Cardeal D. Américo Aguiar: “O Espírito Santo sopra nos nossos corações para perdermos a vergonha” e darmos testemunho

Mai 24, 2026

 

O Cardeal D. Américo Aguiar desafiou a comunidade paroquial de Vale Figueira a assumir uma Igreja “em saída”, capaz de ir ao encontro daqueles que estão afastados, durante os dois primeiros dias da visita pastoral que está a realizar naquela paróquia da Diocese de Setúbal.

Na homilia da Eucaristia dominical, integrada na solenidade do Pentecostes, o bispo de Setúbal sublinhou que o Espírito Santo impele os cristãos a sair do conforto das estruturas habituais e a testemunhar a fé no quotidiano, junto daqueles que permanecem distantes da vida da Igreja.

“Porque é que não vêm? Porque não querem, porque não conhecem, porque não foi anunciado, porque tiveram uma má experiência, porque não estão nem aí?”, questionou o cardeal, referindo-se às pessoas que vivem junto das igrejas mas que não participam na comunidade cristã. “O Espírito Santo sopra nos nossos corações para nós perdermos a vergonha na cara e termos lata para ir ao encontro deles para lhes falar de Jesus no trabalho, na escola, na paragem do autocarro”, afirmou.

Naquela que é a décima visita pastoral desde que iniciou o seu ministério episcopal em Setúbal, D. Américo explicou que estes encontros pretendem “conhecermo-nos uns aos outros”, compreender a realidade concreta do território e discernir caminhos para fortalecer a vida comunitária.

 

A partir da segunda leitura da liturgia, o cardeal insistiu na corresponsabilidade de todos os membros da comunidade: “Ninguém é mais importante e ninguém é menos importante. Todos são importantes”, afirmou, desde os leigos aos responsáveis paroquiais e ao pároco.

D. Américo Aguiar destacou ainda o desafio colocado pela diversidade cultural presente nas comunidades atuais, evocando a imagem bíblica do Pentecostes. Recordando a visita recente a uma escola com alunos de 43 nacionalidades, considerou que esta realidade pode ser vivida “como uma riqueza, como um tesouro”.

“Descobrir como é que nós podemos traduzir Jesus Cristo ressuscitado nas mais diversas línguas e sensibilidades” é, segundo o cardeal, uma missão essencial da Igreja nos dias de hoje.

Ao longo da homilia, o bispo de Setúbal apelou também à construção da paz nas relações quotidianas, advertindo que, apesar da preocupação com os conflitos internacionais, muitas vezes “em nossa casa somos piores que eles”, através de palavras e atitudes que não semeiam reconciliação.

No final da celebração, pediu que o Espírito Santo continue a fortalecer especialmente aqueles que vivem situações de fragilidade e dificuldade, para que toda a comunidade possa dar “o rosto de Cristo vivo”.

 

 

Vigília de Pentecostes marcou primeiro dia da visita pastoral

O primeiro dia da visita pastoral ficou marcado por diversos encontros com a comunidade paroquial e culminou na celebração da Vigília de Pentecostes.

Durante um encontro com os responsáveis dos movimentos da paróquia, D. Américo Aguiar voltou a insistir na necessidade de abandonar uma lógica de “pastoral de manutenção” e assumir uma verdadeira “Igreja em saída”.

“Temos de declarar proibido dizer ‘sempre foi assim’ ou ‘é costume’”, afirmou, defendendo uma pastoral mais próxima das pessoas afastadas da Igreja. Recorrendo à parábola do pastor que deixa as 99 ovelhas para procurar a que se perdeu, o cardeal sugeriu que hoje o desafio é precisamente o inverso: “é tempo de deixarmos a ovelha que cuidamos e irmos atrás das 99 que andam perdidas”.

Ao longo do dia, visitou também uma empresa local, encontrou-se com os jovens da catequese e rezou o terço no lar paroquial juntamente com os jovens que iriam fazer a Profissão de Fé e respetivas famílias. O programa incluiu ainda um encontro e jantar com os catequistas da paróquia.

 

Na homilia da Vigília de Pentecostes, D. Américo Aguiar centrou-se na ação do Espírito Santo na vida dos cristãos, agradecendo o testemunho daqueles que vivem a fé em ambientes adversos, por vezes “na escola”, “numa empresa” ou “até na própria casa”.

Dirigindo-se particularmente aos jovens que fizeram a Profissão de Fé, apelou a um cristianismo alegre e sem vergonha de assumir a fé publicamente. “Não quero que vos sintais morcões”, disse, recorrendo a uma expressão popular do Porto para designar alguém “insonso”. Pelo contrário, pediu que fossem “testemunho da alegria de ser cristão” junto dos outros jovens, na escola, nas brincadeiras e nas relações do dia a dia.

 

Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Ricardo Perna

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