Homilia e Pregação na Festa de Nossa Senhora da Soledade

Nov 1, 2026

 

Caríssimos irmãos e irmãs, permiti que faça uma pequenina partilha convosco desta circunstância de aqui nos reunirmos para celebrarmos o dia do Senhor neste Domingo de Todos os Santos e também desta nossa tão especial festa da Senhor da Soledade.

A visita pastoral está a decorrer, e quero dar graças a Deus. Permiti que diga principalmente que aquilo que me tem impressionado que é o número e a diversidade das coletividades. É impressionante como o nosso território tem tantas e tantas e tantas coletividades que fazem tão bem às pessoas que aqui vivem: aos mais velhos, aos mais novos, a aprender no desporto, na cultura, no recreativo, isso tudo, e convém sublinhar com um indispensável apoio da autarquia, da junta, de todas as entidades. Por isso, dar graças a Deus por tudo isso.

Quando funciona tudo nós ficamos todos felizes e contentes, quando as coisas não funcionam bem depois também ficamos descalços e aqui é dar graças a Deus. A Igreja dá-nos um dia, que é o dia 1 de novembro, para celebrarmos Todos os Santos.

Porquê? Porque todos os dias há celebrações de santos, mas há muitíssimos mais que nós nem sabemos o nome. E se nós formos aqui ao cemitério, aqui ao lado, estão lá muitos. Nós nem sabemos. E se calhar nas vossas vidas, nas vossas famílias, nas vossas histórias de vida, conheceram muitos santos. Muitos homens e mulheres que viveram como santos.

Ser santo é viver a vida com toda a plenitude, pensando sempre o que é que Jesus faria, o que é que Jesus diria. E nós, no nosso tempo, nas nossas vidas, de vez em quando sentimos que estamos à beira de alguém que nos inspira essa santidade de vida. A Igreja criou então este dia para celebrarmos todos os santos, ou seja, os que são oficiais e aqueles que são anónimos. Aliás, o Papa Francisco falava nos santos ao pé da porta, naqueles santos da família, nos santos das nossas terras.

E o D. Manuel Martins, o nosso primeiro bispo, contava uma vez, que foi fazer uma festa, não sei se foi em França, se foi no Luxemburgo ou na Suíça, uma festa da Senhora de Fátima à comunidade portuguesa. E os portugueses estavam muito tristes, porque lá o padre não os deixava pôr a Nossa Senhora de Fátima lá na igreja. E eles, quando em maio, queriam rezar o terço, ele deixava pôr, mas depois tirava. E os portugueses estavam muito tristes, porque a Nossa Senhora de Fátima não podia ser colocada. Bem, eles lá deram cabo da cabeça ao padre, e o padre deixou-o por atrás da porta. Portanto, quando se entrava na igreja, estava ali do lado direito, a porta abria, e a pobre da Nossa Senhora ficava atrás da porta. Era a senhora atrás da porta, que eles chamavam. Bem, e o D. Manuel Martins deu a volta à coisa, como ele fazia tão bem. E ele dizia assim “fiquem felizes que o padre nem sabe o bem que vos fez”. E as pessoas ficaram todas admiradas. “Sabem, sempre que eu saía de casa, quando era pequenino, para ir para a escola, para ir para onde fosse, a minha mãe ficava a espreitar atrás da porta. Para ver se eu saía bem. Portanto, pensem nisso. Quando olharem para a igreja, pensem que Nossa Senhora está a espreitar atrás da porta”. Bem, resolveu o problema. O pior foi a seguir, que o padre quis pôr a Nossa Senhora no altar e as pessoas não deixaram (risos), queriam a Nossa Senhora atrás da porta.

Ora, nas nossas vidas nós temos sempre alguém e acreditamos profundamente nisso e esta festa de Todos os Santos ajuda a entender que há tantos homens e tantas mulheres nas nossas vidas que são verdadeiramente santos, que velam por nós. E a Senhora da Soledade coloca-se numa situação que nos ajuda de modo especial. entre a morte do seu filho e a ressurreição, entre o sofrimento e a esperança, entre o problema e a resolução, entre as lágrimas e o sorriso.

