A Sé de Setúbal encheu-se este domingo para celebrar meio século de existência da Diocese de Setúbal, numa cerimónia que juntou Igreja, Estado e sociedade civil num momento de memória e projeção para o futuro. A missa solene, presidida pelo Bispo de Setúbal, Cardeal D. Américo Aguiar, e concelebrada por bispos de quase todas as dioceses portuguesas, contou com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, autarcas do distrito e chefias dos três ramos das Forças Armadas.
A celebração assinalou a data da ordenação episcopal de D. Manuel Martins, primeiro Bispo de Setúbal, figura central nas evocações do dia. Antes da cerimónia, foram depositadas três coroas de flores aos pés da sua estátua: pelo Chefe Regional do Corpo Nacional de Escutas, Luís Painço, pelo Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, e pelo próprio Presidente da República.
Na homilia, D. Américo Aguiar recordou que há 50 anos o Papa Paulo VI quis que nascesse “junto ao Tejo e ao Sado” uma “Igreja com sabor a povo e cheiro a mar, uma Igreja que aprendesse a servir, a escutar, a cuidar”. O cardeal prestou homenagem a D. Manuel Martins, “o primeiro a dizer-nos que a Igreja existe para todos, especialmente para os últimos”, e ao Cónego João Alves, “arquiteto da nova diocese”, cujo centenário do nascimento se assinalará em dezembro.

O prelado revelou ainda que, no passado dia 20 de janeiro, data do aniversário de D. Manuel Martins, foram aprovados os estatutos da Fundação com o seu nome, tendo recebido o registo nacional a 16 de julho, precisamente no aniversário da criação da diocese.
Citando o Papa Francisco, D. Américo Aguiar fez do lema “A Igreja é de todos, todos, todos” o fio condutor da sua mensagem, transformando-o em “programa de vida” para a diocese. Recorrendo ao poeta sadino Sebastião da Gama, afirmou: “Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos… pelo sonho é que vamos, entre irmãos.”
O bispo de Setúbal dirigiu-se diretamente aos autarcas presentes, apelando aos “consensos e concertações necessárias ao pleno funcionamento da CIM – Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal”, alertando que esse consenso “tem de começar desde já na governabilidade dos executivos municipais que iniciarão funções em breve”.
Num desafio ousado, o cardeal traçou uma visão para o centenário da diocese, em 2075, evocando os “anunciados investimentos do Estado para a Península”, incluindo o projeto “Parques Cidades do Tejo”: o aeroporto Luís de Camões, novas travessias do Tejo, habitação, requalificação de áreas industriais e expansão da rede de transportes públicos.
“Juntos, todos, todos, todos, devemos sonhar e abrir os novos caminhos”, afirmou, apelando a que estes sonhos não “morram na praia”.

Numa mensagem que não fugiu aos desafios atuais, D. Américo Aguiar reconheceu a tentação da “pastoral de manutenção” e defendeu mudanças estruturais. “Estou convicto de que algumas das estruturas centenárias que ainda subsistem estão a asfixiar a capacidade do Anúncio da Boa Nova”, declarou, acrescentando que “salvar o povo de Deus e os seus pastores é prioritário em detrimento da preservação das estruturas”.
O lema para o futuro ficou resumido numa fórmula: “Pouco, pequeno e possível. Menos e melhor.”
Citando o novo Papa Leão XIV e a sua exortação “Dilexi Te”, o cardeal reforçou que “a medida do amor da Igreja é a esperança que ela desperta”, definindo a Diocese de Setúbal como “oficina de esperança”.
A cerimónia incluiu ainda homenagens aos sacerdotes e leigos que participaram na fundação da diocese e continuam vivos, num gesto de reconhecimento pelas décadas de serviço. D. Américo agradeceu também aos dois bispos antecessores: D. Gilberto Canavarro dos Reis pelos “17 anos de pontificado sadino” e D. José Ornelas pelos “7 anos ao serviço desta diocese”.

Concluindo a homilia com uma referência a Maria, “Mater Spei” (Mãe da Esperança), o cardeal deixou uma mensagem de continuidade: “Cinquenta anos depois, não estamos no fim – estamos a continuar um caminho.” E, citando novamente Sebastião da Gama, rematou: “Pelo sonho é que fomos – comovidos e mudos – pelo sonho que Deus sonhou connosco.”




