O terceiro dia da Visita Pastoral às paróquias da Sobreda e Vila Nova foi inteiramente dedicado à comunidade da Sobreda. Entre o carinho dos idosos, o vigor dos jovens estudantes e o desafio à corresponsabilidade laical, o Cardeal de Setúbal deixou um apelo claro: é preciso passar de uma “pastoral de manutenção” para uma Igreja “atrevida” e acolhedora.
O terceiro dia da Visita Pastoral do Bispo de Setúbal, Cardeal D. Américo Aguiar, à Sobreda, começou onde a fé se vive no silêncio e na resiliência: na casa de quem já não pode caminhar até à igreja.
A manhã arrancou com uma visita emocionante ao casal Eliseu e Lurdes. O Sr. Eliseu, figura histórica da paróquia, continua a ser o elo de ligação da esposa, doente, à Eucaristia, levando-lhe a comunhão todos os domingos enquanto esta acompanha a celebração pela televisão. Pouco depois, no Lar S. José – “A Nossa Casinha”, o Bispo foi recebido com a dignidade dos anos: poemas e cânticos preparados pelos utentes que provaram que a idade não apaga a alegria do acolhimento.
Na Escola Elias Garcia, o tom mudou para a esperança e a educação. Recebido por alunos e professores de EMRC, D. Américo usou uma linguagem direta e pedagógica para falar de paz e respeito. “Nenhuma pessoa de nenhuma religião pode dizer que faz a guerra por causa de Deus, porque não é verdade”, afirmou o Cardeal, sublinhando que a masculinidade ou a força física nunca podem ser desculpa para a violência ou para o maltrato ao próximo.
Recorrendo à história de Portugal, D. Américo comparou o medo do “diferente” ao medo que os antigos navegadores tinham do mar: “Eles encheram-se de coragem e descobriram que não havia monstros, mas sim um belo mundo novo”. O prelado almoçou na cantina com os alunos, partilhando a refeição e a proximidade com o corpo docente.

A tarde reservou um dos momentos mais marcantes do dia: uma visita surpresa à D. Ana. Marcada pela perda recente do marido e, anos antes, de um filho, a paroquiana não conteve as lágrimas de alegria ao receber o Bispo e o Pe. José Carlos Eugénio. Apesar da cruz que carrega, D. Ana afirmou-se “abençoada” pela rede de vizinhos e voluntários que nunca a deixam só — um testemunho vivo da Igreja de proximidade que D. Américo tanto defende.
A jornada prosseguiu com passagens pelo comércio local, pelo Lar de Santa Margarida e pelo Almada International School, permitindo ao Bispo tomar o pulso à realidade socioeconómica e aos novos projetos educativos da freguesia.
O dia culminou num encontro participado com os Conselhos paroquiais, Movimentos e Voluntários. Aqui, o Cardeal não evitou os temas difíceis. Falou de sinodalidade como um exercício de escuta e treino, onde “diminuem os conflitos” quando todos se sentem respeitados.
D. Américo lançou um forte apelo à corresponsabilidade, lembrando que a subsistência da paróquia e do clero depende de todos. Com os números da prática dominical a descer drasticamente nas últimas décadas, o aviso foi sério: “Caso não consigamos inovar, ficamos com a Pastoral da Manutenção, que acaba quando morrer o último. A pastoral precisa de ser mais atrevida”, instou.
No diálogo que se seguiu, a comunidade partilhou as suas dores: a dificuldade em reter os jovens após o Crisma e a necessidade de mais espaços de diálogo. O dia encerrou com um gesto simbólico de proteção: a bênção de uma nova imagem de São José, agora colocada à porta da igreja, como que a vigiar e a acolher todos os que ali chegam.

Texto e fotos: Ricardo Perna



