Permitam-me esta, espero eu, pequenina reflexão desta circunstância de aqui nos reunirmos, no Santuário de Cristo Rei, de modo especial muito perto, mesmo no Sagrado Coração de Jesus, e começando por renovar a minha gratidão à vossa presença, apesar dos obstáculos meteorológicos, das ameaças de mau tempo, são rijos e, portanto, estão aqui, e por isso a minha gratidão por não terem debandado por essa circunstância, obrigado, obrigado a todos e a cada um pela presença. Renovar também à Tânia e à sua equipa agradecimento pelo trabalho, a dedicação, e de modo especial também aos padres scalabrinianos, que é a sua missão, é o seu carisma, este trabalho aqui há mais de 50 anos, aqui no território da Diocese de Setúbal.
Ainda a Diocese não era Diocese e já tínhamos a graça de ter a presença dos padres scalabrinianos junto de nós, cuja matriz, a identidade é, há mais de meio século, de facto, este trabalho muito próximo dos irmãos e das irmãs que se encontram em situação de migrantes. Nós estamos aqui para invocar e para celebrarmos o Jubileu, este Jubileu do Ano Santo, a que o nosso muito querido e saudoso Papa Francisco nos convidou. Agora ele está no camarote no Céu a assistir, porque agora somos guiados, damos graças a Deus e rezamos e temos presente o nosso querido Papa Leão XIV, e vamos então cumprindo aqueles que eram os convites, as provocações que o Papa nos ia fazendo para assinalarmos os vários jubileus.
Agora estamos aqui para o Jubileu dos Migrantes, estivemos cá na semana passada com o Jubileu das Famílias e hoje, neste fim de semana, decorre em Roma o Jubileu dos Catequistas, portanto muitas realidades diferentes, mas sempre as mesmas questões, a pessoa, as pessoas, sempre. O centro são as pessoas, cada um de nós, cada um de vocês, como prioridade da nossa atenção, da nossa Missão, independentemente dos trabalhos e das responsabilidades de todos e cada um de nós que aqui nos reunimos. Há pouquinho ouvíamos na primeira leitura o testemunho sobre alguns irmãos e irmãs, há muitos, muitos anos, que, enfim, tratavam das suas vidas, comiam, bebiam, festejavam, alegravam-se e não eram muito sensíveis àquilo que eram as vidas dos outros, a vida do próximo. E houve alguém que nos provocou, que nos ensinou, que testemunhou com a sua vida, qual é a relação, qual é a importância, qual é o lugar desse tal próximo.

Estamos a falar de Jesus, que provoca uma revolução no seu tempo. É que esta coisa de cada um tratar de si e, porventura, à custa, espezinhando e esmagando os outros, isso não cabe naquilo que foram e que são, de modo especial, os ensinamentos de Jesus. Quando lhe perguntaram sobre os mandamentos, as leis de Deus, ele resumiu: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Ora, aqui está o grande desafio do nosso tempo, de todos os tempos. E quem é o meu próximo? Depende, depende sempre.
Onde é que eu estou? Qual é a circunstância? Às vezes estou aqui e sinto-vos como o próximo e, outras vezes, sou eu que estou numa circunstância qualquer e sou eu que me sinto o próximo de alguém. E o que o Senhor nos pede é que nós sejamos capazes de descobrir, conhecer, respeitar, amar e fazer caminho juntos. Somos todos próximos uns dos outros.
Às vezes precisamos de ajuda e, às vezes, somos nós que prestamos essa ajuda. E, por isso, quando aqui nos reunimos para celebrarmos este Jubileu dos Migrantes, também lembramos o nosso querido e saudoso Papa João Paulo II, que nos fazia lembrar que todos, todos, todos somos peregrinos. Somos migrantes.
A viagem é mais longa ou mais curta. Eu sou migrante, sou do Porto. São 314 quilómetros. Há outros que são migrantes de outros sítios. 1.000 quilómetros, 2.000 quilómetros, 3.000 quilómetros. Mas é uma questão de quilómetros só. Porque somos todos migrantes. Somos todos peregrinos. E Deus tem um sonho para cada um, tem um projeto.
E nós temos que criar condições para que cada um sinta, entenda, qual é o sonho que Deus tem para si, qual é o projeto que Deus tem para si. E, a partir desse momento, quando cada um descobre qual é o seu sonho, qual é o projeto que Deus tem, nós devemos fazer tudo que está ao nosso alcance para que esse próximo possa concretizar o seu sonho, possa concretizar o sonho que Deus tem para ele. E Deus tem um sonho e um projeto para cada um, para todos, todos, todos.
Não há ninguém que esteja dispensado de fazer esse caminho, de descobrir qual é o sonho que Deus tem para si. Estamos a falar da vocação. Antigamente, aqui há uns anos, vocação era fácil. Era padre ou freira, acabou. O resto não era vocação. Hoje, já entendemos que vocação é tudo aquilo a que Deus nos chama.
