Visita Pastoral é “lição que mostra por onde é que nós devemos caminhar”

Mar 24, 2026

No rescaldo da Visita Pastoral às paróquias da Sobreda e da Vila Nova, estivemos à conversa com o Pe. José Carlos Eugénio, pároco de ambas, nesta que foi a primeira vez que esteve como pároco a acolher o bispo na sua Visita Pastoral.

 

Pe. Carlos, que balanço é que é possível fazer desta visita pastoral à Sobreda e à Vila Nova?

O balanço é muito positivo, foi uma experiência realmente interessante e necessária no contexto que estamos a viver pós pandemia. É um sinal que estamos a dar à comunidade, àqueles que se afastaram e àqueles que nunca frequentaram, de que a Igreja, apesar de todas as circunstâncias e das adversidades, continua próxima, continua a ir ao encontro de todo tipo de pessoas.

 

No seu caso, foi a primeira vez que, como pároco, viveu uma visita pastoral…

Sim, foi a minha estreia nestas experiências, mas o pároco nunca está sozinho, ou pelo menos eu procurei não estar sozinho na preparação e mesmo durante os vários encontros da visita pastoral, criei uma pequena equipa que me acompanhou com os contactos, com o levantamento que fizemos a nível das instituições, das autoridades e todo esse tempo de preparação.
E foi realmente importante porque, também assim, foi um sinal que demos à comunidade, neste contexto que se fala tanto de sinodalidade, deixar que também as pessoas, os paroquianos e aqueles que são mais próximos do pároco, possam dar também o seu contributo. Por isso teve uma matriz não só do pároco, mas em todos os âmbitos.

 

O que é que esteve na génese do programa que vocês pensaram? Quais foram as vossas preocupações?

Então, conhecendo as ideias base e fundamentais do D. Américo, procurou-se criar um programa que fosse o mais abrangente possível, isto é, que abarcasse todo o tipo de realidades, não só aquelas que se identificam realmente e diretamente com a Paróquia e com a Igreja e Instituição, mas sim todo o tipo de pessoas.
E foi realmente impressionante ver como pessoas que, habitualmente, não são assim muito sensíveis e simpáticas com a parte institucional da Igreja, diante deste convite e desta proposta, aceitaram.

 

Como é que foi essa resposta, que já me está a dizer que foi boa, e depois, como é que foi a experiência da visita?

Isto tudo bebeu muito, também temos que ser justos, da imagem e do impacto que tem a figura do D. Américo. Ele não é só o bispo de Setúbal, é um cardeal do Papa. E as pessoas estão muito habituadas à sua imagem mediática, porque o D. Américo usa muito, digamos assim, desta mais-valia. E as pessoas conhecem o D. Américo precisamente através dos meios de comunicação.
Então nós tentamos usufruir e beneficiar de tudo isso. Muitas das pessoas já conheciam o D. Américo, e quando houve a proposta e o convite, as pessoas aceitaram imediatamente, e quase de uma forma até inesperada, digamos assim.

 

E depois, como é que foi a realidade das visitas?

Nas visitas, as pessoas mostraram-se sempre muito acolhedoras, muito alegres e felizes, e até emocionadas. Havia pessoas a chorar, a abraçar este contacto físico da parte afetiva das pessoas. As pessoas precisam desta proximidade, que não seja uma proximidade só institucional, protocolar, digamos assim, mas que seja realmente esta proximidade humana, do contacto físico. Ainda antes de vir aqui para a nossa conversa mostravam-me um vídeo de uma das pessoas que acolheu o D. Américo sentia a necessidade e fazia questão de mostrar este contacto físico, de abraçar o D. Américo, de mostrar que esta proximidade passa tão bem por aí.

 

É também uma lição que se aprende sobre o modo de ser igreja nos dias de hoje?

