Irmãos e irmãs, permiti que faça uma pequenina reflexão convosco e que em primeiro lugar lembremos que esta celebração do Cristo Rei está a fazer exatamente agora 100 anos. Foi o Papa Pio XI que em 1925 instituiu a festa do Cristo Rei. Cá estamos nós, então, também era Ano Santo, na altura, em 1925, e agora também estamos nós a celebrar, quase a terminar, este jubileu do Ano Santo e também o jubileu dos 50 anos da nossa Diocese.
Isto para vos dizer que esta celebração termina o ciclo, o ano litúrgico que estamos a viver. Digamos que é como se fosse o 31 de Dezembro, ou seja, Réveillon, vamos mudar de ano, vamos terminar o ano litúrgico e vamos começar uma nova caminhada. E terminamos não para finalizar, mas para retomar.
Fizemos um caminho que nos leva a proclamar ao mundo inteiro que Cristo é o nosso Rei. E é com essa realeza no nosso coração que nós iniciamos o novo ano litúrgico, com o Advento que está aí à porta e que nos levará à celebração da encarnação do Filho de Deus, ao Natal deste Ano da Graça de 2025, se Deus nos der essa graça de lá chegarmos vivos para celebrarmos. Senão, encontramo-nos no Céu, algures, para celebrarmos também esse mesmo Natal.
E não podemos esquecer que o Papa Francisco mudou o Dia da Juventude, que se celebrava sempre no Domingo de Ramos, o Papa Francisco mudou para a celebração do Cristo Rei. E aqui estamos, então. Aqui estamos a celebrar o Dia da Juventude, e por isso eu agradeço ao Vasco e à sua equipa e a todos os jovens que não tiveram medo nem do frio, nem da chuva, nem da Cláudia ou da sucessora da Cláudia, que anda para aí a fazer estragos lá com os ventos, não tiveram medo de nada e saíram do conforto, do quentinho da cama, porventura, e puseram-se a caminho para corresponder às mais diversas atividades que foram proporcionadas. E eu agradeço mais uma vez ao nosso irmão, sacerdote de Alepo, na Síria, que teve a oportunidade de testemunhar com os nossos jovens aquilo que, infelizmente, é uma realidade tão dolorosa de tantos irmãos e irmãs, que em tantos diversos países, e na Síria de um modo particular, em que celebrar a sua fé pode significar perder a sua própria vida.
E nesta celebração do Cristo do Rei, ides permitir que coloquemos um foco de um modo especial no Evangelho que o diácono acabou de proclamar, vamos tentar todos fazer uma viagem, irmos para o local. Ou seja, vamos tentar fazer um esforço por estar no local do Calvário, onde está Cristo crucificado, onde estão outras pessoas crucificadas, e o texto diz-nos que está uma multidão, que estão os soldados, que estão os chefes dos judeus, que está Maria, a mãe de Jesus, e o apóstolo, o jovem apóstolo, e estão outros protagonistas.
Estamos nós, então, a fazer esse exercício, para ver com quem nos identificamos. Com quem nos identificamos, neste momento, e, eventualmente, parto eu da minha experiência pessoal, às vezes identificámos com protagonistas diferentes, em momentos também diferentes da nossa vida.
Primeiro, a multidão. A multidão que, sempre que ia ao encontro de Jesus, ou sempre que Jesus a encontrava, queria falar-Lhe. Aliás, queria tocar-Lhe. Lembramos a passagem daquela mulher que queria tocar nem que fosse na orla do manto de Jesus.
Ou, então, outros que, no caminho, gritavam a Jesus para que os ouvisse, gritavam aos apóstolos para que eles permitissem que Jesus os ouvisse, mas, desta vez, ninguém grita nada. Estão em silêncio, a testemunhar. Aquilo que o nosso Papa Francisco, às vezes, criticava nos jovens: estavam na varanda, estavam no camarote, no sofá, a assistir, sem nenhuma interação.
Depois temos estes chefes dos judeus e estes soldados que vão provocando o Jesus crucificado. Digamos que quase que temos aqui as renovadas tentações a que Jesus foi sujeito. E, a certa altura, temos aqui um soldado, de seu nome, Longuinho, o São Longuinho, como dizem os nossos irmãos do Brasil, que eu descobri há pouco tempo alguma curiosidade sobre ele.
