“Sinto que saio desta peregrinação transformado”

Set 12, 2025

Ricardo Costa, da paróquia de Vale Milhaços, à chegada à catedral de Santiago de Compostela

 

Na passada semana de 1 a 7 de setembro pude viver a experiência de peregrinar, em diocese, rumo a Santiago de Compostela, partindo da cidade portuguesa de Valença.

Fomos cerca de 90 peregrinos, entre os 17 e os 80 anos, de vários pontos da região de Setúbal, que decidimos aceitar o desafio do nosso bispo de transformar o simples ato de caminhar, numa jornada de encontro com Deus, com os irmãos e connosco próprios, celebrando também assim os 50 anos da nossa diocese.

Ao longo dos dias e das várias etapas do caminho, e muito graças aos sacerdotes e seminaristas que nos acompanharam e com os quais pudemos conviver e estreitar relações, tivemos muitos momentos de oração, quer com a Liturgia das Horas, com a oração do Terço, o exercício da Via-Sacra, a renovação das promessas batismais, a Santa Missa diária e, como cantar é rezar duas vezes, com muita música católica!

Claro que esta bonita e enriquecedora experiência de crescimento pessoal e espiritual, não teria sido possível se não tivesse feito o caminho em grupo, com os meus irmãos de Setúbal e em unidade com o resto da diocese que não nos pôde acompanhar fisicamente.

Tenho sentido em determinadas fases da vida, e agora também ao longo do caminho, que, tal como São Paulo escreveu na sua epístola aos Filipenses, “tudo posso naquele que me fortalece”. A dor e o sofrimento são condições do ser humano, no entanto, e pude ver isso em cada um dos meus irmãos peregrinos, não há cansaço ou angústia que supere o amor que Jesus, que se ofereceu para passar pelo maior dos sofrimentos e pela maior das humilhações, tem por todos nós.

Saber isso deve ser suficiente para nos animar mesmo nos momentos mais difíceis, levando-nos a ser o rosto de Cristo vivo, como tantas vezes nos pede o nosso bispo.

Graças a Deus não tive grandes provações a nível físico, o que me deu a oportunidade de ajudar quem mais precisou, quer fosse com uma piada, uma palavra de ânimo, ou mesmo com um penso para tratar uma ou outra bolha que, mesmo sem convite, decidia aparecer! Senti-me muito grato por me poder doar e estar ao serviço dos meus irmãos, especialmente dos que mais precisaram.

Enquanto jovem da nossa diocese, tive a graça de poder ver as maravilhas que Deus opera nos seus filhos, nomeadamente quando dá a coragem, a força e a esperança para pessoas com o triplo da minha idade caminharem 120 quilómetros, pondo de lado as limitações físicas e elevando a capacidade e a resiliência que, através da oração e do sentido de sacrifício, Nosso Senhor nos dá.

Foi bonito apreciar o facto de que no dia da partida do território sadino, sentia-se o ambiente de timidez, as pessoas praticamente só falavam com o parceiro do autocarro, mas, na hora do regresso de Santiago, todos se abraçavam com muita emoção, sabendo que daí a pouco tempo seriam invadidos pelo típico sentimento português que é a saudade. Prova de que a peregrinação teve os seus frutos, uniu os seus diocesanos e, sobretudo, que não há nada que una mais as pessoas do que o amor a Jesus Cristo.

Senti por várias vezes ao longo do caminho uma mistura de sentimentos: se por um lado desejava alcançar o quilómetro 0, por outro, não queria que os quilómetros nos marcos diminuíssem; se por um lado queria voltar para os que esperavam por mim em casa, por outro, não me queria separar daqueles que acabara de conhecer e com quem fiz boas amizades; se por um lado ansiava pelo momento de pisar a vieira na Praça do Obradoiro e admirar a beleza e imensidão do templo que acolhe o túmulo do apóstolo São Tiago, por outro, não queria parar de marcar as minhas pegadas no caminho que me levavam até ele e de admirar as paisagens lindíssimas com as quais o Criador nos ia abençoando… Penso que é um bom indicador de que o caminho foi bem vivido!

Sinto que saio desta peregrinação transformado, com imensa vontade de repetir e quiçá fazer desta primeira experiência uma tradição, mas acima de tudo, com renovada esperança no verdadeiro caminho que é a vida, com ainda mais desejo de ser Igreja e de, inspirado pelos mais recentes santos – São Pier Giorgio Frassati e São Carlo Acutis –, ser santo.

 

Ricardo Costa
Paróquia de Vale Milhaços

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