Cardeal D. Américo Aguiar pede comunidades empenhadas na sinodalidade

Fev 28, 2026

 

O Santuário de Cristo Rei, em Almada, acolheu esta manhã de sábado, 28 de fevereiro, o I Encontro Diocesano dos Conselhos Pastorais Paroquiais da Diocese de Setúbal. Com uma adesão de cerca de 95 por cento das paróquias da diocese, o encontro reuniu 250 participantes, representando todas as vigararias, e contou ainda com a presença do Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, dos vigários-gerais e dos membros da equipa sinodal diocesana. A iniciativa foi organizada pela Comissão Sinodal Diocesana de Setúbal.

Na abertura dos trabalhos, o Cardeal D. Américo Aguiar sublinhou que os presentes estavam reunidos “não por estratégia humana, mas por fidelidade a Cristo”. Invocando a memória da fundação da Diocese de Setúbal pelo Papa Paulo VI, a 16 de Julho de 1975, o bispo sadino recordou que a diocese “nasceu do coração do Concílio Vaticano II, chamada a ser Igreja missionária, servidora e em saída”.

O prelado interpelou os participantes com uma questão que definiu como “decisiva”: “O que diz hoje o Espírito Santo às mulheres e aos homens sadinos? Quais são os sonhos de Deus para este Seu amado Povo que peregrina em Setúbal?”

D. Américo Aguiar partilhou com os conselheiros pastorais as realidades que mais pesam no seu coração enquanto bispo diocesano. Em primeiro lugar, a presença da Igreja na escola, nomeadamente a frequência e a leccionação da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica. “Não podemos desistir deste campo missionário”, afirmou o cardeal.

 

O bispo apelou também à proximidade da Igreja junto dos que sofrem, dos doentes e dos enlutados, invocando a imagem do Bom Samaritano. “Somos chamados a ser Igreja samaritana, que não passa ao largo da dor humana.”

Um terceiro apelo foi dirigido à necessidade de manter as igrejas abertas para além dos horários das celebrações: “Uma igreja aberta é sinal de um Deus acessível, de refúgio, de oração”, disse o prelado. D. Américo Aguiar falou ainda da proposta de um novo mapa paroquial, que classificou como “um discernimento missionário, e não um exercício meramente administrativo”, garantindo que “nada será imposto sem escuta, nada será decidido sem discernimento, nada avançará sem comunhão”. Abordou igualmente a questão da sustentabilidade económica e financeira das paróquias, considerando que “urgem novos paradigmas de corresponsabilidade, transparência e partilha”.

A manhã de trabalhos prosseguiu com uma palestra do Pe. Sérgio Leal, sacerdote da Diocese do Porto e especialista em sinodalidade. O orador definiu este conceito como “o modo constitutivo de ser Igreja”, esclarecendo de imediato que a sinodalidade “não significa nem é sinónimo de parlamentarismo”.

O Pe. Sérgio Leal desafiou os participantes a interrogarem-se sobre o que o Espírito Santo pede “aqui e agora”, salientando que a sinodalidade convoca a Igreja a descobrir os caminhos da evangelização na relação entre a Palavra de Deus e a vida concreta. Destacou a diversidade dos dons e carismas como riqueza a potenciar, e elegeu a escuta como dimensão central. “A Igreja sinodal é a Igreja da Escuta. Como é que queremos que os homens e mulheres de hoje nos escutem, se não formos capazes, enquanto Igreja, de os escutar?”

O sacerdote desafiou os conselheiros pastorais a orientarem o seu discernimento em torno de três questões: o que é fundamental e deve ser mantido; o que se tornou acessório e deve ser abandonado; e o que importa criar de novo para responder ao que o Senhor pede. Sublinhou que “não temos de pensar igual, mas sim juntos”, e elegeu a fraternidade como “a melhor e a mais fundamental descoberta da sinodalidade”. O Pe. Sérgio Leal concluiu recordando que o conselho pastoral é “parte indispensável e integrante da decisão”, e que “a decisão toma-se não isoladamente, mas em conjunto”.

Conclusões: escuta, missão e abertura

Os 250 participantes foram distribuídos por 30 grupos sinodais, que aplicaram o método da Conversação no Espírito e entregaram as suas propostas no final do encontro. Das reflexões e partilhas emergiu um conjunto de orientações que serão enriquecidas com o contributo detalhado de todos os grupos.

Entre as principais conclusões aprovadas pelos participantes, destacam-se a promoção de uma maior abertura e articulação dos grupos de reflexão paroquiais, para fomentar “um espírito de comunhão mais vincado e contagiante”; a necessidade de cuidar do acolhimento nas comunidades, com equipas paroquiais dedicadas à integração de quem chega; a promoção de espaços de escuta através do método da Conversação no Espírito; o investimento na formação dos leigos, com o alargamento da Escola da Fé e da Escola para os Ministérios; e o reforço de uma cultura missionária, sendo “rosto de Jesus para os de dentro e os de fora”.

No encerramento do encontro, D. Américo Aguiar foi directo e sem rodeios ao desafiar os presentes. “Fico muito contente que tenham criado os Conselhos Pastorais Paroquiais, mas agora é preciso que funcionem”, disse, anunciando a primeira reunião do Conselho Pastoral Diocesano para 28 de Março próximo, e uma Assembleia Sinodal Diocesana para 27 de Fevereiro de 2027.

O cardeal apelou ao protagonismo dos leigos com uma imagem que arrancou sorrisos à assembleia: “Se não forem as formiguinhas dos leigos a chatear-nos, as coisas esmorecem e acabam. Sejam melgas, insistam para que as reuniões aconteçam.”

Com uma clareza pastoral desarmante, D. Américo traçou um quadro sombrio, mas esperançoso, da situação da diocese. “Há 50 anos a diocese tinha 7% de praticantes, hoje tem 3 ou 4%. Temos de mudar muitas coisas, temos de inovar”, reconheceu, advertindo que “96% da nossa gente está a olhar do lado de fora”. Referiu que hoje os funerais são, na prática, o único momento onde é possível encontrar pessoas fora da Igreja dispostas a ouvir uma palavra de fé. “Casamentos e batizados já não é possível, mas nos funerais ainda é”, admitiu.

O prelado recordou ainda situações de isolamento social extremo — “quando uma pessoa está três anos morta em casa sem que seja notado” —, para sublinhar a urgência da proximidade eclesial e laical. E regressou ao tema da escola com veemência: “A maior preocupação é a presença na escola pública. Se perdermos essa presença, nunca mais lá vamos voltar. É urgente, importante e fundamental que estejamos lá porque 90% das crianças da nossa freguesia não estão na catequese”.”Perder a presença na escola é um golpe duro para a evangelização”, concluiu.

O cardeal terminou com um desafio à “Igreja em saída” que o Papa Francisco tanto pediu: “Deixemo-nos desinstalar e demos testemunho daquilo que a Igreja propõe aos homens e mulheres que temos connosco.” E, numa nota de confiança, acrescentou: “Agora estou convencido que a carga da evangelização vai ficar mais leve. Não sei o que isto vai dar, mas vou rezar que, através do trabalho de cada conselho pastoral, fique mais evidente aquilo que o Espírito Santo chama de Igreja de Setúbal.”

Para encerrar formalmente o encontro, o Cardeal D. Américo Aguiar deu posse ao novo Conselho Pastoral Diocesano, reactivado ao fim de 12 anos de inactividade. O órgão, constituído por 42 conselheiros, tem um mandato de três anos. O último Conselho Pastoral Diocesano havia sido criado em 2014 pelo então Bispo de Setúbal, D. Gilberto Canavarro dos Reis.

 

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