«Mestre, onde moras?» — «Vinde ver.» (Jo 1,38-39)
Caríssimos irmãos presbíteros e diáconos, consagrados e consagradas, seminaristas e agentes da pastoral,
Dirijo-vos esta carta com um pedido que nasce do coração de pastor: não desistamos da formação.
Vivemos tempos exigentes. As mudanças culturais, sociais e religiosas desafiam diariamente a missão da Igreja. Encontramos pessoas com novas perguntas, novas linguagens, novas fragilidades e novas esperanças. Não podemos responder aos desafios de hoje apenas com os conhecimentos de ontem. O discípulo de Jesus nunca deixa de aprender, porque nunca deixa de seguir o Mestre.
Ao longo deste último ano demos passos importantes. Reabrimos, com alegria, a Escola da Fé e dos Ministérios, oferecendo um espaço de formação para todos aqueles que desejam aprofundar a fé e servir melhor a Igreja. Multiplicaram-se igualmente as propostas de formação bíblica e outras iniciativas promovidas pelos serviços diocesanos, pelas paróquias, pelos movimentos e pelas comunidades.
Dou graças a Deus por tudo isto.
Mas não podemos ficar satisfeitos.
É preciso mais. Muito mais.
Ainda há demasiados cristãos que vivem a sua fé sem oportunidades regulares de formação. Ainda há muitos catequistas, leitores, ministros extraordinários da comunhão, animadores de grupos, membros dos Conselhos Pastorais e dos Conselhos para os Assuntos Económicos, dirigentes de movimentos e tantos outros agentes pastorais que servem generosamente a Igreja sem nunca terem podido beneficiar de um verdadeiro percurso formativo.
Não basta pedir disponibilidade para servir. É preciso ajudar a servir melhor.
A formação não é um privilégio para alguns nem uma exigência apenas para quem exerce determinados ministérios. É uma dimensão essencial da vida cristã. Quem ama Cristo deseja conhecê-Lo melhor; quem anuncia o Evangelho precisa de o compreender mais profundamente; quem serve a Igreja deve crescer continuamente na fé, na espiritualidade e na competência pastoral.
Por isso, dirijo um apelo muito concreto aos párocos, aos vigários, aos responsáveis das Vigararias, aos secretariados e a todos os que têm responsabilidades pastorais: levemos a formação até às pessoas. Nem sempre podemos esperar que as pessoas venham aos lugares onde habitualmente organizamos os cursos. O nosso território diocesano apresenta dificuldades de mobilidade que todos conhecemos e que, para muitos, constituem um verdadeiro obstáculo à participação. Por isso, peço que as propostas formativas sejam, sempre que possível, descentralizadas, realizando-se nas diferentes Vigararias e nas próprias paróquias. Uma Igreja que deseja chegar a todos deve também saber levar a formação ao encontro de todos.
Penso, de modo particular, na formação bíblica, que felizmente se tem multiplicado entre nós. Continuemos esse caminho, mas façamo-lo com sentido pedagógico e missionário. Não tenhamos receio de começar pelo essencial. Há muitos irmãos e irmãs que nunca tiveram oportunidade de conhecer verdadeiramente a Sagrada Escritura. Antes de lhes pedirmos grandes conhecimentos, ajudemo-los a descobrir a Bíblia, a manuseá-la, a encontrar os seus livros, a compreender a unidade da Revelação e a iniciar uma leitura orante e perseverante da Palavra de Deus. Uma comunidade que aprende a abrir a Bíblia com confiança é uma comunidade que aprende a escutar o Senhor.
A todos os agentes da pastoral digo: não tenhais receio de voltar a estudar, de fazer perguntas, de aprofundar a Sagrada Escritura, a doutrina da Igreja, a liturgia, a espiritualidade e os desafios do mundo contemporâneo. A humildade de aprender é uma das formas mais belas de amar a Igreja.
Sonho com uma Diocese onde a formação chegue verdadeiramente a todos, todos, todos. Aos jovens e aos adultos. Aos que começaram agora e aos que servem há muitos anos. Aos ministros ordenados e aos leigos. Às comunidades maiores e às mais pequenas. Ninguém deve sentir que já sabe tudo; ninguém deve ficar sem oportunidade de crescer.
Peço-vos, por isso, que acolhais a formação como um compromisso pessoal e comunitário. Que cada paróquia procure envolver mais pessoas. Que cada movimento incentive os seus membros. Que cada serviço diocesano faça da qualidade da formação uma prioridade. Tudo o que investirmos hoje na inteligência da fé, na maturidade cristã e na preparação dos nossos agentes pastorais será um dos maiores serviços que podemos prestar ao futuro da Diocese de Setúbal.
Ao aproximar-se o tempo de verão, desejo sinceramente que todos aqueles que tiverem essa possibilidade possam usufruir de alguns dias de descanso, de convívio familiar e de renovação física, espiritual e pastoral. O descanso é também um dom de Deus e uma oportunidade para reencontrar o essencial.
Quero, ao mesmo tempo, expressar a minha profunda gratidão a todos os que, precisamente neste tempo, continuarão a desempenhar generosamente o seu serviço nas paróquias, nas comunidades, nas instituições e nos diversos serviços pastorais, permitindo que outros possam gozar as suas férias. O vosso trabalho discreto, tantas vezes escondido, é uma expressão concreta da caridade e da corresponsabilidade que edificam a nossa Igreja.
Que o Senhor recompense a generosidade de todos e nos conceda a graça de regressarmos, depois deste tempo de descanso, com renovado entusiasmo para continuar a missão que nos confia.
Confio este propósito à intercessão de Santa Maria da Graça, nossa Padroeira e Sede da Sabedoria. Que Ela nos ensine a escutar a Palavra, a guardá-la no coração e a traduzi-la em vida.
Com gratidão pelo vosso serviço, envio-vos a minha bênção e o meu afeto.
Setúbal, 28 julho de 2026
Memória litúrgica de S Pedro Poveda, fundador da instituição Teresiana.
✠ Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal




