Celebrar a instituição de acólitos no Domingo de Pentecostes ajuda-nos a compreender que toda a vocação nasce do Espírito Santo e só pode ser vivida na força do Espírito Santo. Sem Ele, o ministério transforma-se facilmente numa função, a liturgia torna-se um conjunto de ritos exteriores e a Igreja perde o fogo interior que lhe dá vida e missão.
A primeira leitura apresenta-nos precisamente esse fogo. Os discípulos recebem o Espírito Santo como vento forte e línguas de fogo. O fogo ilumina, aquece e purifica. E talvez esta seja uma bela imagem daquilo que deve acontecer na vida de quem se prepara para o ministério ordenado: deixar que Deus ilumine as zonas mais obscuras do coração, aqueça a fé e purifique as intenções mais profundas.
Caros Alexandre e Miguel, candidatos ao ministério de acólitos, aproximar-vos do altar da Eucaristia é muito mais do que aprender funções litúrgicas. É aprender a lógica de Cristo. A lógica da entrega, do serviço humilde e do amor oferecido até ao fim. Servir a mesa da Eucaristia significa aprender progressivamente a fazer da própria vida uma oferta para Deus e para os irmãos.
O povo de Deus espera sacerdotes próximos, humanos e disponíveis. Espera homens capazes de escutar, de acolher e de caminhar com as pessoas reais, com as suas alegrias e feridas. O nosso tempo não precisa de funcionários do sagrado nem de homens fechados em estruturas; precisa de discípulos apaixonados por Jesus Cristo.
O Evangelho de hoje mostra-nos Jesus a entrar numa casa fechada pelo medo. Também a Igreja corre sempre o risco de se fechar: fechar-se nas rotinas, nas estruturas, nos esquemas já conhecidos. Mas o Espírito Santo abre portas e empurra-nos para a missão. Por isso, um futuro sacerdote terá de ser, antes de tudo, homem de comunhão e de missão.
São Paulo dizia-nos: “Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo.” O ministério nunca pode ser entendido como poder, prestígio ou protagonismo pessoal. O verdadeiro ministro aprende a desaparecer para que Cristo apareça. Aprende que a autoridade cristã só faz sentido como serviço.
E permiti-me dizer-vos isto com muito carinho e sinceridade: o povo percebe rapidamente quando encontra um sacerdote feliz e quando encontra um sacerdote cansado de Deus. Por isso, cuidai da vossa amizade com Jesus. Aprendei o silêncio interior. Não tenhais medo da fragilidade, mas tende medo da superficialidade espiritual. Um sacerdote não sustenta a sua vida apenas pela eficiência pastoral, mas pela intimidade com Cristo.
A Diocese de Setúbal precisa de sacerdotes com coração grande, capazes de acolher sem julgar, de anunciar a verdade sem agressividade e de amar a Igreja concreta, real e imperfeita. E isso só será possível se o fogo de Pentecostes permanecer vivo dentro de cada um de vós.
Que Nossa Senhora, mulher do Cenáculo e Mãe da Igreja, acompanhe o vosso caminho vocacional e vos ensine a viver sempre disponíveis ao sopro do Espírito Santo.
Amen.
† Cardeal Américo, Bispo de Setúbal




