A Diocese de Setúbal acolheu, de 17 a 20 de setembro, a 6.ª Semana de Formação a Cáritas Portuguesa, com conferências e workshops, partilha de experiências e visitas culturais.
A 6.ª Semana de Formação Cáritas começou esta terça-feira, dia 17 de setembro, com a sessão de abertura, às 14h30, no Salão Nossa Senhora da Paz, em Setúbal. Já na noite de terça-feira decorreu conferência de abertura, no Salão Nobre da Câmara Municipal sadina, apresentada pelo bispo da Diocese de Setúbal. Esta conferência, cujo tema era “Cuidar de todos”, contou com a presença da presidente da Cáritas Portuguesa, do presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, do presidente da Câmara Municipal de Setúbal e de representantes de inúmeras Cáritas nacionais.
Transcrição do discurso de Cardeal D. Américo Aguiar, bispo da Diocese de Setúbal, na conferência de abertura da 6.ª Semana de Formação Cáritas:
Bem, então, a conferência que me pediram, tem o batismo de “Cuidar de Todos”, vamos tentar fazer alguma coisa, de maneira a ir ao encontro disto. Uma vez, eu fui com o Sr. D. Manuel Clemente, ele era bispo do Porto, e ele foi fazer uma conferência à faculdade de Medicina do Porto, sobre a última encíclica do Papa Bento XVI. A última. E o Sr. D. Manuel lá chegou e lá fez a sua pregação.
O professor falecido, o professor Daniel Serrão, que não tinha travão, disse: “Ó Sr. Bispo, nós gostámos muito de o ouvir, mas não era esse o tema. A última era a que saiu há dias”, e o Sr. D. Manuel disse: “É, mas quando me convidaram, a última era outra. Mas não tem problema nenhum. Estão, com disponibilidade?”, e fez uma segunda conferência sobre a temática certa.
Olhem não ides ter essa sorte, não é? Eu vou inventar na mesma, mas não ides ter a sorte de ter assim duas conferências. Bem, primeiro dizer-vos que, e agradecer muito o trabalho que as várias Cáritas fazem, as Cáritas são todas diferentes umas das outras e, por isso, nunca tentem copiar o que faz a outra, senão vai dar asneira. Porque a identidade do território, seja da Diocese, seja das cidades onde estão, é diferente, e, por isso, quando às vezes tentamos fazer copy-paste, sem mais, não resulta. Porque a Cáritas de Vila Real não tem nada a ver com a do Porto, e a do Porto com a de Lisboa, e a de Lisboa com a de Setúbal. Há uma identidade do território e das pessoas que, muito dificilmente, será possível replicar as receitas e ter os mesmos resultados. É óbvio que convém que sejamos profissionais no que fazemos, mas não ter essa tentação nem de ter inveja daquilo que os outros fazem, que os outros têm, que os outros não sei quê, mas cada um tentar corresponder à realidade do seu território.
Eu acompanhei, mais ou menos de perto, três realidades diferentes: aquilo que é a Cáritas do Porto e a realidade da Cáritas no Porto. Depois, em Lisboa, mais ou menos a meia haste. E depois, aqui em Setúbal, um bocadinho. E são realidades totalmente diferentes, nenhuma destas Cáritas tem a ver nada umas com as outras. Zero.
Depois, também me fui habituando a uma coisa que eu gostava que acontecesse, e que, às vezes, acontece, outras vezes, nem por isso. É que o Bispo sempre disse que a Cáritas é o seu braço armado da caridade. A Cáritas é o braço armado da caridade do Bispo. E também não aprecio muito quando a realidade empurra as Cáritas para uma concorrência direta com as outras IPSS.
Quando vou andando por aí, às vezes a malta é “Ai porque a Cáritas também tem um lar. E a Cáritas também tem não sei o quê. E a Cáritas também tem não sei o quê”, e a certa altura, parece que andam ali a disputar “clientela”. Ora, a Cáritas é muito mais do que isto. Se é necessário que um terreno tenha essas funções, que as tenha. Mas, quando não é necessário, também não é preciso procurar que aconteça. Porque o papel e a vocação da Cáritas é muito mais do que isso. Está acima, exatamente, disso.
E, numa diocese, que bom que é quando alguma calamidade ou outra situação extraordinária acontece (não é que bom que é que acontece), que bom que é, quando acontece, poder, imediatamente, acionar aquilo que são as possibilidades, as respostas que a Cáritas Diocesana local tem para responder a essas situações extraordinárias.
Porque depois, no território, nós vamos ver como, às vezes, nos calcamos uns aos outros. Eu lembro, lá no Porto, que, a certa altura, havia uma instituição com dificuldades, e nós pensámos que a melhor hipótese era fundir as instituições, a A com a B com a C. Uma tinha muita capacidade económica e muita saúde, a outra estava a ficar um bocadinho frágil, e a outra estava desgraçada, e a solução era juntá-las. Fundi-las.
“Era o que faltava”. O padre da rica não deixou. “Era o que faltava, e o meu trabalho, o meu lucro, agora a servir para… Era o que faltava”. Bem, a instituição mais fraca acabou. E o que é que foi mais bonito de ver? Bem, o mais bonito de ver foi cada um a tentar roubar os utentes que sobravam da falecida. Um foi lá buscar apoio domiciliário, o outro foi lá buscar crianças, o outro foi buscar idosos… Tudo muito católico. Tudo muito católico.
Isto é uma caricatura de uma situação que foi real. Que não se repete nos territórios das dioceses das Cáritas que estão aqui. Obviamente. Mas pode acontecer noutras geografias.
Ora, nós não podemos deixar de ter presente aquilo que é a nossa identidade, e nós, às vezes, esquecemos aquilo que é o trabalho, o stress do dia-a-dia, os problemas, os papéis da segurança social, os sistemas que é preciso alimentar com dados, as datas, aquelas coisas todas. Às vezes arrefecem-nos no coração. Às vezes somos excelentes técnicos e profissionais. Excelentes. Mas as nossas instituições são mais do que isso.
As nossas instituições não funcionam só das oito às cinco. Aliás, muitas das coisas funcionam a partir das cinco pela noite dentro. E é muito bonito dizer que não se levam problemas para casa. É muito bonito. Mas aqui nenhum de nós consegue fazer isso. Nem o Sr. Presidente da Câmara.
É bom, a gente chegar ao fim do dia, desligar, ir para casa sossegada, e no dia seguinte… Não, há problemas, há dificuldades, há assuntos que nem nos deixam dormir, portanto. E o desafio que nós temos, como instituições da Igreja, é tentar cuidar de todos, e isto é um desafio que nos ultrapassa. E quando tudo corre bem e quando o senhor nos ajuda, a coisa vai, mas há situações em que não vai.
E depois temos a tentação, lá no Norte, havia uma paróquia em que eu fui visitar, lá a paróquia, e fui visitar a Conferência Vicentina. De lá estive lá, com as velhotas, todas contentes e felizes, e disse-lhes: “Então como é que está a correr isto?”. E uma dizia-me assim: “Ó Sr. Bispo, eu há 40 anos que ajudo a mesma família”. E eu: “Olá! Há 40 anos que ajuda a mesma família? Alguma coisa que está a correr mal”. E ela “Não, não, há 40 anos…”. Bem, conversa vai, conversa vem, não sei quê não sei que mais, e eu estava a falar da minha terra, Leça do Balio, exato, e a certa altura, identifiquei a família e, passados uns dias, fui visitar a família. Fiquei curioso e lá fui visitar. Bem, primeiro aspeto, primeira imagem. Entrei e disse-lhes “Olhem lá, vocês não têm vergonha na cara? Estão vocês há 40 anos a receber ajuda da Conferência Vicentina?”. “Ó Padre, nem diga nada. Ela vem cá a trazer. Coitadinha da velhinha, vem cá a trazer, a gente acolhe-a”.
