Sobre a carta encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV

Jun 27, 2026

 

Com data de 15 de Maio de 2026, o Papa Leão XIV assinou a sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas (A Magnífica Humanidade). A data escolhida é significativa: nesse mesmo dia, em 1891, o seu antecessor, Leão XIII, tinha publicado a marcante encíclica Rerum Novarum, sobre as “questões novas” que, com a revolução industrial, se tinham levantado. Aliás, o próprio nome “Leão” escolhido pelo atual Papa quando foi eleito é sinal de que também ele quer estar atento às mudanças em curso – em particular as resultantes do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), e suas consequências a nível social. 

Deverá a IA ser acolhida como uma bênção? Ou, pelo contrário, encarada como uma maldição? A encíclica defende que, tal como com todos os instrumentos por nós criados, também a IA tanto nos pode ser útil e prestar-nos uma ajuda preciosa [100], como pode também ser-nos prejudicial, ou até causadora de destruição [152].

Como poderemos discernir o bom uso da IA do seu mau uso? Qual o critério no qual nos podemos fundamentar? A referência apontada pelo Papa em toda a sua encíclica é a do bem da humanidade. De facto, o que interessa perceber é “o que humaniza ou desumaniza, o que liberta ou oprime” [36]. Na verdade, não queremos que o ser humano acabe por ser colocado em função das máquinas, mas sim o contrário [150]. Aliás, o subtítulo da própria encíclica explicita já isso mesmo: “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na Era da Inteligência Artificial”. É isso que interessa ao Papa; e é também isso que o preocupa. 

A verdade é que o desenvolvimento técnico, por si só, está longe de nos bastar, quando não é devidamente acompanhado por um correspondente desenvolvimento ético e humano. Tal como Paulo VI tinha afirmado, “os progressos científicos (…), se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se, necessariamente, contra o homem” [94]. Isto torna-se particularmente flagrante em descobertas poderosas, como a energia nuclear; ou, mais recentemente então, a IA. Em casos como estes, é então ainda mais importante discernirmos bem para onde queremos caminhar, já que apenas o que resulte no bem do ser humano – e do planeta no qual vive – pode ser considerado verdadeiro desenvolvimento.

Para explicitar melhor em que consiste o bem da humanidade, esta encíclica oferece-nos um precioso resumo da Doutrina Social da Igreja (DSI), a qual começou a ser sistematizada, precisamente, a partir da Rerum Novarum de 1891. O fundamento de toda a DSI, recorda-nos o Papa Leão XIV, é a dignidade da pessoa humana, já que, a partir de uma perspetiva cristã, o ser humano é entendido como “imagem e semelhança” do próprio Deus; Mais do que isso, aliás, em Jesus, o próprio Deus Se fez homem [231]. Por isso, ao contribuir para o bem da humanidade estaremos então a louvar o próprio Deus. O Papa recorda-nos então os princípios-base da DSI: o princípio do bem comum, do destino universal dos bens, da subsidiariedade, da solidariedade e da justiça social.

Tendo presentes estes mesmos princípios, a encíclica aponta alguns dos riscos que já nos podemos aperceber poderão surgir com o uso da IA:

– Os problemas sociais que a previsível substituição do trabalho humano pelo trabalho de máquinas poderá causar. Na verdade, mesmo que novos empregos possam vir a ser criados, haverá que assegurar a prevenção – ou pelo menos mitigação – dos problemas resultantes dessa transição [156]. De facto, não podemos confiar apenas na “mão invisível do mercado” [163]; e temos, aliás, de passar a dar atenção também a outros indicadores, para além apenas do PIB [159].

– A enorme e desproporcional concentração de poder nas mãos daqueles que programam ou que controlam as máquinas de IA. O Papa nota de resto que, uma vez que, estas máquinas fazem uso de dados que provêm de todos, então todos – e não apenas alguns – deveriam poder beneficiar dos seus resultados; caso contrário poderemos estar a cair num novo tipo de “colonialismo” [178].

– Correntes como o transumanismo e pós-humanismo, os quais não aceitam, ou não encaram com bons olhos a finitude da condição humana [118]. Defende o Papa que a aceitação dos nossos limites pode acabar afinal por nos abrir o coração para Deus. É, aliás, por Ele, através da sua graça, que a superação humana vir a acontecer ([122] e [127]).

– Atribuir a máquinas o poder de decisão de vida ou morte sobre seres humanos: “não é lícito confiar a sistemas artificiais decisões letais ou, de qualquer forma, irreversíveis” [198].

Desde o seu início, a encíclica recorre a duas imagens bíblicas para se referir a uma escolha que temos diante de nós: podemos, quase como aprendizes de feiticeiros, procurar erguer por nós próprios, sem Deus, uma nova torre de Babel, baseando-nos numa “cultura do poder” [188]; Ou então, em aliança com Deus – e tirando proveito do significativo desenvolvimento técnico alcançado -, procurar construir a nova Jerusalém: “a civilização do amor” [210], cuidando e desenvolvendo a “magnífica humanidade” que Deus nos deu.

 

Pe. Luís Ferreira do Amaral, sj
Pároco de S.Francisco Xavier de Caparica

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