E há uma multiplicidade de possibilidades, há uma multiplicidade de vocações. Há muitíssimas maneiras diferentes de Deus chamar cada um a ser feliz, cada um a entender o projeto que Deus tem para si. Há solteiros e há casados, há consagrados, há engenheiros, há arquitetos, há pintores, há pescadores, há futebolistas, há astronautas, há mães de família, há pais de família, há uma diversidade enorme. Mas temos de descobrir qual é aquela a que Deus me chama. Vocação vem de vocare, chamamento. Deus chama-me a ser o quê? A fazer o quê? E quando se descobre, não há nada que nos impeça. Quando descobrimos o amor de Deus, não há absolutamente nada que nos impeça de concretizar esses sonhos e esses projetos.

E quando nós, nesse caminho que fazemos, nos descobrimos filhos de Deus, então não há o que se lhe faça. A partir daí, nós, todos nós, todos, todos, todos, não podemos perder essa consciência de que somos filhos de Deus. E então, olhamos para o próximo com uma nova categoria, vamos dizer assim.
É que o próximo é meu irmão. E isso faz toda a diferença. Quando nós olhamos para o outro e não vemos uma ameaça, não vemos um concorrente, não vemos um problema, nem vemos, como alguns também veem, um recurso humano, mão de obra. Não. Eu olho para o próximo e, como filho de Deus, vejo um irmão. E, a partir daí, chegámos àquela grande família a que o nosso querido e saudoso Papa Francisco nos chamava. Fratelli tutti, fraternidade universal. Quando nos descobrirmos que somos irmãos, a partir daí, estamos em família. E, a partir daí, o que é meu é teu, o que é teu é meu.
E vamos fazer caminho para concretizar os sonhos e os projetos que Deus tem para cada um. Ora, é muito bonito dizer, mas é mais complicado concretizar. E Paulo, na segunda leitura, até fala naqueles que guardam os mandamentos de Deus. E nós já partilhámos aquele resumo único que Jesus fez. Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. É esse o desafio que nós temos.
Às vezes, constatamos, eu ou algum de nós, que não estamos à altura desse testemunho. Às vezes, quando miramos o próximo, quando cruzamos os nossos olhos com o do próximo, não estamos a ser verdadeiramente filhos de Deus e, muito menos, a sentirmo-nos irmãos. E o que está a faltar é exatamente isso, meus queridos irmãos e irmãs, é verdadeiramente nos sentirmos irmãos. Independentemente da geografia, independentemente da cor da pele, independentemente dos traços culturais, independentemente da língua, independentemente de tantas outras coisas que nos tornam diferentes, mas não uma ameaça. Quanto mais diferentes, mais ricos.
Também temos que o descobrir. Quanto mais diferentes, mais ricos. Um exemplo. Quando temos missas que são animadas pelos nossos irmãos provenientes da África, eu fico logo a transpirar. Porque eles demoram muito com as danças. Nunca mais acabam as danças, não é? E nós aqui temos a mania que temos sempre pressa. E uma vez eu aprendi com o D. Joaquim Mendes, o meu mano velho, como eu lhe chamo, é um Bispo de origem dos Salesianos, que agora é emérito, mas era Bispo Auxiliar de Lisboa, e que, durante muitos anos, com os Salesianos, tinha uma experiência em África muito profunda. E ele uma vez contou-me uma história sobre uma celebração que demorou 3, 4 horas, e os únicos que estavam aflitos eram cá os do continente.

Os outros estavam na maior. E disseram-lhe assim, vocês lá na Europa, têm o relógio. Nós aqui, na África, temos o tempo. Olha, é menos estressante, de facto. É menos estressante. Nós somos, como é que se diz? Somos escravos do relógio. E há irmãos e há irmãs que têm a graça, o dom de viver com o tempo. E o tempo é exatamente, em cada momento, termos o tempo todo. Olhem, os Papas, há histórias belíssimas, por exemplo, do Papa João Paulo II, nas suas viagens apostólicas.
Às vezes, estavam à espera dele. E diziam, Santo Padre, tem que ser mais rápido, porque ele, em cada momento, com cada pessoa, tinha o tempo todo. Isso é o ponto alto do respeito uns pelos outros, quando estamos com alguém, termos o tempo todo para essa pessoa. Ora, eu confesso que, enfim, raras vezes isso acontece. Estou sempre… Estou como o Speedy Gonzalez, não é? Sempre aqui, sempre aqui, para ali, para lá, para aqui, para lá. Não é bom. Gosto tanto de ir ao encontro de todos, que quase que não estou com ninguém. E, às vezes, acontece-nos isso na nossa vida. Temos tantos a fazer, temos tantas preocupações, temos tanto não sei o quê, que acabámos a vida e ninguém deu por nós. Sim, sim, passou por aqui, como os cometas. Passou por aqui.
Bem, vamos ao Evangelho. No Evangelho que acabámos de proclamar, nós temos esta história do Lázaro, pobre, e deste rico. E o Senhor está-nos a chamar a atenção que é para depois ninguém reclamar. Um dia destes – não há pressa nenhuma (risos) – um dia destes, vamos encontrar-nos lá, e vamos ver de que lado é que vamos estar. Vamos ver. O trabalho de cada um vai decidir se está do lado de lá ou do lado de cá. É tipo aqui margem sul e margem norte. A melhor é esta, claro (risos). Depois há aquela do outro lado do Tejo. Mas esta é que é boa. Bem, esta é a do Lázaro. É a nossa. A dos homens e mulheres que fizemos possíveis por se salvar.