Pronto. Isto é uma caricatura que pode enfiar o barrete quem quiser. Ou seja, estão a ver? A realidade mudou, as circunstâncias mudaram. Mas, enfim, é o meu trabalho, é o nosso trabalho, é a nossa pastoral, é a nossa missão, e, a certa altura, já não vemos bem a realidade que está à nossa frente. E, às vezes, caímos no ridículo daquilo que é um assistencialismo que já não damos por ela. Ou seja, nós distribuímos os alimentos, mesmo que os senhores não queiram, mesmo que não precisem. Distribuímos.
E, às vezes, levamos aqueles cabazes, aquelas coisas todas que aquela família não corresponde, não podem comer doces, não podem comer não sei o quê, mas levam na mesma igual, porque é igual para todos.
Ou então, em Azevedo Campanhã. Azevedo Campanhã, eu fui Pároco lá, estive lá no famoso bairro do Lagarteiro. Também foi divertidíssimo. Lá fui visitar aquilo e a certa altura, disseram assim: “Ó padre, venha visitar a mercearia social”. Mercearia social? Á muito bem, então, lá fui eu, e no bairro, um daqueles habitantes do bairro, lá na garagem, tinha uma mercearia.
Á, muito bem, que interessante. E, depois, conversa para cá, conversa para lá. Qual era o esquema? Ele ia pedir alimentos à Junta. Ela ia à Junta da outra terra. Os filhos iam a outro sítio. Os outros iam à Cáritas. Os outros, eu não sei onde. E todos traziam os alimentos que eram arrecadados e vendiam na mercearia. Parecia um prédio. Isto chama-se empreendedorismo. Social. Empreendedorismo social.
Bem, isto para vos dizer o quê? Que, neste papel e nesta missão de cuidar de todos, nós temos que, enfim, temos de ter os olhos abertos e ser muito, muito realistas do terreno que pisamos. Porque nós, e eu acredito, e tenho vindo a dizer isto, que, em muitas situações, nós estamos a alimentar vício. Nós estamos a alimentar vício. Estamos a alimentar uma máquina. Estamos a alimentar uma máquina, não é?
Nós temos de fazer mais do que isso. Nós temos de ajudar as pessoas a sair do ciclo de pobreza ou do ciclo da dependência e nós, muitas das vezes, inconscientemente, espero que seja inconscientemente, estamos a alimentar o ciclo da pobreza e da dependência. Damos alimentos, damos coisas, damos coisas, damos coisas… E nós depois somos todos iguais. Estão a dar qualquer coisa, não sei onde, lá vamos nós. Até eu. “O que é que estás a fazer na fila?”. “Epá, estão a dar não sei o quê”. “Tu não me precisas nisso”. “Á pois não, então vou-me embora”. Ou então com o marido: “Vai comprar não sei o quê”. O marido lá vai comprar e chega a casa e traz outra coisa. “Para que é que trouxeste isto?”. “Porque estava em promoção”.
O cuidar de todos. O cuidar de todos implica que nós sejamos capazes de ler a realidade de cada um. De termos atenção a cada pessoa. É muito fácil nós amarmos toda a gente. É muito fácil nós gostarmos de todos. É muito difícil adorar um. É muito difícil adorar um. Portanto, quanto mais nós aproximarmos o microscópio, quanto mais nós nos fixarmos naquela pessoa, mais trabalho nos dá. É muito bom ser genérico. Mas quando tem nome, quando tem rosto, quando tem história, aí já começamos a sentir-nos ligados.
Nós tivemos no Porto um projeto que infelizmente acabou, chamado “Porto Feliz”. Na altura, da autoria do Dr. Rui Rio, que tinha as suas pancas, tinha e tem. Cada um tem direito, porque todos têm direito a ter e a manter. Ele tinha uma panca com os arrumadores. Ele tinha uma perseguição com os arrumadores.
