Sermão do Encontro – Senhor dos Passos 2026

Mar 30, 2026

PROCISSÃO DO SENHOR DOS PASSOS
SERMÃO DO ENCONTRO – SETÚBAL 2026

 

 

Eminência Reverendíssima, D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal,
Distintas Autoridades Civis, Religiosas e Militares aqui presentes,
Meus queridos irmãos e irmãs,

 

Depois de muitas décadas de interrupção desta procissão em honra do Senhor dos Passos, que alegria podermos estar aqui hoje juntos a viver este momento! E vivê-lo em dia de Ramos é para nós ainda mais significativo. Hoje de manhã erguemos ramos de palmeira e oliveira nas nossas mãos. Os ramos da vitória de Jesus sobre o pecado, da vitória de Cristo sobre todas as formas de morte. Mas sabemos bem que Deus vê mais longe do que os nossos gestos. Ele vê o que carregamos por dentro.

E talvez, hoje, no silêncio do nosso coração, haja mais peso do que alegria. Talvez fruto de cansaços acumulados do nosso dia a dia. Quem sabe por preocupações que não queremos partilhar, e que por isso mesmo, ninguém conhece, ou até por feridas que o tempo ainda não curou, ou que não permitimos que o Senhor cure.

Entramos neste Domingo de Ramos como aquele povo de Jerusalém:

aclamamos… mas não compreendemos totalmente.
cantamos… mas trazemos dúvidas.
esperamos… mas temos medo.

E é precisamente neste caminho que a Igreja nos convida a contemplar um dos encontros mais humanos, mais desarmantes, mais verdadeiros de toda a fé cristã: o encontro entre Maria e Jesus.

Jesus caminha rumo ao Calvário. O corpo já está imensamente ferido. A alma esmagada pelo peso de tudo aquilo que carrega — não apenas a cruz de madeira, mas a cruz do mundo inteiro:

A incompreensão do seu povo.
A traição dos discípulos que Ele mesmo escolheu.
A solidão. O abandono…

E no meio daquele vazio… Ele vê Maria. E Maria, sua querida mãe, vê-O. E naquele instante… o mundo para! Não há palavras. Porque há dores que não cabem em palavras. Não há explicações. Porque há mistérios que não se explicam. Há apenas um olhar. Um olhar de uma mãe, porque num olhar de uma mãe tudo cabe:

o amor de uma vida inteira…
a dor de não poder salvar…
a entrega de quem aceita confiar, mesmo sem entender.

Maria não tira a cruz dos ombros de Jesus. Maria não muda o destino do seu filho. Maria não resolve!

Maria fica.

E talvez nunca tenhamos percebido o quanto isto é exigente.

Ficar… quando tudo em nós quer fugir.
Ficar… quando não conseguimos encontrar soluções.
Ficar… quando o sofrimento do outro nos rasga por dentro.

 

Meus queridos irmãos e irmãs, este encontro não fala apenas de um acontecimento histórico. Ele está a acontecer novamente hoje. Aqui. Nesta terra querida de Setúbal que tamos amamos. Acontece nas nossas ruas. Nas nossas casas. Nas nossas famílias. Quantas Marias existem aqui entre nós? Mães que carregam angústias silenciosas pelos filhos. Pais esmagados pela responsabilidade de não poderem falhar, mesmo quando tudo falha à sua volta. Avós que vivem dias inteiros à espera de um telefonema que não chega. Jovens que não conseguem o seu primeiro emprego nem um lugar onde viver…

Tantos que veem a sua dignidade posta em causa… Quantas pessoas estão hoje aqui… de pé por fora, mas que por dentro sentem que estão a cair? E quantos “Jesus” continuam a passar no meio de nós? Pessoas a carregar cruzes que ninguém vê. A cruz de uma depressão escondida. A cruz da ansiedade que impede de viver o presente. A cruz de uma relação desfeita. A cruz da falta de sentido no caminho da vida. A cruz de uma vida que se tornou pesada demais.

E depois… há o mundo. Um mundo ferido. Marcado por guerras que parecem não ter fim. Por conflitos armados que destroem vidas inocentes. Por uma insegurança que se infiltra devagar no coração das pessoas e nos leva a duvidar de tudo e de todos.