Sempre presente, e essa presença é que eu gostaria de sublinhar. Esta força de Maria que está presente sempre. Na alegria, na tristeza, na saúde, na doença, ali como aquele casal há 63 anos, prometeram um ao outro, na alegria, na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida. Ora, a Senhor da Soledade inspira-nos exatamente isso. Em momentos de alegria, em momentos de tristeza, em momentos de dúvida, em momentos de trevas, em momentos de aflição, nós sabemos que ela está sempre presente.

Estou convencido que nesta comunidade, e ainda para mais no contexto das aflições e dos terremotos e dessas coisas todas, Maria é sempre uma âncora. É sempre uma âncora onde nós nos agarramos porque sabemos que, junto de seu Filho, nada nos acontecerá e nos sentimos verdadeiramente vencedores com Maria, junto e a caminho do próprio Jesus. Nós ouvíamos há bocadinho no Evangelho, bem-aventurados os que, bem-aventurados os que, também se pode dizer, felizes os que, porque isto, porque aquilo, bem-aventurados, porque aquilo.

Para os que estão contentes e felizes, Nossa Senhora é a alegria. Os que estão preocupados e tristes e não sei o quê, Nossa Senhora é a âncora e é a força. Bem, e tantas outras circunstâncias da nossa vida pessoal, dos nossos amigos e da nossa comunidade. E permitir que aqui nós lembremos, nós às vezes com os espanhóis não temos uma relação muito simpática, mas lembrar nestes dias todas aquelas pessoas que perderam as suas vidas no trágico acidente de comboio e tudo aquilo que daí resultou, e também do nosso país, dos acidentes, das coisas más, da vida, da saúde e da doença, dos nossos pais, dos nossos familiares, tudo isso. Coloquemos no coração de Nossa Senhora, na sua evocação da solidariedade, porque sabemos que junto dela e com ela, ela vai de um modo especial ao coração de Jesus e permite que nos sintamos também abençoados e fortalecidos nestes caminhos da vida que temos que percorrer.

Quando fazemos uma coisa que é certa, quando fazemos o bem, eu acho que aquele sentimento que temos é que estamos nos caminhos de Deus, estamos na santidade. E há coisas tão simples na nossa vida que nós fazemos, que não tínhamos que fazer, não éramos obrigados a fazer, mas fizemos porque entendemos que sim. E sentimos-nos bem a fazer aquilo, a tomar aquela decisão, a fazer aquela partilha. Ora, quando nós estamos nessa sintonia, nós estamos nos caminhos de Deus. E por isso é que se calhar daqui a 100 anos, quando estiverem aqui a celebrar as festas da Senhor da Soledade, se calhar vão estar a falar de alguns de nós como santos. Olha que era divertido, não era? Era muito divertido. É o melhor que nos pode acontecer, é quando morrermos, alguém dizer, era um santo. Ou então, uma coisa mais leve, era boa pessoa. Acho que é o melhor que podem dizer de nós, após a nossa vida terrena, que nós ajudámo-nos aos outros. Assim seja.

 

Pregação na Procissão da Festa de Nossa Senhora da Soledade

Uma saudação fraterna a todos, todos, todos, como nos ensinou o nosso querido e saudoso Papa Francisco. Meus queridos irmãos e irmãs, minhas senhoras e meus senhores, caros amigos, aqui há uns tempos, em 1755, ali do lado de lá, de Lisboa, as pessoas tiveram uma vivência, para muitas delas, fatal, de um dia que nunca pensaram que pudesse acontecer, da cidade de Lisboa sofrer um terremoto e ser engolida pelas águas.