Então, com o Dr. que agora não me lembro do nome, um psicólogo ligado ao Conde Ferreira, criaram o projeto “Porto Feliz”, que era retirar, sem o consentimento dos próprios, retirar os pedintes, os arrumadores e os sem-abrigo da rua, colocá-los no Conde Ferreira e tratar cada um mediante aquilo que ele merece. O que é que eles descobriram, ao fim de algumas semanas? Que não era tudo a mesma coisa. Havia X% de doença mental, havia X% de dependências químicas, havia X% de pobreza de juízo e havia X% de não sei o quê.
Ou seja, estavam a tratar, a tentação era tratar de modo igual situações muito diferentes. E nós, às vezes, insistimos nesse erro: A mesma receita para tratar situações totalmente diferentes.
Mas aquilo começou a correr bem. Portanto, as pessoas com doença mental começaram a ser acompanhadas, os das dependências no álcool e nas drogas também, mas depois veio um homem do Instituto da Droga e Toxicodependência dizer que era inconstitucional. O cidadão não podia ser obrigado, não podia ser retirado da via pública, contra a sua vontade, para isto e para aquilo. E acabou. Acabou aquilo e acabou também uma resposta a cada pessoa e a cada problema que eu acho que estava a funcionar. Acredito que no início podia sentir-se que era uma coisa violenta, mas provou-se que era uma resposta diferenciada e alguns daqueles Homens saíram daquele ciclo. Saíram daquele ciclo.
Bem, mas este é um esforço que nós temos de fazer. E ainda bem que hoje muito trabalho se faz, com aquelas fichas que vocês têm de preencher, com aquelas metodologias, aqueles protocolos, aquelas coisas todas. O cruzamento de dados, para ver se a malta também, enfim, para tentar diminuir a criminalidade social. Todas essas coisas são importantes, mas é muito mais importante nós termos a capacidade de conhecer cada pessoa, e podermos responder ao problema de cada pessoa.
Eu gostava de dizer que era interessante que as nossas instituições tivessem a capacidade de ter um PPV para cada um. Não é um PPR. É um PPV, Plano Pessoal de Vida. Que cada pessoa que chega às nossas portas e às nossas instituições, que nós, com a ajuda técnica, que hoje em dia é tão valorosa e tão pluridisciplinar, pudesse desenhar um Plano Pessoal de Vida para aquela pessoa. Com objetivos, senão cá ia nos 40 anos do outro. “Ó meu amigo, sim senhor, o senhor tem esta doença, tem esta limitação, tem estes problemas económicos, tem esta situação familiar. Então vamos desenhar aqui um plano. Vamos tratar a sua saúde, vamos arranjar um emprego, vamos começar a pagar as dívidas, vamos arranjar um perdão de dívidas, vamos ajudá-lo. Mas isto, portanto, tem tempo e tem datas. E tem objetivos”.
Ora, isto dá muito mais trabalho, e às vezes não encaixa naquilo que é a santa burocracia da segurança social e a afins. Não encaixa. Porque o desenho, o puzzle oficial, que é igual para todos, é um número, e a partir desse número é preciso inserir os dados de maneira igual para todos os cidadãos. E isso esbarra nesta possibilidade de darmos a cada um o que ele efetivamente precisa e merece. E tem direito. E só assim é que nós conseguimos, alguma vez, quebrar este ciclo de pobreza e de dependência, senão, vamos continuar sempre a fazer a mesma coisa e sempre a situação a replicar-se.
Tal como dizia o outro, não é? Continuar a fazer o mesmo, aguardando resultados diferentes, é insanidade. E nós andámos muito pela insanidade. Em muitas áreas, inclusive, algumas da responsabilidade minha direta e nossa. Queixamos, queixamos, queixamos, mas a missa é sempre às 11h, porque sempre foi assim e porque é que há de ser de maneira diferente? E há muitos expedientes e muitos protocolos em nossas instituições que também é isso que acontece.
Há dias, numa coisa das misericórdias, dizia-lhes que o segredo das misericórdias é que, em cada século, em cada tempo, foram as instituições a dar a primeira resposta aos nossos problemas. Sempre. Ao longo dos séculos. Mas chegámos a uma altura em que as todas fazem a mesma coisa há séculos.
