Uma pequena partilha convosco desta circunstância, da que nos reunimos para celebrarmos o Dia do Senhor, este domingo, da Santíssima Trindade.
Também, 31 de Maio, visitação, Nossa Senhora ainda nos faz lembrar a Jornada Mundial da Juventude, Maria levantou-se e partiu apressadamente, e nunca é demais agradecer todo o empenho e dedicação de trabalho que esta comunidade teve durante a Jornada Mundial da Juventude.
Então, meus queridos irmãos e irmãs, esta visita pastoral começou em domingo de Pentecostes, e termina no domingo da Santíssima Trindade. Eu acho que quase que não há enquadramento mais feliz para poder acontecer. Durante estes dias, que foram, certamente, cansativos, principalmente para quem acompanhou, mas de alegria, de expectativa para quem nos acolheu, de curiosidade, enfim, tantas coisas aconteceram ao longo de todos estes dias, de tantos rostos, tantas famílias, algumas lágrimas, muitos sorrisos, mas quero é dar graças a Deus por tudo isso que constitui esta comunidade.
Costumam dizer que há muita vida para lá do Parlamento, há muita vida para lá do Orçamento, pois eu também digo que há muita comunidade para além daqueles que aqui estamos. Isso é bom. E por isso é que as visitas pastorais, cada vez mais, são para irmos ao encontro dos que estão fora, e não propriamente para mimar só os que estão dentro.
Nós temos presente a parábola de Jesus, quando diz que era preciso ter coragem para deixar as 99 ovelhas e ir ao encontro daquela que estava tresmalhada, estava fora. Eu acho que agora está ao contrário: nós temos que deixar aquela que está cá e temos que tentar salvar e cativar as 99 que andam à solta.
E por isso a visita pastoral também significa a tentativa de levarmos Cristo vivo aos homens e mulheres que habitam no nosso território, este território imenso.
E também fui aprendendo que este território tem um contínuo. Da Sobreda à Vila Nova e a Vale Figueira.
Uns moram aqui e celebram ali, uns celebram ali mas moram aqui. Uns estão aqui e os jogos estão ali. Uns andam aqui mas a escola é ali.
Uns trabalham aqui mas vivem acolá. O território é cada vez mais, como agora as pessoas finas dizem, líquido. O território é líquido, ou seja, isto flutua mediante aquilo que são as realidades das nossas vidas. E nós não podemos esconder essa realidade. E por isso vamos pedir ao Senhor e ao Espírito Santo de Deus que nos inspire e transpire para a gente saber o que é que Ele nos diz, o que é que Ele nos quer dizer em relação ao futuro que se nos aproxima.
Depois nós ouvíamos há bocadinho falar o Moisés que levantou-se muito cedo e subiu à montanha. Cá estamos nós, subimos à montanha, estamos em volta da mesa, em volta do altar para estarmos com Jesus, para nos alimentarmos da Sua Palavra que foi proclamada e nos alimentarmos do Seu corpo e sangue que Ele se fará para todos e cada um de nós.
Depois ouvíamos que Deus é amor, que Deus é paz, que Deus é misericórdia, que Deus é cuidado, que Deus salva. Às vezes nós, porventura, podemos dar testemunho de um Deus castigador, mas Deus é amor, Deus é carinho, Deus é salvação. E nós não podemos deixar de dar testemunho disso mesmo, mesmo que às vezes a nossa cara e os nossos gestos não transmitam facilmente esses sentimentos.
Nós temos de ser capazes de dar testemunho de Cristo vivo. Todos, todos, todos os batizados têm essa missão, têm essa obrigação de dar testemunho de Cristo vivo.
Algumas pessoas que eu encontrei nesta décima paróquia que estou a visitar afastaram-se da Igreja porque tiveram um problema com uma pessoa. “Ai eu afastei-me da Igreja, porque eu tive uma bulha com o sacristão, tive uma bulha com o padre, tive uma bulha com a da Catequese, já agora tive uma bulha com a do Coro, tive uma bulha não sei com quem, e eu afastei-me da Igreja”. Ora, a Igreja não é aquela pessoa, nem é o padre, nem é o bispo, somos nós.
