D. Américo Aguiar iniciou a manhã deste domingo sublinhando a identidade única das gentes da beira-mar, recordando que as comunidades da Costa e da Trafaria nasceram da “força das pessoas, pescadores e agricultores”. Perante os fiéis, numa eucaristia transmitida pela TVI, o bispo centrou a sua reflexão na importância da disciplina interior e do compromisso cristão, especialmente no tempo da Quaresma. “Ser fiel depende da nossa vontade, e temos de saber domesticar esta nossa vontade. Peço a Deus que nos ajude a muscular a nossa vontade para o que são os valores e as coisas mais importantes da nossa vida, defendeu”.
Sobre a prática quaresmal, o prelado deixou orientações concretas. Defendeu que o jejum não deve ser apenas uma restrição alimentar, mas uma consciência de que o corpo está implicado no espírito. Quanto à esmola, clarificou que esta não deve ser o que sobra: “É abdicar do que costumo gastar para colocar de lado; o fruto desse sacrifício na nossa diocese reverterá para quem sofreu com o mau tempo”.

Diálogo sem filtros com a juventude
Um dos momentos altos do dia foi o encontro com as crianças e jovens da catequese. Num ambiente de grande abertura, o Bispo de Setúbal respondeu a questões que variaram entre a curiosidade pessoal e a ética profunda.
Questionado sobre a santidade da vida, D. Américo foi perentório ao criticar a cultura da exceção face ao aborto e à eutanásia:
- Sobre o Aborto: “Quanto mais se dessacralizou a vida, mais se possibilitou que a vida fosse desbaratada. Já não se diz ‘Não Matarás’, porque em certas circunstâncias diz-se que sim.”
- Sobre a Eutanásia: O bispo alertou para o perigo de se abrirem portas que levam a um vazio moral onde a vida perde o valor absoluto.
Num momento de particular pragmatismo, quando confrontado com a licitude de roubar em situação de fome extrema, o Cardeal explicou: “Roubar para comer não é pecado, mas é preciso colocar as coisas no seu nível. O valor maior é a sobrevivência, mas nunca confundir fome com apetite”, avisou.

D. Américo Aguiar não evitou a autocrítica ao falar sobre o estado atual da instituição. Ao ser questionado sobre onde a Igreja mais falha, apontou a falta de um sentido de pertença alargado. “Falhamos quando dizemos que a Igreja são apenas os bispos e os padres. Temos de sentir que a Igreja somos nós. Quando alguém fala mal da Igreja, fala mal de nós.”
O dia terminou com um almoço de convívio entre o bispo, catequistas e responsáveis de grupos paroquiais, reforçando a mensagem de proximidade e escuta que tem pautado esta visita pastoral à Península de Setúbal.