Ou seja, há uma incapacidade de inovar na resposta aos problemas novos. Porque é isso que se esperava. Porque, por exemplo, qual é o sentido de uma misericórdia se manter com colégios? Hoje, nenhuma. Há colégios públicos, há colégios privados, há colégios, há colégios não sei o quê, há colégios não sei o que mais… Portanto, não é uma resposta que a sociedade precise que a Santa Casa da Misericórdia não sei de onde tenha, não é?
Mas hoje há problemas novos que, se calhar, faz todo o sentido que a Santa Casa da Misericórdia não sei de onde tenha, porque não há quem tenha. Mas não, entrámos todos no replicar o que é que costume fazer e, de preferência, andar a espetar facas nas costas uns dos outros para roubar a clientela respetiva.
Cuidar de todos. Bem, neste cuidar de todos, o nosso querido Papa Bento XVI, enfim, acho que tem de passar mais tempo ainda para sabermos o quão importante foi o seu magistério e os documentos que ele nos ofereceu de reflexão sobre a Igreja e, de modo especial, o papel, a importância e a centralidade da caridade na vida de Deus. E ele próprio nos diz, ou nos chama a atenção para a caridade ser o nosso ADN, a nossa identidade, e nós, a certa altura, não sei há quantos anos foi, não sei se foi em maio de 68 ou abril de 73, mas passámos a ter vergonha da palavra “caridade, e passámos a usar mais à vontadezinha a “solidariedade”. Parece que a solidariedade é mais fashion, é mais revolucionária e a caridade é uma coisa religiosa, não sei porquê.
É um disparate. Isto lembra-me e pede-me que nós rapidamente façamos aqui uma lembrança que todos sabem. Se sabem, ficam a saber outra vez, os que não se lembram recordam e os que não sabem, porventura, apontam. Tem a ver com o facto desta caridade/solidariedade ser uma das 4 colunas daquilo que nós vulgarmente enchemos a boca dizendo Doutrina Social da Igreja.
Eu estou convencido que muitas das coisas que eu, e principalmente a maioria de vocês, fala no contexto da igreja, dos documentos, de não sei o quê, não sei o que mais, normalmente as nossas assembleias não estão a perceber nada que a gente diz. Nada, zero. E quando a gente diz a Doutrina Social da Igreja…
Zero. Não é o caso desta distinta assembleia. Mas, lembrando, como todos sabemos as 4 colunas da Doutrina Social da Igreja são importantes para nós, são importantes para os Estados, são importantes para as autarquias, são importantes para qualquer instituição que queira fazer o bem.
E temos logo em primeiro lugar aquilo que é a defesa, a promoção da dignidade da pessoa humana. Isto é, da nossa identidade. Não podemos abdicar daquilo que significa defender e promover a dignidade da pessoa humana. E aqui encontramos muitas vezes, com muitas instituições que servem a comunidade, que servem o país, que servem a nação e até a nível mundial, todas aquelas com que nos encontramos na partilha deste objetivo, fazemos caminho juntos. Promoção, defesa da dignidade da pessoa humana. Uma das colunas da Doutrina Social da Igreja.
A segunda coluna. Promover o bem comum. Vede lá, se o mundo não estava diferente, se em vez de cada um tratar da sua vidinha e dos seus, tratasse do bem comum. Isto estava muito diferente. Mas não adianta dizer que os políticos são ladrões e não sei quê mais. Não adianta nada disso. Eles não vieram de Marte. Não vieram de Marte. São nossos amigos, são nossos familiares, são nossos conhecidos, são lá da nossa terra. E há uma coisa que se chama eleições que, de vez em quando, somos chamados e vamos lá votar. Portanto, todos defendemos todos. Mas é sempre mais fácil criar um bode expiatório.
O bem comum. E o bem comum, às vezes, é tramado. Porque nós estamos reunidos para tratar de uma instituição, de uma Diocese, de uma Câmara, de uma Cáritas Nacional, de uma Cáritas não sei de onde e temos de decidir um assunto. Se nós decidirmos A, vamos ficar nós a ganhar. Se decidirmos B, fica toda a gente a ganhar.
