Caríssimos irmãos e irmãs, Permiti que faça uma pequena reflexão convosco desta circunstância, de aqui nos reunirmos para celebrarmos a Eucaristia, neste dia tão especial para nós, do Sagrado Coração de Jesus e do dia de oração pela santificação dos sacerdotes. Há bocadinho não lembrei, mas quero saudar os nossos seminaristas, alguns estão em situação de aflição, estão em exames, e portanto, rezarmos por eles, e também os nossos diáconos e as suas famílias.
Esta celebração, para mim, tem um sabor especial, em razão de estar no contexto das visitas pastorais. Já sobreviveram quase 11 paróquias, estou na 11ª, em São Francisco Xavier, sobreviveram quase todos os párocos, até agora, onde eu estive, e quero dar graças a Deus por tudo o que vivemos desde janeiro até agora, do que foi possível, olhos nos olhos, coração a coração, testemunhar, conhecer, viver, pedir perdão, dar graças a Deus, porque tudo nos acontece nestes dias, desde as pessoas que nos vêm agradecer, às que vêm reclamar, às que dizem isto e às que dizem aquilo.
Portanto, tudo colocar no coração de Jesus, acima de tudo, como ação de graças a Deus, porque, como dizia alguém, o Portugal real é muito melhor que o Portugal mediático, e é verdade. Quanto mais conhecemos a realidade das nossas comunidades, sejam as paróquias, sejam as freguesias, sejam as empresas, sejam as instituições, o país real é muito melhor do que aquilo que diariamente nos jornais, nas televisões e nas redes nos aparece.
E nós temos de dar graças a Deus por isso. De tanto de bem, de tanto de belo e de verdadeiro que acontece diariamente nas nossas comunidades e no coração de tantos homens e mulheres de boa vontade. E nesta ação de graças colocar todos o nosso presbitério, daquilo que significa, e nestes tempos que passam, em que toda a fragilidade toma dimensões de primeira página, toda a falha, todo o pecado, e o contrário, absolutamente não.
E também a facilidade da generalização. Se um fez não sei quê, todos são, e pior do que isso. Ora, nos últimos tempos vamos convivendo com isso, e eu estou convencido que isso vai colocando cicatrizes, vai colocando feridas no coração dos nossos sacerdotes, quando digo nossos, digo os nossos de Setúbal, mas do nosso país, desta velha Europa e no mundo inteiro. E por isso também este desejo, este pedido ao Sagrado Coração de Jesus, que possa também ser paliativo daquilo que significa o sofrimento de tantos sacerdotes que por suma e variedade sofrem tanto, diariamente, em tantas circunstâncias, por tudo aquilo, acima de tudo, mentira, que acontece e que se espalha sobre o exercício desta vocação que Deus nos chama. Quando digo sacerdotes, digo os diáconos e digo os bispos e digo os cardeais, só isento o Papa, mas lembro todos e cada um.
Nós ouvíamos nestas leituras falar deste Deus que nos ama, que nos escolhe, que nos envia. Ora, estamos todos nesta circunstância. Ouvíamos no Evangelho que somos daqueles a quem o Senhor revelou o Pai, e somos aqueles que somos convidados, temos a missão, temos a vocação de dar testemunho desse Pai aos irmãos e às irmãs no quotidiano das nossas vidas. E as visitas pastorais ajudam a reforçar ainda mais que nós temos que, cada vez mais, fazer o que é próprio da nossa condição: celebrar a Eucaristia, confessar e ungir os doentes.
Cada vez mais temos que nos colocar no foco, exatamente naquilo que é exclusivo da nossa condição. Nós vamos vendo nas visitas, nas nossas comunidades, e damos graças a Deus por isso, tantos e tantas que fazem tudo o resto de uma maneira extraordinária. E nós temos de ser capazes de fazer esse caminho.
E eu sei que não é fácil. Aliás, os povos, os leigos, às vezes começam eles próprios a reclamar um bocadinho dessa descoberta que nós vamos fazendo, de que eles podem também exercer a sua missão e a sua vocação. Não podemos é colocar o foco exclusivamente na logística, na oportunidade da logística.
Lá no Porto, o Sr. D. Manuel Clemente, quando lá esteve, lembrou-se, e muito bem, o Espírito Santo soprou-lhe, de abrir a caixa de Pandora dos novos Diáconos Permanentes, que estava fechada há muito tempo. E o D. Manuel disse que ia fazer um apelo a todos os sacerdotes para que pudessem apresentar candidatos.
E então, apareceram cem, ou mais. E o que era divertido é que, nas conversas eclesiásticas, os padres, cada um olhava para o seu sacristão e pensava assim, bem, este já assistiu a tantas celebrações, que é capaz de já fazer algumas sozinho. Ou seja, numa perspetiva utilitária, única e exclusivamente.