O Senhor chama-nos a atenção, no fim, para algo muito interessante: o homem rico tomou consciência de que se esqueceu, durante a sua vida, do próximo. Esqueceu-se de descobrir os irmãos. E ele diz, eu tenho cinco irmãos. Esqueceu-se de todos os outros. E tinha um à porta da sua casa. Ele via-o, mas não era capaz de o ouvir, de o sentir, nem de o acolher, nem de o ajudar, nem de o conhecer, nem de o amar. E, por isso, quando ali dizia que um estava consolado e outro estava atormentado.
E é nessa tormenta que esse homem descobre a grandeza dos irmãos. E pede para que alguém vá lá avisá-los. Para que eles se convertam, para que eles entendam esta fraternidade universal. E é-lhe dito que não vale muito a pena. Mandaram-nos profetas, mandaram não sei quem, mandaram mais não sei quem, e ninguém quis saber. Ninguém ouviu nada. Como, às vezes, acontece connosco. Bem, mas há uma tentativa seguinte, que é assim.
Bem, ó Senhor, então, olha, se calhar, se mandares alguém que tenha morrido avisá-los, eles, se calhar, vão abrir o coração. Isto é bonito. Porque nós agora já estamos num tempo em que veio alguém que morreu, que ressuscitou e que avisou. E, mesmo assim, alguns continuam a refastelar-se à grande sem se preocuparem com os irmãos. Sem descobrirem, nos próximos, o rosto de verdadeiros irmãos. Por isso, meus queridos irmãos e irmãs, este apelo a todos e a cada um.
Nós temos problemas? Temos. Nós temos dificuldades? Temos. Cada um de nós vive, às vezes, situações de limite? Vive. E isso resolve-se uns contra os outros? Não. Resolve-se tudo uns com os outros. E, por isso, pedimos, nesta celebração, neste domingo, neste Jubileu, pedimos ao Senhor que nos abra o coração e a mente.
Para nós reconhecermos de verdade, no rosto dos próximos com quem convivemos no dia-a-dia, possamos reconhecer o rosto dos irmãos e das irmãs.

E vou terminar. O nosso querido Papa São João Paulo II, quando começámos este novo milénio, no ano 2000, fez um documento chamado Novo Millennio Ineunte. É a única coisa em latim que eu vou dizer que também não arrisco mais, e foi escrito no início, na alvorada do terceiro milénio.
E, a certa altura, diz lá assim: os irmãos e as irmãs do novo milénio esperam, aguardam, gritam que nós, os cristãos, lhes mostremos, lhes testemunhemos o rosto de Cristo vivo. Portanto, todos nós nos devemos entender como missionários, como peregrinos de esperança, missionários de esperança, sementes de esperança.
E então, este é o desafio que nós temos neste novo milénio. Não nos esqueçamos, foi um milénio que rapidamente ficou amargo, com o ataque às Torres Gémeas. Foi logo ali no início. Toda a esperança, toda a alegria, todos os projetos foram manchados pela violência e pela morte. E nos dias que vivemos, infelizmente, parece que as trevas e a morte e a violência vão conquistando mais terreno do que aquilo que é a paz e esta fraternidade universal. E, por isso, eu vou-vos fazer uma revelação.
Mas, afinal, se nós somos convidados, exultados, provocados a darmos testemunho do rosto de Cristo vivo, mas, afinal, qual é o rosto de Cristo vivo? Vão saber hoje, uma grande revelação. Cada um vai olhar para a direita e para a esquerda para ver a cara de quem está ao lado. Olhem lá. Muito bem? Agora, para trás e para a frente. Pronto. Os camafeus (risos) que vos saíram são o rosto de Cristo Vivo. Estais a ver? Cada um de nós é rosto de Cristo Vivo. É esse o rosto de Cristo Vivo, não é outro. O rosto de Cristo Vivo é o rosto de cada um dos nossos irmãos e irmãs. Mas, para isso, é preciso convertermo-nos ao que significa irmão e irmã.
E eu estou convencidíssimo que, quando tantos irmãos e irmãos nossos da sociedade e do mundo fizerem essa descoberta e se converterem, como dizia o querido Papa Francisco, a esta fraternidade universal, muitas guerras, muitos conflitos e muitas dificuldades deixarão de existir e deixarão de ter sentido. Por isso, pedimos ao Senhor na evocação, na devoção do Sagrado Coração de Jesus que o nosso coração possa converter-se a este testemunho de Cristo vivo e cada um dos irmãos e das irmãs aqui presentes, das vossas famílias, das comunidades de origem, não desistamos, não baixemos os braços, não deixemos de acreditar que quem está ao nosso lado, gostemos mais ou gostemos menos, quem está ao nosso lado é verdadeiramente testemunha do rosto de Cristo Vivo.
Assim seja.