Sabem que, às vezes, decidimos A. Porque ficamos nós a ganhar. Às vezes, tomamos decisões que nos favorecem. Favorecem-me a mim, favorecem a nossa Cáritas, favorecem a nossa cidade, favorecem a nossa região, e temos plena consciência que a outra decisão favorecia a todos. Mas esta favorece-me a mim e aos meus. Às vezes, colocar o bem comum no centro não é fácil. Mas é um desafio que também temos. Naquilo que são as decisões mais simples, mais complicadas do dia a dia da nossa gestão, nós temos sempre como referência o bem comum. O que é que é melhor para todos? Às vezes, o melhor para todos não é propriamente o melhor para mim, nem para os meus.
Porque quando o critério é esse: o melhor para mim e o melhor para os meus, depois temos aí, e basta comprar alguns jornais de referência para estarem a acompanhar as notícias mais frescas sobre vários assuntos.
Portanto, dignidade da pessoa humana, bem comum. O outro tem de se dizer depressa, porque eu não sei dizer devagar. Tropeço, nem soletrar. Subsidiariedade. O princípio da subsidiariedade. A gente não consegue dizer e muito menos escrever direito. Falo para mim.
Portanto, o princípio da subsidiariedade. Que é tramado. E então, para aqueles que estão aqui… Não, para aqueles da minha terra, que não deixam os corpos intermédios fazer nada, eu quero, eu mando, eu posso e eu é que sei, a subsidiariedade é uma trapalhada. O que é que diz a subsidiariedade? Diz que o nível superior tem a obrigação de respeitar os corpos intermédios, nas decisões e na autonomia e na capacidade. Portanto, quando um diretor tem a mania que sabe tudo e faz tudo, e abre as portas, e fecha as portas, e apaga a luz, e acende a luz, e faz os pagamentos, e arquiva os papéis e faz isso aqui, e mete comida no cão e faz… É o maior erro. Porque está a aniquilar, a anular todas as possibilidades de alguém crescer ou de alguém se realizar, porque ele anula tudo à volta. É muitíssimo competente, mas sozinho. Eu penso que o princípio da subsidiariedade é uma das colunas da doutrina social da Igreja.
E aí, eu por acaso não tenho essa panca, mas aí há uns colegas nossos, aqueles, lá no Norte, lá no Norte, lá para Vila Real, lá no Norte, não é? E é aqueles padres que a gente entra no carro deles ou na carrinha e tem o chaveiro todo ali em cima do tablier, não é? A chave é o sinal do poder. Ninguém na paróquia tem chave de nada. Depois também há o contrário, que também não é saudável, que é a gente vai com o padre a um sítio qualquer: “Olha, vamos visitar a igreja”. “Á eu não tenho chave”. “Isto está aberto ou está fechado?”. “Não sei”. “A que horas é a missa?”. “Ainda não marcaram”. Também há o 8 e o 80 daquilo que é a subsidiariedade
Bem, a quarta coluna é, como já dissemos há um bocadinho, a solidariedade/caridade, a quarta coluna. E nesta quarta coluna, como já disse há um bocadinho, tenho muita pena que nas últimas décadas tenha havido aqui uma concorrência, um disparate, de uma concorrência de palavras que querem significar a mesma coisa, mas que foram sendo afastadas, não é? A solidariedade como uma coisa civil, até nos obrigaram a chamar instituições particulares de solidariedade social, que era para separar da caridade, que era qualquer coisa medonha.
Bem, a caridade é a solidariedade vivida ao limite, como Cristo nos ensinou que foi dar a própria vida. Portanto, é uma solidariedade vivida em total dimensão da entrega da própria vida. Ora, e é aqui, é aqui que nós nos encontramos, neste dia-a-dia de entrega, de dedicação, de conhecimento das pessoas a quem seguimos.