Vivemos rodeados de notícias que alimentam o medo. Vivemos num tempo em que é mais fácil desconfiar do que confiar.

Mais fácil fechar-se do que abrir-se. E, sem darmos conta… vamos endurecendo. Vamos passando ao lado de quem carrega a sua cruz. Vamos deixando de sentir o peso uns dos outros. Vamos aprendendo a não ver a dor do outro.

E é aqui que este encontro nos confronta. Porque o olhar de Maria e de Jesus rompe esta indiferença.

É um olhar que diz:
“Eu vejo-te.”
“Eu não fujo de ti.”
“Eu fico contigo até ao fim.”

E é exatamente isto que o Senhor pede à sua Igreja hoje. É isto que significa o caminho que nos tem sido proposto pelo nosso Bispo D. Américo para a nossa querida diocese de setúbal: ser uma Igreja atenta a todos, onde todos cabem e são necessários. Uma igreja cada vez mais sinodal, que sabe pôr-se a caminho…

Mas atenção… isto não pode ser reduzido por nós a uma simples teoria. Ser Igreja sinodal não é fazer muitas reuniões. Não é apenas falar de participação. É permitir que o coração seja tocado pelo encontro com o outro. É aprender a ver como Maria vê. É ter a coragem de parar como Jesus para naquele olhar. É deixar que a dor do outro nos atravesse… e não nos deixe iguais.

Uma Igreja sinodal, na nossa Diocese de Setúbal, será verdadeira apenas se for uma Igreja de encontros reais:

– Quando alguém deixa de ser um número e passa a ser um rosto.
– Quando alguém deixa de ser um problema e passa a ser um irmão.
– Quando alguém deixa de estar sozinho… porque eu decidi ficar.

Meus irmãos queridos irmãos e irmãs, talvez o maior drama do nosso tempo não seja apenas o sofrimento dos inocentes…mas a solidão que vive aquele que sofre. E talvez o maior pecado de hoje… seja habituarmo-nos a isso. Hoje, Jesus continua a passar diante de cada um de nós. Mas não O veremos se não tivermos coragem de parar. Ele passa naquele que sofre em silêncio. Naquele que sorri por fora, mas está destruído por dentro. Naquele que ninguém escolhe. Naquele que já desistiu de esperar.

E Ele olha-nos. E mesmo assim esse olhar não acusa… mas interpela-nos: “Vais passar ao lado… ou vais ficar?”

Talvez não possamos tirar a cruz a ninguém. Mas podemos fazer algo imenso: não deixar ninguém carregá-la sozinho. Podemos ser aquele olhar que sustenta. Aquela presença que não abandona. Aquele silêncio que acompanha. E às vezes… isso basta para salvar um coração ferido.

Meus queridos irmãos e irmãs, se esta Semana Santa não nos fizer mais humanos… então ainda não a compreendemos. Se não nos fizer chorar com quem chora… Então não percebemos nada do caminho de Jesus! Se não entendemos Jesus nada sabemos sobre o Amor! Se não conhecemos o amor não podemos saber nada sobre Deus. Se os mistérios que celebramos nesta semana não nos fizerem parar… ainda estamos a passar ao lado de Jesus.

Hoje, peçamos uma graça simples… mas exigente: Senhor, dá-nos um coração que não fuja. Um coração que veja. Um coração que se comova. Um coração que fique. Que Maria nos ensine a fidelidade no silêncio. Que Jesus nos ensine o amor que não desiste.

E que, no meio deste mundo marcado pelo medo, pela incerteza e pela dor, a nossa querida Diocese de Setúbal seja um lugar onde ninguém se sente sozinho… porque há sempre alguém que decide ficar.

 

Pe. Nuno Pacheco, SCJ
Vigário Forâneo do Barreiro – Moita
Pároco da Moita do Ribatejo e de Alhos Vedros

Newsletter

Em destaque

Conselho Pastoral Diocesano – Comunicado Final

Conselho Pastoral Diocesano – Comunicado Final

  Realizou-se hoje, dia 25 de julho, Festa do Apóstolo São Tiago, na Casa Episcopal, em Setúbal, o segundo Conselho Pastoral Diocesano.  A sessão de abertura foi presidida pelo Cardeal D. Américo...

Últimas notícias

Agenda