Saudações fraternas a todos, todos, todos.
Hoje é um dia particularmente belo, não apenas porque iniciamos o Tríduo Pascal – celebrações tão especiais e nucleares naquilo que é a nossa Fé – mas também porque celebramos a Missa Crismal, momento em que nos reencontramos todos à volta do altar: os diáconos, os padres, o Bispo, tantos ministérios, irmãos e irmãs, religiosos e religiosas, consagrados e consagradas, seminaristas, tantos companheiros da estrada que escolhemos para caminhar. Celebramos não só o que somos e o que recebemos, mas também o lugar para onde somos enviados.
Da Palavra de Deus que escutámos, verdadeira luz e guia, permitam-me que destaque três palavras: Ungido, Enviado e Mater Spei, a Mãe da Esperança.
Ungido. Quem de nós poderá esquecer o dia da sua Ordenação? Recordo aqui e de um modo particular os padres Ivan, José Maria e Miguel Aguiar, que celebram bodas de prata sacerdotais.
Aquele momento em que, deitados no chão, entregámos tudo. Tudo que erámos, tudo o que tínhamos, cheios de esperança e de confiança. E depois aquele gesto simples, mas tão forte, a unção das mãos com o óleo do Crisma.
A partir daquele momento, as nossas simples mãos, de homens simples, passaram a ter o privilégio de serem mãos que abençoam, que acolhem, que erguem, partem o pão e o distribuem. Mãos ungidas, não para guardar, mas para dar.
Ser ungido é aceitar ser de Cristo. É aceitar que a nossa vida não é nossa. É aceitar que tudo quanto temos e somos é para servir. É aceitar também que a unção é ferida, porque nos leva, tantas vezes, a darmo-nos onde não há reconhecimento ou gratidão, onde há indiferença ou cruz. Mas as nossas mãos serão até ao fim das nossas vidas mãos ungidas.
Enviado. A unção não é para ficar guardada num frasco bonito. O Espírito unge-nos para nos enviar. E envia-nos não para os salões das certezas, mas para os becos das dúvidas, para as estradas sem saída, para os cruzamentos da vida real, os lugares onde o Evangelho ainda não chegou porventura. Somos a Igreja em saída, aquela a que o nosso muito querido Papa Francisco nos exorta, nos provoca e nos convida.
Esta nossa Igreja, nos 50 anos de aniversário da sua criação, tão bela, tão ferida, tão promissora, espera por nós. Espera por cada um de nós, não como heróis, mas como colegas, amigos, companheiros no mesmo caminho; não como pais, mas como irmãos. Como padres que sabem ouvir, que sabem estar.
Peço-vos que não tenham medo de tocar as feridas com as mãos ungidas. Peço-vos que se ajoelhem diante do povo, como o Senhor se ajoelhou aos pés dos Seus discípulos. Somos enviados para estar, para caminhar ao lado, para ir à frente, para permanecer atrás; somos enviados para dar nome à Esperança onde muitos só conseguem ver obstáculos, vidas sem sentido, trevas e muros.
Nunca me cansarei de repetir que a nossa Esperança é uma pessoa, é Cristo, é Cristo Vivo. Não morreu na Cruz, está Vivo no meio de nós. Agora e aqui.
Mater Spei. A terceira palavra que nos ilumina é uma expressão: Mater Spei, Mãe da Esperança. A Mãe de Deus, a Mãe da Igreja, a Mãe de Jesus é, pois, a Mãe da Esperança. No meio de tudo o que nos acontece, não estamos sozinhos. Eu não estou sozinho, nenhum de vós está só. Maria caminha connosco. E, em Setúbal, queremos caminhar de mãos dadas com Ela.
Mater Spei, Mãe da Esperança. É a Mãe que nunca se afasta, que está no presépio, junto à Cruz. É a Mãe que escuta as palavras do Filho e segue para a casa de João. É a Mãe que se apercebe das tristezas, das canseiras, do sofrimento de todos. É a Mãe que segreda ao nosso coração de padres, ao nosso coração de cristãos, ao nosso coração de homens e mulheres de boa vontade. É a Mãe que nos diz: «Fazei tudo o que o meu filho vos disser».
A Mãe da Esperança é a Mãe dos nossos queridos seminaristas, que talvez se inquietem com o seu futuro. A Mãe da Esperança é a Mãe dos nossos padres mais idosos, mais frágeis. E aqui, quero ter uma palavra especial para o Padre Eduardo, o padre Manuel e o padre Júlio e tantos outros que, nestas novas fases das suas vidas, nos convidam a testemunharmos a alegria do entardecer da vida; deram tudo o que tinham e continuam a dar-nos o testemunho do que significa ser ungido e enviado.
A Mãe da Esperança é a Mãe dos nossos jovens, os jovens do cartão de cidadão, mas também daqueles que são jovens há mais tempo e que procuram o sentido das suas vidas.
Mãe da Esperança, és a Mãe desta nossa Diocese, que, como sabes, precisa de homens e mulheres com Esperança. Idosos e crianças, felizes e tristes, desempregados e com trabalho, doentes e com saúde, empenhados e desiludidos, todos nós precisamos de ser gente com Esperança.
Meus queridos padres, Maria, a Mãe da Esperança é também a Mãe dos nossos cansaços, dos nossos silêncios, das nossas lágrimas que ninguém vê.
Deixemos que nesta celebração, Maria, MATER SPEI, nos abrace e nos devolva a alegria do dia da nossa ordenação.
Assim seja.




