No arranque daquela que é considerada a “Semana Maior” para os católicos, o Bispo de Setúbal, D. Américo Aguiar, deixou um forte apelo ao testemunho público da fé. Durante a celebração do Domingo de Ramos na Igreja de Santo André, no Barreiro, o prelado alertou para o crescente desconhecimento dos símbolos cristãos e desafiou os fiéis a serem “palavra de alento” numa sociedade que parece ter perdido o sentido da Cruz.
Partindo da primeira leitura do profeta Isaías — «O Senhor deu-me a graça de falar como discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam perdidos» —, o bispo convocou a assembleia a reconhecer a urgência do anúncio cristão numa sociedade crescentemente distante das raízes da fé. «Temos de ter consciência de que precisamos de levar uma palavra de alento aos que andam perdidos, a todos, todos, todos. Temos essa obrigação», afirmou.
D. Américo recordou que a Páscoa, e não o Natal, é a festa central do calendário cristão, lamentando que essa distinção seja hoje desconhecida por muitos. Referiu que, durante as visitas pastorais que tem vindo a realizar nas escolas de Almada, se tem deparado com jovens para quem a cruz peitoral não passa de um adereço de ourivesaria. «Há jovens, famílias, homens e mulheres para quem a Cruz já não significa nada, e por isso temos de relembrar e testemunhar o que significa», sublinhando que este desconhecimento se estende à própria figura de Jesus.
Perante este cenário, que classificou como “realista” e não meramente negativo, o Bispo de Setúbal recordou que a Cruz é “provocação”, e que a missão da Igreja não é para consumo interno. “Podemos ficar todos felizes e contentes porque sabemos o que são estas coisas, mas o todos, todos, todos significa que temos de levar este anúncio de uma Cruz que é salvação a todos os irmãos e irmãs”.

D. Américo Aguiar enfatizou que a evangelização moderna não se faz por imposição, mas pela atração do exemplo. “Não é preciso rachar cabeças e pôr lá dentro a Bíblia, é preciso dar testemunho com a vida”, afirmou. O prelado desafiou os presentes a viverem de tal forma que os outros, ao olharem para as famílias cristãs no trabalho ou no lazer, se questionem sobre a origem da sua felicidade e respeito mútuo.
Num momento de particular humildade, o Cardeal refletiu ainda sobre as escolhas quotidianas entre “Jesus ou Barrabás”. Admitindo que também ele, por vezes, faz escolhas erradas, apelou a que esta Semana Santa sirva para “fortalecer e proteger a cada um, para que a escolha por Barrabás seja cada vez menor”.
O Domingo de Ramos na Diocese ficou também marcado por um momento histórico na cidade de Setúbal: a retoma da Procissão do Senhor dos Passos. Esta tradição, que se encontrava interrompida há mais de 50 anos, foi finalmente recuperada, unindo a Igreja da Anunciada à Igreja de S. Sebastião num percurso de fé que mobilizou centenas de fiéis.
A agenda do Bispo de Setúbal neste início de Semana Santa foi intensa. Além da celebração no Barreiro, D. Américo Aguiar presidiu à Eucaristia no Samouco e em Alcochete, no sábado, e concluiu o dia de domingo na Igreja de S. Julião, em Setúbal, ao final da tarde.