Ora, não é isso que nós pretendemos. Pretendemos, enfim, cultivar do nosso coração a riqueza da diversidade das vocações. E quando nós falamos das vocações, falamos em tantas dos irmãos e das irmãs leigos, que podem, em conjunto com o exercício do nosso ministério, podem concretizar esta evangelização, de darmos testemunho do rosto de Cristo vivo aos irmãos e às irmãs.
E é isso que se testemunha nas visitas pastorais. Exatamente isso. E, nomeadamente, as surpresas que nós temos quando encontramos tanta gente, com tantas responsabilidades, em tantas tarefas diferentes, que lá vão dizendo, mais ou menos, envergonhadamente, que são da paróquia A, que são da paróquia B, o padre A, o padre B, a pessoa X, a pessoa Y. E nós ficamos com o coração cheio, felizes e contentes, de tantos e tantos filhos e filhas de Deus, homens e mulheres de boa vontade, que estão na sociedade com as mais diversas responsabilidades e damos graças a Deus por tudo isso.
Depois, tentando significar a gratidão a cada um de vocês. Uma gratidão sem limites ao trabalho, à dedicação de cada um, há mais tempo, há menos tempo, há mais anos, há menos anos, no que significa a caminhada que vão fazendo, e a nossa atenção. E eu peço, sempre que é possível, relembro, nas nossas conversas, aos nossos Vigários-Gerais, ao Vigário-Episcopal do Clero, de estarmos atentos àquilo que é, aos sinais de alguma dificuldade, de doença, de desgaste, de cansaço, para que possamos estar todos juntos, uns com os outros, para que possa existir uma rede, não é? Como o trapezista, que vai naquela corda, e o ter a rede lá em baixo, dá alguma segurança, não é? Porque se a gente cair, sabe que tem a rede.
Ora, nós, às vezes, essa rede não é muito visível, e temos, e desejamos, com o tempo, cada vez mais, reforçar esta rede de atenção, uns aos outros. Não é fácil, não é? E na nossa sociedade, aliás, ainda há dias, o Papa dizia em Espanha isso, e os jovens também diziam, e cada vez se diz mais. Eu tenho o receio é que se vulgarize de tal maneira, volta a ficar esquecido. E isso tem a ver com o equilíbrio da saúde mental. Já não há pachorra por falar de burnouts, nem de esgotamentos, nem não sei o quê, porque está de tal maneira a vulgarizar-se que já parece uma moda, não é? Mas temos que estar atentos, temos que estar atentos, muito atentos, e acionar as ligações de amizade mais profunda, porque todos nós, quando alguém parte um braço, mandamos a ortopedia, quando alguém não sei o quê, mandamos a urologia. Quando alguém não sei o que mais, mandamos ao oftalmologista ou ao otorrino. Mas quando alguém nos parece que precisa de ajuda, não dizemos nada.
É muito complicado dizer a um colega, dizer a um amigo, dizer a um irmão, se calhar era melhor que tivesse alguma ajuda na área da saúde mental. Ora, isso nós ainda não estamos muito preparados para esta possibilidade de darmos esse passo, de estendermos a mão nessa circunstância. Não estou a dizer que é a nossa urgência, mas estou a dizer que é bom que no caminho que fazemos, e principalmente de proximidade, porque eu já sei que eu, o bispo, não sou propriamente a primeira pessoa mais indicada para essa aproximação, e estou convencido que quer eu, quer os meus irmãos, nessas aproximações não somos muito felizes, nem temos muito sucesso no deve e no haver, e portanto estou convencido que é necessário uma teia de maior proximidade, de maior amizade, de maior fraternidade, para que isso possa verdadeiramente acontecer.
E eu quero colocar no coração de Jesus esta minha preocupação por aquilo que significa principalmente o equilíbrio entre o que é que temos consciência de fazer e aquilo que são as verdadeiras possibilidades que eu tenho de as concretizar. E como eu tenho dito e repetido tantas vezes, o futuro é cada vez mais exigente naquilo que significa as tarefas a realizar e as capacidades que eu tenho, físicas, intelectuais ou espirituais, para corresponder a elas mesmas. E por isso também vou repetindo ao nosso povo de Deus que nós não podemos continuar a julgar que está tudo como sempre foi e continuará a ser como sempre aconteceu, porque é costume, porque é tradição, porque assim era.
Temos de ser capazes de desenhar com o coração de Deus, desenhar e arriscar soluções, desenhar e arriscar caminhos, de maneira a que possamos sincronizar mais facilmente o nosso coração, o coração de Jesus, o coração dos sacerdotes.
Termino com o que foi refletido, e agradeço ao Padre Cláudio a tentativa de irmos aprofundando um pouquinho mais a Nota Episcopal Cuidar com o Coração.