Porquê? Cuidar de todos é como cuidar de ninguém. Cuidar do António, da Maria e do José é que é uma grande chatice. O grande desafio é cuidar de cada um individualmente pela sua história e pelo seu nome. Cuidar de todos é uma coisa assim para o Bispo dizer, ou o presidente da Câmara dizer, ou o ministro não sei o quê dizer, porque o “todos” é ninguém, não é? É medicação genérica, não é? É medicação genérica. O todos, e todos, e todos, mas quem é que a mostra depois do dia-a-dia? São vocês. O todos depois replica-se e materializa-se no rosto, na vida, na história e na experiência de cada uma das pessoas que vai para lá bater à porta.
Meus caros irmãos e irmãs, amigos e amigas, eu quero, acima de tudo, é agradecer. Agradecer o trabalho que fazem, apesar de tudo aquilo que eu tive para aqui a dizer. O trabalho que fazem, de tentativa de corresponder àquilo que é o rosto a chorar de preocupação, de desilusão, de perda de confiança ou de esperança de homens e mulheres que batem à porta.
Porque o problema começa aqui. É quando alguém vai às nossas instituições, das mais diversas valências e pede ajuda. E, a partir daí, é que começa a contar o relógio.
É a capacidade que nós temos ou não de corresponder a esse problema ou a essa dificuldade, e o que eu vos peço é que, dentro dos possíveis, nós não sejamos prisioneiros nem do horário, nem da secretaria. Às vezes parece que algumas das nossas instituições, das cinco da tarde de sexta até às nove da manhã de segunda-feira, não há caridade. Está fechada. É como a guerra do soldado. Está fechada a guerra. “Olha, eu preciso comer”. “Oh, meu amigo, segunda-feira. Olha, vai em paz, mas, segunda-feira, a gente arranja-te aí qualquer coisa”.
Ora temos de evitar as coisas sejam assim. Ou melhor, tenho de agradecer às Cáritas que estão aqui e isso não ser assim. Ou seja, temos kits de emergência, temos soluções de emergência, temos respostas de emergência, temos respostas fora da caixa, fora do horário, fora dos protocolos para poderem responder ao problema das pessoas. Porque, meus queridos amigos, nós não conseguimos cuidar de todos se única e exclusivamente cumprirmos as ordens e as regras da Segurança Social. Porque, se nós nos fecharmos naquilo que são o número de utentes, as valências e o não sei o quê, que a Segurança Social nos manda operacionalizar, não é preciso ser a instituição da Igreja nem a caridade nenhuma. É apenas mais uma delegação da Segurança Social. Só. E já não é pouco.
Mas nós temos de ter a capacidade de cumprir os protocolos que temos, como é obvio, mas sermos capazes de muito para além disso. E por isso é que eu peço, sempre que falo com o responsável da Cáritas, ou sempre que tenho a possibilidade de falar convosco, é aquilo que eu dizia no início de os nossos Bispos aprenderem, eu aprender, as nossas Cáritas aprendermos uns com os outros, de se sentirem verdadeiramente o braço da caridade do Bispo.
Ou seja, que uma Diocese, quando tem ou quando não tem, quando precisa ou quando não precisa, quando aciona ou quando não aciona, que a relação com a sua Cáritas signifique exatamente isso. Que o trabalho diário dos SOS que acontecem, em relação à Cáritas, tem este sentido daquilo que é o braço, a presença da Diocese, e do Bispo, e ir ao encontro daqueles que mais precisam.
Eu desde que cheguei aqui, isso não abona a meu favor, porque quem lá foi à porta ficou zangado comigo. Mas naquelas primeiras semanas iam lá, o Sr. Bispo anterior tinha-me dito: “Olha, costumam vir bater à porta…”. E assim foi, religiosamente, chegou à porta, eu atendi a pessoa: “Olhe, se faz favor”. “Ai, tenho que comprar uns ovos e não sei o quê”. Eu disse: “Sim senhor, vai à Cáritas”. “Não, eles lá não dão”. “Então eu também não”. “Ai, assim é que a Igreja acaba com tudo, não sei o quê”. Pronto. Nunca mais lá apareceu. Depois veio outro da lista, também com a mesma conversa. Depois nunca mais apareceu ninguém. Desaguam, desaguam, desaguam na Cáritas.
Mas, isto para dizer o quê? Que tem esta face, esta face de ser o polícia bom, de ser o polícia mau, mas nós não podemos, lá está, facilmente alimentar os vícios. É lógico que quem tem fome, quem precisa de ajuda, os pobres não podem esperar. Os pobres não podem esperar.
E também sabemos muito dos gritos que não se ouvem porque há pobreza envergonhada. E os casais novos, e famílias até que tinham possibilidades, e de um momento para o outro ficou tudo sem chão, sem rede, sem possibilidades. Tudo isso é verdade.
Agora nós temos de nos organizar com os mínimos de uma rede que permita, com o pouco que temos, permita chegar a todos e cada um, sem caridadezinha, sem institucionalismo, mas criando as possibilidades, criando as condições possíveis para cortar o ciclo. Que é: que o pobre ganhe ferramentas para se autonomizar, lá como a outra conversa, dar o peixe, ou dar a carne ou dar a pescar.
Sabemos isso de cor, mas de vez em quando é mais fácil, “pega lá e anda”, do que propriamente “anda cá, fala comigo, dá-te a conhecer e eu acompanho-te e vamos ultrapassar esta dificuldade e este problema juntos”. Ora, os esquemas sociais oficiais não permitem isto. Não permitem isto.
Portanto, nós temos de encontrar um suplemento daquilo que é o nosso trabalho, que é a nossa função, para, correspondendo aos protocolos oficiais, depois irmos para além do que são esses protocolos, para podermos cuidar de todos. Porque quando alguém nos pede ajuda, pelo menos até à data, nunca ninguém se queixou. Ninguém pergunta se é católico, se é cristão, se é do Partido A, se é do Partido B. Não faz parte das perguntas, nem faz parte dos critérios de triagem. Nunca faz parte. Portanto, nós, quando toca o alarme, quando alguém nos pede, correspondemos. E correspondemos com a tentativa de corresponder a todos, os que certamente nos pedem ajuda.
Termino com a alusão ao todos, todos, todos do Papa Francisco, na Jornada Mundial da Juventude. Também tem a ver com o que estamos para aqui a dizer.
Tem a ver porque nós temos de nos convencer, temos de nos converter a que o anúncio de Cristo vivo é para chegar a todos, todos, todos. Mesmo aos maus, mesmo aos pecadores, mesmo aos carecas, aos cabeludos, aos altos, aos magros, aos gordos, aos baixos. É para todos.
Mesmo que, porventura, alguns irmãos nossos gostam tanto do Nosso Senhor, tanto do Nosso Senhor, tanto do Nosso Senhor, que o querem guardar para eles. Que não acham mais ninguém digno de poder ter acesso a Cristo. O anúncio de Cristo vivo é para todos, todos, todos.
Temos de fazer o esforço de chegar a todos, todos, todos. E não há maneira melhor de dar testemunho de Cristo vivo, que não seja com este rosto da caridade. E, por isso, muito trabalho que os meus amigos fazem, diariamente, nas diversas instituições, nas diversas valências, vale mais do que 30 homilias, 50 eucaristias de festa não sei do quê e pregações não sei de quantos. Vale muito mais do que isso. Sempre que o trabalho que cada um de vocês faz é a rosto de Cristo, caridade, junto de um irmão ou de uma irmã, estamos a concretizar esse desejo, essa vontade do Papa Francisco de chegar a todos, todos, todos.
Depois o que acontece? Depois acontece no coração de cada um. E nós acreditamos que a conversão acontece. Mas isso já é trabalho do Nosso Senhor no coração de cada um. E já não depende do trabalho, nem da dedicação e entrega de cada um de nós.
Por isso, muito obrigado a todos. Depois daquelas conversas iniciais, eles prepararam a arena, e eu entrei e agora estão prontos para ir dormir. Muito obrigado.

Fotografias: Ricardo Perna
Artigo: Lara Alves