O que é certo é que tudo aquilo foi destruído, e do lado de cá muitas comunidades mantêm até hoje a gratidão muito especial a Nossa Senhora, porque guardaram nos seus corações que muitos territórios da margem certa, a margem de cá, foram salvos, foram protegidos pela mão, pelo coração de Nossa Senhora. E se aqui nós invocamos Nossa Senhora da Soledade, noutras comunidades, à beira Tejo, outras invocações são rezadas, mas com o mesmo propósito de dizer à Mãe do Céu que naquele dia, naquelas horas, naqueles dias, naquelas semanas, naqueles meses, alguma coisa fortaleceu e defendeu aquelas gentes.

Eu acho que nós não temos capacidade de imaginar o que é que aconteceu. Às vezes vemos a televisão, o terremoto aqui, o terremoto ali, mas é qualquer coisa que se passa na televisão, e mudamos de canal e está resolvido.

Não está resolvido. E se nós imaginarmos olhar para a cidade de Lisboa e a virmos destruída, completamente destruída, com milhares e milhares de mortos, nós podemos imaginar o que possa ser o sentimento de quem escapou, de muita gratidão, de muita oração. E depois de muita força para reconstruir, porque a seguir foi preciso tratar dos mortos e cuidar dos vivos.

E aqui estamos nós, tantos séculos depois, para agradecer com a nossa boca e o nosso coração aquilo que os outros viveram, sofreram e agradeceram. Por isso, estas procissões também são o agradecimento prolongado no tempo dos nossos antepassados. Sejamos nós daqui, ou do Porto, ou de Bragança, ou do Algarve, ou das ilhas, ou até com os nossos militares, alguns até de outros países. Mas estamos aqui, para em nome de todos aqueles que viveram esses sofrimentos e aflições, para agradecer à Mãe do Céu.

E também estamos aqui hoje, e eu quero agradecer a todos aqueles que se empenham na organização das procissões, estas e tantas outras. Não é fácil. Toda a gente quer a procissão, mas em muitos sítios ninguém faz nada para que aconteça.

E há meia dúzia de, costumo dizer a brincar, meia dúzia de tolos, que aceitam o desafio de colocar na rua a nossa devoção, a nossa cultura e as nossas orações. Mas é muito exigente, porque hoje em dia, se antigamente eram todos cristãos, toda a gente entendia tudo. Hoje em dia há muitas pessoas que não entendem, que não compreendem, que não sabem. E por isso mais responsabilidade nós temos para explicar, para mostrar e para fazer bem feito.

Nós somos muito bons a dar pesos às costas dos outros, mas às vezes não somos tão disponíveis para ajudar ou para carregar aquilo que diz respeito a cada um. Por isso a minha gratidão a todos os homens e mulheres das várias coletividades e a nível individual, que se disponibilizam para fazer viver, para podermos ter a procissão na rua neste ano de 2026. Até os meus queridos motards, que eu conheci na visita pastoral, os H2O, até eles me prometeram que o santo nunca havia de ficar na igreja abandonado. E portanto eu agradeço a todos, todos, todos, e principalmente aqueles que não dormem nos últimos dias, que eu também sei. Não dormem para que tudo porra bem, para que tudo seja organizado. Por isso, a minha gratidão e mais do que a minha, a gratidão de Deus a todos e a cada um.

