso Senhor que chama, é certo, mas Ele chama para um lugar concreto e eu fui chamado para Setúbal, tenho esta consciência clara da minha vocação e aprendi a amar esta diocese, a servir esta diocese, a gastar-me aqui na esta diocese e agora Nosso Senhor chama-me para partir em missão para esta diocese vizinha.
Eu creio que tem sido, e tenho rezado muito isso, um sinal. Lisboa fundou esta diocese, somos filha de Lisboa, estamos neste ano jubilar dos 50 anos e creio que os vínculos que daqui brotam são vínculos de comunhão e de paz e creio que é um gesto muito bonito e belo de maternidade desta diocese que é o Patriarcado de Lisboa, que nos deu origem e que agora acolhe como bispo auxiliar um padre oriundo desta diocese de Setúbal. Creio que isso é um gesto muito bonito e que vale por si.

Torna-se bispo também numa altura em que ser da igreja parece complicado e assumir cargos de maior responsabilidade, de muito maior visibilidade, com escrutínio constante é também um desafio ainda maior. É particularmente desafiante assumir o episcopado nesta altura?
Eu acho que é desafiante em qualquer época, quando levamos a sério a vocação que Nosso Senhor nos dá. Claro que a nossa época é complexa porque muitas vezes falta-nos a distância para apreendermos os grandes problemas e darmos uma resposta adequada.
A história muitas vezes permite olharmos para trás, perceber as respostas que foram mais adequadas, mas quem vive o presente tem sempre essa dificuldade na prudência, no discernimento, mas creio que tem-me vindo muito à cabeça, ao coração, uma passagem de São Paulo, da 2ª Carta aos Coríntios, do capítulo 1º, que fala na simplicidade e sinceridade. E é assim que eu me apresento, quero-me apresentar com a simplicidade e a sinceridade do Evangelho, que é o nosso tesouro, e é isso que eu sou chamado a anunciar. Nosso Senhor que nos ajuda a descomplexificar o nosso tempo, mas a sermos fiéis à mensagem que recebemos e que somos chamados a anunciar.

 

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