99,9% das pessoas que se afastam foi porque não foram acolhidas, não foram respeitadas, não foram amadas, não foram salvas. Houve alguém que se esqueceu de que o seu papel era de acolhimento, de amor e de cuidado. E nós não podemos esquecer exatamente isso.
E depois há pessoas magoadas, eternamente magoadas, por uma palavra que o próprio nem deu por ela. No meio do corredor, “Senhor Padre eu precisava… agora não tenho tempo”, diz o sacerdote, e a pessoa ficou marcada para sempre. Às vezes nós não temos consciência que aquela pessoa, naquele momento, precisava de tempo, precisava de presença, mesmo que fosse silenciosa. Mas naquele momento eu não tive tempo e dei um chega para lá, e foi o suficiente para a pessoa se afastar.
E por isso nós temos que, enfim, fazer das tripas coração, mesmo quando às vezes não estamos para aí virados, de nunca nos esquecermos que o nosso rosto é o rosto de Cristo vivo para os irmãos e para as irmãs.
Depois ouvíamos na 2ª leitura Paulo lembrar-nos que nós devemos ter consciência que Deus é Paz, que nós somos Paz, e temos que instaurar à nossa volta. Nós não podemos resolver o problema da Ucrânia, nem do Irão, nem dos países do mundo em guerra. Mas podemos fazer menos guerra na nossa casa.
Há malta que tem uma língua muito… A malta diz, “ah, eu tenho muito o coração ao pé da língua”. Olha, então vá ao médico, não é? Então vá ao médico porque não deve estar assim demasiado perto. “Eu sou muito transparente, eu tenho que dizer sempre o que sinto, mesmo que seja a magoar os outros”. Há malta que é demasiado livre a magoar os outros. Nossa Senhora ensinou-nos que Maria guardava tudo em silêncio no seu coração, e às vezes aquela coisa de eu sou transparente, eu digo sempre a verdade, magoa.
Nem todos estão preparados para ouvir de tiro a verdade toda. Tem que ser doseado.
E depois nós estamos agora para crismar estes sobreviventes. Acima de tudo, o Crisma vai preenchê-los com a plenitude do Espírito. E pode acontecer tudo, como pode não acontecer nada, depende de cada um. Deus vai querer habitar plenamente o coração de cada um. Dependerá de cada um de vocês, querer ou não querer, que Deus aconteça na sua vida. Nós dizemos sempre, a brincar, que a maioria dos crismandos, a partir de hoje, desaparece, e aparece para casar ou para o funeral. São as duas hipóteses mais imediatas que se ponham. Porque, entretanto, pisgam-se, desaparecem.
Vão evangelizar. É a minha esperança, não é? Ora, o que nós pedimos é que podem desaparecer daqui, mas apareçam noutro sítio. Ou seja, nós queremos e desejamos que o sacramento do Crisma não seja o carimbo final no “passaporte da liberdade”. Queremos que seja uma etapa, uma fase, uma estação. A dizer, como a Igreja diz há tanto tempo até, que agora são adultos na fé. E a Igreja espera muito de que cada um de vocês sejam integrados na comunidade nas mais diversas tarefas, seja no dia a dia das vossas vidas, no trabalho, na família, na escola e em tantas outras realidades das vossas vidas.
Vamos pedir ao Espírito Santo de Deus que vos fortaleça, que vos abençoe, que vos ilumine e que vos ajude. E também que os padrinhos e as madrinhas também sintam a responsabilidade, para que ninguém ande aqui sozinho ou ninguém se sinta sozinho na caminhada. Nós estamos sempre todos uns com os outros a fazer este caminho, nesta Trindade Santíssima que é Pai, que é Filho e que é Espírito Santo.
Assim seja.