Por último, pedir a Nossa Senhora que acolha aquilo que vai nos vossos corações. Alguns são mais extrovertidos e dizem tudo o que vai na alma. Outros estão caladinhos e sofrem no seu coração. E outros até têm vergonha de pedir à Mãe do Céu. E por isso a procissão também é um coletivo que coloca ali nas mãos de Nossa Senhora tudo aquilo que vai cá dentro de preocupação. Alguns de vocês estão contentes e felizes e com algum dinheiro no bolso, outros estão tristes e doentes e com dificuldades materiais. Outros está tudo a correr bem, outros nem por isso. Uns têm muita gente a viver com eles, outros estão sozinhos. Uns estão preocupados e com cenários cinzentos nos próximos dias das suas vidas. outros nem se apercebem e está tudo bem. Portanto, a realidade da vida de cada um é muito diferente. Agora, gostaria que acreditassem e que soubessem uma coisa: Deus conhece-nos a todos na nossa intimidade. Ele sabe o que se passa com cada um de nós. Mas nós, Ele gosta, Ele aprecia que nós sejamos capazes de um diálogo com Ele. E por isso, neste dia, nesta hora e nesta procissão, nós colocamos nas mãos de Nossa Senhora da Soledade aquilo que vai nos nossos corações e na nossa vida.

Olhem, como o vosso Bispo de Setúbal, coloco a dúvida que tenho todos os dias e cada vez mais ao fazer a visita pastoral: há tanta gente que não conhece Jesus… Tanta, tanta, tanta gente. E nós temos que ser capazes de ir ao encontro deles. E também sabemos que não se apanham moscas com vinagre. temos que ser dóceis, temos que ser carinhosos, temos que ser bons.

Aliás, nós, os sacerdotes, não nos podemos esquecer que somos homens de Deus e que as pessoas vêm ao nosso encontro nessa expectativa de encontrar homens de Deus com os seus problemas, com as suas dificuldades, com os seus gritos, com as suas incompreensões, com os seus sofrimentos.

E quando fazemos estas visitas, concluo sempre que há tanta, tanta, tanta gente a quem nós temos que mostrar o rosto de Cristo. E por isso falemos à Mãe do Céu, para que ela nos ajude a entendermos como é que nós podemos fazer isso. Como é que nós podemos ir ao encontro de tantos, tantos, tantos, que esperam uma palavra, que esperam um gesto, e que esperam, enfim, nas suas vidas, um sinal de que Deus, de facto, verdadeiramente, não abandona, principalmente, aqueles que mais sofrem e mais se sentem sós na caminhada das suas vidas.

Por isso, nesta ligação daquilo que aconteceu em 1755, para aquilo que estamos a viver em 2026, colocámos tudo no coração da Mãe do Céu, pedindo bênção, pedindo proteção, pedindo fortaleza, pedindo cuidado e pedindo também que, junto dos mais pequeninos e dos mais velhos, possa ser cuidado materno.

Nestas visitas que eu faço, o que eu acho que está mais frágil na nossa sociedade são estas duas realidades. Os mais pequeninos e os pequeninos há mais tempo. Ora, estas duas realidades, acho que temos que estar mais atentos, mais disponíveis e mais proativos para que não falte nada nem aos pequeninos e não falte nada àqueles que toda a vida trabalharam e que chegam ao momento da sua vida, seja pela doença, seja por tantas outras circunstâncias, acham que a comunidade e que o país os abandonou. Isso não pode acontecer. Quem deu toda a sua vida pela comunidade, pela família e pelo país, não pode chegar à velhice e sentir-se abandonado e sozinho.

Às vezes lá no Norte, quando as notícias divulgam que não sei quem morreu e esteve abandonado na sua casa há três anos, e depois alguém descobriu que estava morto, como é que é possível? Como é que não haja um amigo, um familiar, alguém que sinta falta daquela pessoa? Ou que sinta a falta daquela pessoa? Mas isto acontece, e acontece cada vez mais. E nós não podemos permitir, nós comunidade cristã, nós sociedade em geral, não podemos permitir que um homem ou uma mulher que deu toda a sua vida, no fim, acabe abandonado e sozinho para terminar a sua experiência de vida terrena. Por isso, colocamos tudo nas mãos da Senhora da Soledade, pedindo que ela interceda junto do seu Filho, junto de Jesus, para que nós nos sintamos fortalecidos e acompanhados nos dias que Deus nos der para continuarmos a dar testemunho de Cristo vivo aos homens e mulheres do nosso tempo. Assim seja.

 

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