Cardeal D. Américo Aguiar em entrevista à Vatican News

Mai 16, 2025

O bispo de Setúbal fala sobre o novo pontificado e reflete sobre o impacto das JMJ Lisboa 2023 na Igreja portuguesa e nos jovens: a eles digo “nunca nos deixemos cair e ficar em baixo, como disse o Papa Francisco. E agora, no nosso caminho, temos um leão, temos Leão XIV”.

Uma eleição feita por homens onde está presente “um bom educador”, o Espírito Santo. O nosso Bispo, Cardeal D. Américo Alves Aguiar, parte deste pressuposto do então Cardeal Ratzinger para expressar o que o Colégio Cardinalício experimentou no recente Conclave. “Experimentámos literalmente a ação e a presença do Espírito Santo nos nossos corações, nas nossas vidas, para compreender e fazer emergir claramente dos nossos corações e das nossas mãos aquilo que era a escolha do Espírito Santo para a Igreja e para o mundo”, afirma em entrevista aos meios de comunicação social do Vaticano, destacando ainda uma outra caraterística, a de que cada Pontífice encarna de forma original o ser Sucessor de Pedro.

 

Eminência, depois da Páscoa do Papa Francisco, chegou a altura do Conclave que levou à eleição de Leão XIV. Qual é a sua impressão sobre o que se passou?

Antes de mais, demos graças a Deus por aquilo que o Espírito Santo fez. Nestes dias e nestas horas sentimos fortemente a certeza da continuidade, que se manifesta sempre no Sucessor de Pedro. Então, o “fazer-se Papa” de cada um está ligado ao modo de ser de cada um, à sua pessoa. Há alguns dias, numa leitura em que se citava uma passagem de Santo Agostinho, dizia-se que a esperança tem dois filhos: o desdém e a coragem. Não tenho dúvidas de que o nosso querido Papa Leão XIV – na sua vida quotidiana, nas suas orações e nas suas decisões – dará testemunho de indignação perante o que está errado, perante o que põe em causa a dignidade da pessoa humana, e a coragem da subsidiariedade, do bem comum, da solidariedade. Estamos a falar dos principais pilares da doutrina social da Igreja, que lhe são tão caros devido à referência que faz a Leão XIII. Por isso, tenho a certeza absoluta de que fomos ao encontro daquilo que o Espírito Santo nos estava a indicar, e Leão XIV é a concretização do Papa que Deus quis e quer para a Igreja e para o mundo, nos tempos que estamos a viver.

 

Quais foram as reações no seu país durante estas semanas intensas, desde a morte de Francisco até à eleição do Papa Leão?

Quando as pessoas viram o fumo branco, quando ouviram os sinos, começaram a explodir de alegria pelo Papa sem saber quem era, e isso é muito bonito. Imediatamente após o anúncio do nome Leão XIV, os jovens e a praça começaram a cantar canções com o nome Leão. Assim mesmo, espontaneamente. Numa fração de segundo, dezenas de milhares de pessoas começaram a cantar para ele com um só coração. Este é o fruto da presença de Deus no coração das pessoas, que não se conhecem e que, no entanto, em milésimos de segundo, acolhem com festa o novo Papa. Depois da grande dor sentida por todos com a morte do Papa Francisco, isto comoveu-me muito. Porque só a certeza de Cristo vivo e da ressurreição pode permitir que milhares de corações lacrimejantes explodam de alegria com o anúncio do novo Papa. Isto enche o coração e diz que Deus fala aos homens e mulheres do nosso tempo.

 

Eminência, quase dois anos depois da JMJ Lisboa 2023 – e ainda ressoa aquele “todos, todos, todos!” do Papa Francisco -, Vossa Eminência, que foi protagonista na sua organização, o que resta desse acontecimento na vossa diocese de Setúbal e na Igreja portuguesa em geral?

A Jornada Mundial da Juventude é como as ondas de rádio. Passaram quase dois anos – tal como passaram mais anos desde as JMJ do Panamá, de Cracóvia, de Madrid e outras – mas é um fluxo que continua, como disse o nosso querido Papa Francisco. Estamos na fase de assimilação cada vez maior do que foram os três encontros especiais que a JMJ oferece. O primeiro é o dos jovens entre si, a importância da cultura do encontro que está a fazer o seu caminho, especialmente no que diz respeito ao potencial para construir pontes entre jovens católicos, jovens sem fé e jovens à procura de Deus. O outro encontro é com o Sucessor de Pedro e posso testemunhar, tanto nas JMJ que vi com o Papa Francisco como nas que vi com Bento XVI, como é importante o encontro com Pedro para os jovens das Jornadas Mundiais da Juventude. E finalmente, e acima de tudo, há o encontro com Cristo vivo. Um encontro que está a atuar no coração de tantos jovens e que queremos que mude as suas vidas. Nas nossas dioceses e paróquias há muito tempo que estamos a colher os frutos semeados pelas JMJ de Lisboa, que provocaram, estimularam, obrigaram, convocaram os jovens para a pastoral juvenil, quando antes havia desinteresse. A JMJ colocou os jovens na linha da frente e agora não podemos perder este ímpeto, este movimento. O lema do dia foi “Maria levantou-se e partiu” e não podemos perder esta pressa que os leva a serem soldados do futuro. Um futuro que agora olha para o encontro de jovens em Roma com o Papa Leão XIV e também para a próxima JMJ na Coreia.

 

Nesta perspectiva, há alguma mensagem que gostaria de transmitir aos jovens?

A todos os jovens, especialmente dos diferentes países de língua portuguesa, gostaria de dizer aquilo que o Papa Francisco costumava repetir muitas vezes: abrirmo-nos às surpresas de Deus. Eu – um jovem de Leça do Balio, Matosinhos, no norte de Portugal – nunca pensei na vida vir a ser padre, bispo, cardeal. Nunca me passou pela cabeça participar num Conclave. Por isso, temos de deixar que Deus toque o nosso coração. Todos os jovens, mesmo aqueles que passam por dificuldades, guerras, pobreza…. Deixem que Deus entre nos vossos corações. Abram os vossos corações às surpresas de Deus. Não tenhais medo, repetiu Leão XIV, repetiu Bento XVI, e João Paulo II disse-o de uma forma única em 1978. Abri de par em par as portas dos vossos corações a Cristo vivo. Com a coragem que dizíamos antes: jovens corajosos perante as adversidades que podem acontecer na família, no trabalho, na escola, com a saúde… Nunca nos deixemos cair e ficar em baixo, como dizia o Papa Francisco. E agora, no nosso caminho – atrás, ao lado e à frente – temos um leão, temos Leão XIV.

 

Entrevista e fotografias: Bernardo Suate – Vatican News

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