Sim. É uma grande lição, e uma lição que mostra por onde é que nós devemos caminhar, sobretudo no que é a programação daquilo que se chama o plano pastoral, que muitas das vezes procuramos e tentamos ser fiéis a um modelo que se calhar deveria ser aperfeiçoado com isto. Não é que nesta visita se tenham feito encontros, por exemplo, de formação, encontros mais elaborados a nível de preparação, de formar as pessoas, mas foi realmente esta proximidade com gestos muito simbólicos, e eu precisamente, ao fazer um balanço e ao meditar sobre todos os acontecimentos, via aquela passagem do Evangelho, “nem só um copo de água ficará sem recompensa”. E via-se precisamente que, onde quer que nós fôssemos, havia sempre uma mesa posta, ou seja, a partilha não é só, como dizia tão bem o D. Américo na conclusão e no almoço convívio que tivemos, nós convivemos e partilhamos não só a mesa eucarística, mas também esta mesa que é constituída por tudo aquilo que nós somos e partilhamos com os outros.

 

Falámos das visitas a estruturas fora da igreja e cá dentro, como é que a comunidade paroquial, tanto a da Sobreda como a da Vila Nova, viveu esta visita, como é que a sentiu na sua preparação, depois como é que foi a visita, houve vários momentos em casa de paroquianos, houve vários momentos com os paroquianos, como é que foi também que a comunidade paroquial viveu esta visita?

A comunidade paroquial viveu com esta expectativa de que realmente ia poder conhecer o seu bispo, o seu pastor, o Dom Américo. Era uma oportunidade de o conhecer na realidade, no concreto da vida, no quotidiano, porque nós, muitas das vezes, essas visitas às famílias e entrar na casa das pessoas e tudo isso, nem sempre é fácil, sobretudo num meio tão urbano como o nosso. Se fosse, se calhar, numa paróquia no interior, as pessoas estariam mais disponíveis para isto. Mas houve realmente uma “corrida”, ou seja, pessoas que ao saberem que havia esta possibilidade, a oferecerem-se, e houve muitas situações imprevistas, que não estávamos à espera delas, mas que devido ao facto de nós caminharmos pelas ruas, fez com que as pessoas abrissem as suas portas e deixassem realmente que nós entrássemos e tivéssemos um momento mais de intimidade naquilo que é o espaço mais íntimo dos paroquianos.
Por isso, eu acho que tanto a nível dos grupos, como daquelas pessoas que frequentam a paróquia, estavam na expectativa de que pudesse haver esta oportunidade deste contacto, de poder também, porque depois estes momentos permitem com que as pessoas abram também o seu coração de uma forma muito mais profunda.

 

Em termos de desafios para a paróquia que foram colocados ou que foram lançados, o que é que retira e entende como prioridades que é importante procurar atingir?

Bem, o desafio é não perder estes laços que se criaram com aqueles que estão mais longe e gerir tudo isto de tal forma que, sem perder a nossa identidade, conseguimos estar próximos destas pessoas. Vai ser um desafio muito grande porque vai implicar muita criatividade, porque normalmente estas pessoas nunca estiveram ou afastaram-se da Igreja e têm assim ainda alguns anticorpos que é preciso ir, pouco a pouco, destruindo, sem realmente perder aquilo que é a questão do que é uma igreja, uma paróquia.
Nós vamos ao encontro destas pessoas, mas procuramos depois um feedback e o feedback é que estas pessoas algum dia possam voltar e a participar no culto, participar na missa, estar presentes de uma forma mais comprometedora a nível da fé, que não seja só uma coisa que fica a nível da afetividade, a nível dos contactos humanos, mas que realmente seja capaz de construir esta ponte entre estas realidades e aquilo que é, digamos assim, a identidade, o coração da paróquia que é a igreja paroquial.
Temos de ser uma igreja de portas abertas e que estas portas, ao abrirem-se, estas pessoas se sintam chamadas e interpeladas para passarem por esta porta e entrarem dentro daquilo que é o espaço próprio onde a comunidade se reúne e partilha tudo o que é a riqueza humana e espiritual.

 

Entrevista e fotos: Ricardo Perna

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