Homilia no Encontro “Jovens em diálogo: a Fraternidade como laço para a Paz”

Mar 8, 2026

III DOMINGO DA QUARESMA — ANO A

Igreja do Arsenal da Paz, Turim, 8 de março de 2026

 

Caros jovens, a palavra deste terceiro domingo da Quaresma é uma fonte de inspiração para quem quer viver o diálogo entre culturas e religiões. Um povo sedento no deserto que pergunta: «O Senhor está no meio de nós, sim ou não?» (Ex 17).

Uma mulher estrangeira pergunta: «Onde se deve adorar? Aqui ou em Jerusalém?» Paulo responde: «O amor de Deus foi derramado nos nossos corações por meio do Espírito» (Rm 5).

E por fim está Jesus, junto ao poço. No Evangelho segundo João, este é um dos diálogos mais revolucionários. Porque Jesus faz algo que parece simples, mas é explosivo: fala com quem não devia falar.

Uma mulher. Uma samaritana. Uma pessoa religiosamente “cismática”. Três barreiras. Nenhuma evitada.

O diálogo nasce de uma sede partilhada

Jesus não começa com uma lição teológica. Começa com um pedido: «Dá-me de beber».

Quem vive o diálogo inter-religioso deve recordar-se disso: não se parte da superioridade, mas da necessidade, das exígências do viver quotidiano. Não se parte da posse, mas da vulnerabilidade. O diálogo verdadeiro nasce quando reconhecemos que também nós temos sede.

Identidade sem arrogância

A mulher levanta a questão mais delicada: «Vós Judeus… nós Samaritanos…» Jesus não anula a diferença. Diz claramente que «A salvação vem dos Judeus».

Isto é fundamental: dialogar não significa diluir a própria identidade. Não significa dizer que tudo é igual, mas alargar o olhar para além do próprio horizonte, como afirmaram o Papa Francisco e o Grão-Imão Ahmed al-Tayyeb no Documento sobre a Fraternidade Humana Universal assinado a 4 de fevereiro de 2019 em Abu Dhabi: para viver o diálogo é necessário ter tanto a coragem da identidade como acolher o desafio da alteridade. Não é porventura isso que vivemos juntos nestes três dias de encontro?

Jesus mantém-se enraizado na sua história. Mas não usa a verdade como uma muralha defensiva. Serve-se dela como ponte. Perante o duplo risco de se fechar na identidade como defesa, ou de esvaziar a verdade para ser aceite, Jesus mostra uma terceira via: fidelidade profunda à própria identidade, mas coração aberto ao outro.

Para além dos lugares da contenda

Garizim ou Jerusalém?

Jesus desloca o plano: «Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade». Não elimina os lugares. Relativiza-os face ao Espírito. O diálogo intercultural não é uma competição entre igrejas, templos, mesquitas. É uma busca da fonte. E Paulo diz-nos onde ela se encontra: é o amor de Deus, que foi derramado nos nossos corações. Não é apenas um sistema religioso. É uma transformação interior.

Da desconfiança à missão

A mulher parte desconfiada. A certa altura, envolve-se e chama-lhe primeiro “Senhor”, e depois “profeta”. Depois intui que Ele é o Messias. E por fim deixa o cântaro. Este é um pormenor enorme: deixa o recipiente de que precisava para se saciar. E faz de ponte entre Jesus e os habitantes da sua cidade. No final, eles proclamam: «Este é verdadeiramente o Salvador do mundo». Não o salvador do meu grupo, não da minha etnia, mas do mundo.

O diálogo autêntico não enfraquece a fé. Universaliza-a.

Atenção ao coração endurecido

O Salmista adverte-nos: «Não endureçais o vosso coração como em Meribá!» Pode fazer-se diálogo com o coração endurecido. Pode haver um encontro ficando interiormente fechados.

A verdadeira alternativa não é entre religiões diferentes. É entre coração endurecido e coração aberto.

De que alimento temos verdadeiramente necessidade?

Os discípulos falam de pão. Jesus fala da vontade do Pai. Também no diálogo há uma tentação: reduzir tudo a um projeto cultural, a uma iniciativa social, a um belo encontro, sobretudo se participam muitos jovens. Mas Jesus diz: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou».

Se não nos nutrirmos desta relação profunda com o Pai, o diálogo esvaziar-nos-á. Se bebermos da fonte da água viva, tornar-nos-emos uma fonte, que brota para a vida eterna. E hoje o mundo precisa disto: jovens que saibam estar entre as diferenças sem medo, enraizados na própria fé, habitados pelo Espírito, capazes de dizer com a vida que Deus está no meio de nós.

Então sim, os campos já estão loiros, porque a seara já está madura!

 

Turim, 8 de março de 2026
† Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal

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