A Sé Catedral de Setúbal acolheu na noite de sábado a Vigília Pascal presidida pelo Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, numa celebração que uniu o silêncio das primeiras horas às aclamações do Aleluia Pascal. Perante uma assembleia reunida na “mãe de todas as vigílias”, como o próprio designou a noite, o Cardeal proclamou a Ressurreição de Cristo e desafiou os presentes a transformarem a fé numa presença ativa e inquieta no mundo.
A celebração iniciou-se na penumbra, com o acender do círio pascal, símbolo da luz de Cristo que rasga as trevas. Seguiram-se as leituras do Antigo e do Novo Testamento, o canto da Ladainha dos Santos e a renovação das promessas batismais — etapas que D. Américo descreveu como “um livro de teologia aberto, que nos leva desde a criação do mundo até ao mistério da Ressurreição do Filho de Deus”. “A Vigília Pascal celebra o passado, o presente e o futuro do povo de Deus. Traz consigo a história e escancara as portas a Cristo”, referiu.
Na homilia, o Cardeal percorreu a vida de Jesus desde Belém até ao túmulo vazio, detendo-se nas contradições do tempo presente. Citou o Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz e evocou os conflitos na Ucrânia, em Gaza, no Médio Oriente e em África como “o sinal visível da tristeza, da desolação, das trevas”. Chamou ainda a atenção para realidades mais próximas: a violência nas estradas durante a operação Páscoa, as 578 violações registadas em Portugal em 2025 segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, e a violência doméstica e nas escolas. “Deve-nos chocar. Como reagimos? O que fazemos para trazer a paz à vida de quem vive ao nosso lado?” — estas foram as perguntas que o Bispo de Setúbal lançou à assembleia, recusando uma religiosidade fechada sobre si mesma.

D. Américo Aguiar defendeu uma teologia encarnada: não a dos manuais académicos, mas a que “se revela na existência de Deus no conhecimento que temos da humanidade que nos cerca, no concreto das suas vidas, na forma como lidam com a natureza, na capacidade de amar e ser amado, no desejo de cuidar do outro”. Nesta linha, a Grande Vigília foi apresentada não apenas como rito, mas como escola de vida.
O apelo final foi à coragem de permanecer inquieto. “Ao voltarem para vossas casas, permaneçam inquietos com tantas interrogações que escutaram. Porque só desta inquietação virá a capacidade de conseguir ir mais longe”, disse o Cardeal, recordando que os cristãos seguem Jesus “sem perseguições, sem regras opressoras, livres” — e que essa liberdade exige maior compromisso evangelizador.

Com estas palavras encerrou D. Américo Aguiar a sua homilia, numa Vigília Pascal que, como manda a tradição, se prolongou pela madrugada, deixando a Sé de Setúbal iluminada e os fiéis com o desafio pascal de levar essa luz para a semana que começa.
Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna




