«Quem acolhe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta.»
Caros irmãos e irmãs,
Acabámos de escutar estas palavras de Jesus no Evangelho. O Senhor não diz qual será a vossa recompensa por acolherdes o Cardeal titular desta bela Basílica. Mas estou certo de que alguma recompensa haverá, porque, para mim, é sempre uma oportunidade rezar convosco, partilhar as vossas preocupações e, sobretudo, dar graças ao nosso bom Deus pelos muitos dons com que recompensa as nossas orações.
No Evangelho, o Senhor fala-nos da necessidade de sermos claros quanto às nossas prioridades: não diz que não devemos amar a mãe ou o pai, o filho ou a filha. Diz, antes, que O devemos amar a Ele acima de todos os outros. E amar Jesus significa tomar a própria cruz de cada dia e levá-la como Ele a levou: não como um castigo, mas como um acto de amor a Deus e aos outros.
Quando contemplamos o mundo de hoje, cheio de sofrimento e de dor (penso particularmente no sofrido povo da Venezuela, pelo qual vos convido a rezar de modo especial hoje), cheio de guerras e de conflitos, podemos correr o risco de desanimar e de perder a alegria e a esperança que brotam da nossa fé. Hoje, mais do que nunca, precisamos de “caminhar numa vida nova”, de que nos fala a passagem da Carta de São Paulo aos Romanos, que escutámos na segunda leitura.
A vida nova é aquela que nos foi dada no nosso baptismo, através do qual atravessámos a porta que é Cristo, e com o qual estabelecemos um vínculo mais forte do que aquele que existe com os nossos pais ou com os nossos filhos. Este vínculo estabelecido por Deus connosco é uma força que nos deve impelir, com fidelidade e dedicação, a anunciar o Evangelho até entrarmos na vida eterna.
No meio dos sofrimentos de hoje, o Evangelho é a resposta, Jesus é a resposta e tu e eu somos os anunciadores enviados para recordar a todos esta realidade: Deus recompensa tudo, até o simples gesto de oferecer um copo de água a quem dele precisa. Mas, se este é o modo de agir de Deus, quanto mais agradecerá o Senhor àquele que Lhe oferece a própria vida, o próprio tempo, o próprio sofrimento!
«Quem não toma a sua cruz e não Me segue, não é digno de Mim.»
Podemos reparar como Jesus diz “a sua cruz”. Não uma cruz qualquer, não a cruz do vizinho, mas aquela que cada um de nós conhece no segredo do coração — o cansaço escondido, a doença, a provação da fé, a fidelidade que custa. Seguir Cristo não significa fugir ao peso da vida, mas levá-lo com Ele, ao Seu lado, atrás d’Ele.
Aqui está o grande paradoxo do Evangelho:
«Quem conservar a sua vida para si, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por Minha causa, encontrá-la-á.»
É a lógica invertida do Reino. O mundo diz-nos para reter, acumular e defender-nos. Cristo diz-nos que a vida só se encontra oferecendo-a. Quem fecha os punhos fica com as mãos vazias; quem as abre, recebe.
Antes de concluir, gostaria de desejar a todos, mas de modo particular à comunidade conventual, um período de verão de merecido descanso após aquele que terá sido um ano académico exigente. Certamente tereis a possibilidade de gozar alguns dias de férias, mas não vos esqueçais de que Deus deve ser sempre, em todas as circunstâncias, o centro da nossa vida e do nosso testemunho. O mundo precisa da vossa alegria, da vossa esperança, do vosso testemunho.
Estamos a aproximar-nos da celebração dos 800 (oitocentos) anos do Trânsito de São Francisco de Assis. É verdadeiramente uma graça que o Santo de Assis continue a ser um estímulo para procurar a paz onde há guerra; procurar a esperança onde há sofrimento; procurar a alegria onde há desespero.
Uno-me, querida comunidade, às vossas celebrações e à vossa alegria.
Sobre todos vós invoco a bênção do Senhor.




