No âmbito da Visita Pastoral à paróquia da Cova da Piedade, o Museu da Cidade, em Almada, tornou-se o cenário de um momento emotivo de diálogo e fraternidade com a realização do Encontro Ecuménico e Interreligioso pela Paz. O evento, que teve lugar ontem, dia 23 de abril, reuniu representantes das confissões católica, judaica, muçulmana e ortodoxa, que convergiram na ideia de que a fé deve ser um instrumento de união e nunca um pretexto para a violência.
Entre os presentes, o Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, destacou a urgência de substituir o medo pelo conhecimento mútuo, afirmando que “se aceitamos aprofundar as razões da nossa fé, encontramos a fraternidade universal” e reforçando que “não há nenhuma hipótese de justificar destruir nada usando a Palavra de Deus”. Para o prelado, a chave para a harmonia social reside na proximidade, pois, como sublinhou, “o desconhecimento gere medo e o medo justifica tudo”, cabendo aos líderes religiosos alimentar a estima que vence o preconceito.

Esta visão de unidade foi partilhada pelo Sheikh Adil Karim, da Comunidade Islâmica do Sul do Tejo, que recordou que a divindade é comum a todos, independentemente da designação utilizada, notando que “este tipo de encontros faz florescer essa luz que por vezes anda apagada”.
No mesmo sentido, o Padre Constantino Paladi, da Comunidade Ortodoxa de São Jorge, trouxe uma reflexão sobre a responsabilidade individual, defendendo que o homem espiritual difunde a paz “não pela dureza ou força, mas pelo exemplo”. O sacerdote ortodoxo foi perentório ao declarar que “ninguém pode justificar a guerra com Deus”, uma ideia reforçada pelo Pe. José Pinheiro, da Igreja Católica, que apontou o serviço ao próximo e o desejo de santidade como o guia fundamental para a convivência humana.
A dimensão cívica do encontro foi sublinhada por Filipe Pacheco, vice-presidente da Câmara Municipal de Almada, que considerou uma honra para o município acolher uma iniciativa desta natureza. O autarca reconheceu o papel vital das religiões na coesão social, mas não poupou críticas à instrumentalização da fé, classificando como uma “perversão sem escrúpulos da natureza humana” o facto de se subverterem ensinamentos religiosos para validar conflitos.

Filipe Pacheco alertou para a gravidade de ver quem lança a guerra arvorar-se como promotor da paz, reiterando, contudo, uma nota de esperança ao afirmar que “por mais discórdia que haja, é possível construir a paz”. O encontro encerrou com um compromisso renovado de colaboração, com D. Américo Aguiar a apelar a que as diferentes culturas e confissões façam um caminho conjunto, respeitando a diversidade e garantindo que “o nome de Deus não sirva para fazer guerra”.
No final do encontro, um grupo de crianças do Centro Social e Paroquial Padre Ricardo Gameiro entoou o Hino da Alegria, soltou alguns balões e, a terminar, foram soltas algumas pombas em nome da Paz.

Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna




