Missa dos 50 anos da Diocese de Setúbal

Out 27, 2025

HOMILIA DA MISSA DOS 50 ANOS DA DIOCESE DE SETÚBAL

 

Senhor Presidente da República, Senhoras e Senhores Representantes do Governo, das Forças Armadas e de Segurança, autoridades da Justiça e da Academia, Senhores Autarcas — os que terminarão funções e os que iniciarão nos próximos dias e semanas o serviço à causa pública, irmãos no episcopado, senhor D. Gilberto hoje damos graças a Deus pelos seu pontificado sadino de 17 anos, senhor D José Ornelas obrigado pelos seus 7 anos ao serviço desta diocese nesta igreja mãe de Setúbal.

Presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, os nossos 12 seminaristas, familiares de D. Manuel Martins, queridos irmãos e irmãs em Cristo, meus queridos escuteiros – cuja região também celebra 50 anos.

À entrada da Sé tivemos a oportunidade de prestar homenagem ao senhor D. Manuel Martins, junto da sua estátua, e muito agradeço o gesto do Senhor Presidente da República, do senhor Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e da Região Sadina do Corpo Nacional de Escutas. As flores ali entregues representam-nos a todos.

Nesta celebração quero ter presente o Cónego João Alves que foi o arquiteto da nova diocese, desempenhando as funções de Vigário Episcopal de Setúbal entre 1966 e a criação da diocese. Foi nomeado bispo auxiliar de Coimbra em 1975 e Bispo de Coimbra no ano seguinte, resignando em 2001. Nascido em dezembro de 1925, seremos convidados a assinalar o centenário do seu nascimento e agradecer-lhe convenientemente a génese da diocese sadina.

Hoje o coração de Setúbal pulsa mais forte.

Há cinquenta anos, S. Paulo VI (cuja imagem acabamos de entronizar na nossa igreja catedral) quis que aqui, junto ao Tejo e ao Sado, nascesse uma Igreja com sabor a povo e cheiro a mar, uma Igreja que aprendesse a servir, a escutar, a cuidar.

E há também cinquenta anos, D. Manuel Martins, o nosso primeiro bispo, recebeu a unção episcopal. Foi o primeiro a dizer-nos — com palavras e gestos — que a Igreja existe para todos, especialmente para os últimos, porque no coração de Deus não há últimos, nem periferias, nem esquecidos.

No passado dia 20 de janeiro, data do aniversário natalício do senhor D. Manuel Martins,  aprovei os estatutos da Fundação com o seu nome e recebemos a aprovação do registo nacional de Pessoas Coletivas no dia 16 de julho, aniversário da criação da diocese… muito espero desta Fundação, agradecendo desde já aos que corajosamente aceitaram levá-la em frente.

Hoje damos graças por meio século de Evangelho vivido nesta terra — e olhamos o futuro com saudade, sim, mas com saudades do futuro, como dizia Teixeira de Pascoaes: saudades do que ainda não é, mas que já arde em nós como promessa de Deus.

O Evangelho de hoje (Lc 18, 9-14) fala de dois homens que sobem ao templo: o fariseu e o publicano. Um exibe as suas obras, o outro apenas o seu coração. Jesus mostra-nos que Deus não olha as aparências, mas o amor com que se vive. E é isto que dá sentido a estes cinquenta anos: não o número de obras ou instituições, mas o amor que nelas se gastou, como se gastam as velas que ardem nos nossos altares. Cada gesto de ternura, cada visita silenciosa, cada pão partilhado, cada jovem que reencontrou sentido, cada família que recuperou esperança — tudo isso é Evangelho feito vida.

O Papa Francisco não se cansava de repetir: “A Igreja é de todos, todos, todos!” E aqui em Setúbal queremos que isso seja mais do que uma frase bonita — queremos que seja programa de vida. Porque ninguém se salva sozinho, ninguém sonha sozinho. Como escreveu o nosso Sebastião da Gama, poeta sadino: “Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos… pelo sonho é que vamos, entre irmãos.”

Sim, é pelo sonho de Deus que caminhamos — um sonho onde há lugar para todos, onde a fé e a justiça se dão as mãos, onde os que governam e os que acreditam trabalham juntos por um mesmo bem: o bem comum.

Senhoras e senhores autarcas, ouso apelar aos consensos e concertações necessárias ao pleno funcionamento da CIM – Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal. Esse consenso e essa concertação tem de começar desde já na governabilidade dos executivos municipais que iniciarão funções em breve. Os sonhos que se poderão concretizar com o novo enquadramento dos Fundos Comunitários para apoio ao desenvolvimento da Península não podem “morrer na praia”, permitam-me a expressão.

Juntos, todos, todos, todos, devemos sonhar e abrir os novos caminhos que os anunciados investimentos do Estado para a Península podem proporcionar de tantos sonhos e vidas realizadas para as nossas populações, o grande projeto “Parques Cidades do Tejo”: aeroporto Luis de Camões, novas travessias do Tejo, habitação, requalificação de áreas industriais e expansão da rede de transportes públicos… No centenário da Diocese, em 2075, quero acreditar que tudo isto pode ser realidade, fruto do trabalho, do empenho e dedicação de todos.

S. Paulo VI dizia que “a Igreja faz-se diálogo”, e o novo Papa, Leão XIV, acaba de recordar na sua Exortação Dilexi Te: “A medida do amor da Igreja é a esperança que ela desperta.” E a Diocese de Setúbal foi — e deve continuar a ser — oficina de esperança. Esperança nas escolas e nas famílias, esperança nas fábricas e nos hospitais, esperança nas prisões, esperança nas praças, esperança nas comunidades que não desistem de amar. Porque há em Setúbal uma fé teimosa — uma fé que não se resigna, que é determinada, corajosa e solidária. Mesmo quando a pobreza fere, a solidão pesa, a violência entristece — há sempre alguém que se levanta, que acredita, que recomeça. E esse alguém leva outros, arrasta, contagia.

Celebrar cinquenta anos não é fechar um livro — é abrir um novo capítulo. O Senhor convida-nos hoje a ser uma Igreja em saída, sinodal, de mãos dadas com todos os homens e mulheres de boa vontade. Uma Igreja que não fala de cima, mas caminha ao lado. Uma Igreja que não separa, mas reconcilia. Uma Igreja que sonha com os poetas, que luta com os trabalhadores, que educa com os professores, que consola com os enfermeiros, que anima com os jovens e que aprende com os idosos.

“Todos, todos, todos” — significa governantes e governados, crentes e não crentes, os que chegaram e os que nasceram aqui, os que falam e os que choram em silêncio.

Todos juntos, somos Setúbal.
Todos juntos, somos Igreja.
Todos juntos, podemos acender o futuro.
Um futuro que falará de cada um de nós.

No coração desta Diocese vive uma Mãe: Maria, Mater Spei. Ela conhece o cansaço das mães desta terra, o silêncio dos que sofrem, o sonho dos que partem à procura de um amanhã melhor. A Ela confiamos o que fomos e o que queremos ser. Que Maria nos ensine a dizer “sim” ao futuro, como ela disse “sim” a Deus.

Irmãs e irmãos, excelências, cinquenta anos depois, não estamos no fim — estamos a continuar um caminho. É verdade que podemos cair na tentação da pastoral de manutenção. Continuar a fazer o mesmo, aguardando resultados diferentes… alguém disse que isso seria insanidade. Estou convicto de que algumas das estruturas centenárias que ainda subsistem estão a asfixiar a capacidade do Anúncio da Boa Nova. E estou igualmente convicto de que salvarmos o povo de Deus e os seus pastores é prioritário em detrimento da preservação das estruturas.

Pouco, pequeno e possível. Menos e melhor. Porque Deus tem futuro para Setúbal, e nós — com as nossas mãos pequenas e corações imperfeitos — queremos ajudá-Lo a construí-lo. E quando um dia alguém perguntar o que foi a Diocese de Setúbal, quem sabe possa ouvir-se a resposta de um verso de Sebastião da Gama: “Pelo sonho é que fomos — comovidos e mudos — pelo sonho que Deus sonhou connosco.” E então, sim, teremos vivido com saudades do futuro — as saudades santas de quem crê que o melhor de Deus ainda está por vir.

 

† Américo, Cardeal
Bispo de Setúbal

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