Comunicar com mansidão nas redes sociais

Jun 1, 2025

Foto © Adem Ay | Unsplash

 

Há dias uma partilha nas redes sociais enervou-me (eu sei, o texto é sobre mansidão, mas eu chego lá, aguardem) sobremaneira. Não que a desinformação seja algo de novo para mim, mas por alguma razão fiquei preso aqui.

Em resumo, várias pessoas partilharam uma imagem da Casa de Santa Marta, no Vaticano, indicando que o “desejo de pobreza” do Papa Francisco, materializado na decisão de viver na Casa de Santa Marta, tinha tido um custo de 30 milhões de euros que era inaceitável e revelador da suposta hipocrisia do Papa.

Os posts nem sequer revelavam as fontes daquela informação, mas questionei os autores das partilhas e lá veio a identificação de um artigo de um jornal italiano que fazia estas afirmações sem citar uma única fonte, ou comprovar sequer um único euro de gastos.

Já um pouco agastado, questionei porque é que se partilham informações que podem provocar dano, porque são graves na sua essência, sem qualquer tipo de prova. Responderam-me “como imaginas, mudar para Casa de Santa Marta implicou fazer obras, mais pessoal, mais guardas, claro que ficou mais caro”, ao que respondi “esta afirmação grave não pode ser feita com base no que se acha, mas sim em factos. Onde estão os factos que comprovam os gastos?”, ao que me responderam “bom, se é mentira, então o Vaticano que venha provar que não se gastou aquele dinheiro, eu não retiro o que disse”.

A evolução da desinformação está tão grave que invertemos o ónus da prova e desapareceu a presunção de inocência. Nos dias de hoje, podemos fazer qualquer tipo de afirmação impunemente, que a pessoa depois é que tem de provar que o que foi divulgado sobre ela está errado.

Mas voltemos à história, que está a terminar. “Bom”, respondi eu, “então permite-me que te escreva o seguinte num post público: tu [não vamos revelar nomes] desviaste 2 milhões de euros da organização de que fazes parte e com esse dinheiro abriste uma conta offshore e pagaste a casa dos teus pais, que estão cheios de dívidas. Se não tenho razão, prova que o que escrevi está errado, e mesmo que proves eu não vou retirar o que escrevi”.

Depois disto, não recebi mais nenhuma resposta e deixei de ter acesso ao perfil dessa pessoa, que me “desamigou”…

São tempos difíceis, estes que vivemos. E por isso se torna mais urgente a mensagem que o Papa Francisco nos deixou para este dia, a necessidade de sermos mansos na nossa comunicação, ou até o desafio de termos uma comunicação “desarmada e desarmante”, como nos pediu o Papa Leão XIV, que escolheu receber na sua primeira audiência pública os profissionais da comunicação que tinham estado por aqueles dias a cobrir o funeral do Papa Francisco e o conclave, e lhes pediu precisamente isso.

Importa comunicar, importa ocupar o espaço mediático com uma comunicação positiva e mansa. Uma comunicação que não está interessada apenas em destruir, mas em construir pontes. Isto não significa deixar de falar de assuntos sensíveis, ou olhar de lado para as histórias más e difíceis, de todo. Significa abordar todo e qualquer assunto sem termos duas pedras em cada mão, e procurar que, mesmo nos tópicos mais difíceis e polémicos, haja um olhar de esperança para uma situação que pode e tem de ser diferente.

O desafio que se coloca neste dia, em que se celebra o Dia Mundial das Comunicações Sociais, é de que cada um, jornalista, produtor de conteúdo, ou simplesmente um ouvinte ou consumidor de informação, tenha a coragem de comunicar em paz, e de escrutinar todos aqueles que, pela sua má vontade, nos querem enganar a todos com uma aparente verdade que está carregada de más intenções.

Temos de ser capazes de fazer escolhas, de apontar para o caminho que queremos percorrer, conscientes de que não podemos pregar uma coisa e fazer outra.

Cada vez mais, as pessoas são curiosas e procuram informação nas redes sociais e nos meios de comunicação social. É preciso que a Igreja esteja nestes espaços e os preencha com a Verdade que sabemos e partilhamos. Porque, não tenham dúvidas, as pessoas vão continuar lá a procurar respostas e, se a Igreja não estiver, haverá sempre quem lá esteja disponível para dar meias-verdades, mentiras, ou para manipular…

Para que o Mal vença, é preciso apenas que as pessoas que querem o Bem nada façam, diz-se por aí. Por isso, mãos à obra e um feliz Dia Mundial das Comunicações Sociais.

 

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