Nas visitas pastorais vou-me convencendo ainda mais da urgência de termos esse foco, ou seja, da nossa presença indispensável junto daqueles que vivem momentos de fragilidade, seja a doença, seja a morte, seja o luto. A nossa presença junto destes momentos vitais dos irmãos e das irmãs e das famílias é um lugar teológico urgente, necessário, de primeira ordem. Nós não podemos deixar de alterar as nossas vidas, alterar os nossos esquemas de maneira a podermos corresponder à urgência dessa presença.
E depois, há palavras que às vezes nos saem. Nas nossas paróquias, nos contextos de um funeral, de umas exéquias, de um doente, um dia em que estamos menos iluminados, um dia em que estamos mais cansados, um dia em que estamos arreliados, um dia em que estamos mal dispostos e nós às vezes não temos consciência do quanto isso magoa até à terceira geração daquela família. Porque naquele dia o Padre fez ou não fez, disse ou não disse, realizou ou não realizou. E eu peço e rezo para que, do que depende de mim, também, e de cada um de nós, nós peçamos que Deus nos possa permitir sempre sermos o rosto, as mãos e a palavra junto dos irmãos e irmãs que vivem estes momentos de fragilidade. Que nós possamos estar, às vezes sem dizer muito, sem fazer muito, mas sermos presença junto deles e junto delas nesta circunstância.
E por último, a escola. E eu peço desculpa por estar de vez em quando a falar nisto. Nós não podemos perder a nossa presença na escola. E estou a falar mais diretamente da lecionação e da inscrição dos alunos de Educação Moral e Religiosa Católica. Nós não podemos perder a nossa presença na escola. A ida às escolas torna presente exatamente isso. Primeiro, a recetividade e a alegria dos alunos, mesmo aqueles que inicialmente, de lá ou longe, parecem, enfim, “terroristas” ou coisa parecida, mas depois, no trato, simpaticíssimos.
Mas, acima de tudo, a nossa capacidade de não deixar de estar presente na escola. E, por isso, eu volto a repetir o que já escrevi pelo menos duas ou três vezes, e peço que, com todos os sacrifícios, os nossos sacerdotes possam assumir o sacrifício de, nas suas comunidades, nas suas paróquias, poderem, dentro do que é humanamente possível, lecionar, se for necessário, EMRC na escola da paróquia. Mesmo que isso signifique não poder estar a fazer outras coisas e não poder fazer não sei o quê, porque nós não podemos perder este bloco dos jovens.
O que vemos, ao visitar as escolas, é que, não sei o número, mas 90 e tal por cento da juventude não passam, já não passam, pela realidade das nossas comunidades. E a escola é o único local que sobra para nós nos encontrarmos e termos uma oportunidade de lhes falar de Jesus. O que me tem impressionado é que, nos mais pequeninos, eles não sabem o que é isto [aponta pra a sua Cruz peitoral].
Na maioria das escolas dos mais pequeninos, fazem lá aqueles abraços, aquelas coisas todas, depois chega o momento e perguntam o que é isto. Portanto, nós já estamos na fase em que muitos jovens, muitas crianças, não sabem o que é uma cruz. E quando lhes digo que é a cruz de Jesus, então está o caldo entornado, começa ali a necessidade de começar a catequese, uma catequese sobre o assunto.
E por isso, meus queridos irmãos e irmãs, meus queridos sacerdotes, tudo o que eu estou aqui a dizer é para vos dizer obrigado, de maneiras mais diversas, mesmo que às vezes possam não parecer. Obrigado.
Uma gratidão profunda que coloco no coração, no Sagrado Coração de Jesus, por cada um de vocês, pelas vossas dificuldades, pelos vossos problemas, pelas incompreensões que às vezes possam sentir também, mas, acima de tudo, gratidão no coração de Deus por todos, cada um de vós, que Ele vos fortaleça, que Ele vos encoraje, que Ele vos unja para aquilo que são os desafios que se aproximam. E alguns de vocês tenham no coração os desafios do próximo ano pastoral. Alguns estão doridos, outros estão expectantes, outros estão… Enfim, há várias secções.
E também peço no coração do coração de Jesus que possa aliviar, que possam ouvir, que possa fortalecer, que possa encorajar para que as missões a que cada um sejam enviados, não seja um capricho do bispo, ou um capricho da hierarquia, ou um capricho não sei de quem, mas possam ser aquilo que Deus quer para esta igreja, para esta comunidade, em que cada um de vocês é chamado, é eleito e é enviado para esse desafio que se coloca, é esse o nosso desejo, é essa a nossa vontade e é isso que nas nossas orações pedimos todos os dias.
Assim seja.