Porque, de facto, quando a gente vê, mesmo assim, as narrações do Calvário, ou até filmes ligados à vida de Jesus, há sempre aquele momento em que há um soldado que fura o lado de Jesus e jorra, do lado aberto de Jesus, sangue e água. E essa figura, o São Longuinho, como dizem, essa figura, digamos que, abre para a humanidade essa fonte de onde jorra a misericórdia divina sobre todos e cada um de nós. E jorra exatamente do lado aberto de Jesus, jorra do coração de Jesus.
E é esta figura que também nós temos, às vezes, com quem nos identificamos. Primeiro pelo gesto de violência para com Jesus. E, às vezes, cada um de nós, nas suas vidas, temos gestos, temos palavras, temos silêncios que ferem o próprio Jesus.
E, outras vezes, somos capazes de, ao modo de Maria, do discípulo amado e das outras pessoas que estavam ali com Nossa Senhora, somos capazes de amar, de confortar, de sermos carinhosos, de sermos capazes de dar testemunho daquilo que é a tristeza da morte de Jesus, mas a alegria de darmos testemunho do ressuscitado.
E, por último, estes dois patifes. Patifes, malfeitores, ladrões. Temos aqui dois homens, que nós costumamos dizer o bom ladrão e o mau ladrão. Ora, mau ladrão parece-me que é pleonasmo, não é? O mau ladrão.
Mas há um que saiu bem, que era o bom ladrão. Portanto, também é possível ser bom ladrão. Portanto, já estão a ver que já estamos a ganhar alguma coisa.
Mas, também, cada um de nós, na nossa vida, pontualmente se identifica com um ou com outro, porventura. E eu não estou a falar de roubar coisas. Estou a falar de tantos gestos, de tantas circunstâncias da nossa vida, em que nós, por exemplo, não respeitamos os outros.
Ou que temos, até às vezes, vergonha de dar testemunho da nossa fé, coisa que os nossos irmãos de Alepo e de tantas cidades do mundo, não lhes passa pela cabeça ter vergonha de dar testemunho de Cristo vivo nas suas vidas. Mas é este dito “bom ladrão” que faz uma coisa extraordinária. Que é sensível àquela figura que está ali do seu lado.
É sensível e diz ao outro, ao dito “mau ladrão”, diz “olha lá, tu não tens juízo nenhum. Então, nós estamos aqui, fomos condenados porque fizemos asneiras e temos que pagar aquilo que a justiça impõe. Portanto, estamos a ser condenados, enfim, de acordo com aquilo que foi a nossa vida. Mas este homem é inocente. Está a ser condenado inocente, tu não tens consciência disto?”
E o mau ladrão continua a desenrolar o seu papel de mau ladrão e não quer saber desta chamada de atenção, deste S.O.S., desta ajuda de última hora que o seu colega de trabalho, enfim, lhe está a proporcionar.
Então, ele diz a Jesus, interpela Jesus, o bom ladrão, e diz-lhe “Jesus, lembra-te de mim quando vieres com a tua realeza”. E Jesus responde-lhe ”Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso”. Ora, se alguma vez alguém vos perguntar quem é que foi a primeira pessoa que foi para o céu, já estais a ver quem foi.
A primeira pessoa que foi para o céu foi o bom ladrão. Portanto, Jesus diz-lhe, “daqui a bocadinho estarás comigo no paraíso”. Não foi preciso processo de canonização, não foi preciso papéis nem burocracias, absolutamente nada.
O que é que foi preciso? Acima de tudo foi abrir o coração à presença do Salvador, ali mesmo, do lado dele. E depois esta transparência de vida, de ter consciência do seu pecado, da sua fragilidade, mas isso não impedir de lançar a escada, de lançar a ponte, de lançar a possibilidade de ser salvo. E Jesus responde-lhe exatamente dessa maneira: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso”.
Nós não podemos deixar de ter presente que Deus não faz memória dos nossos pecados. Deus não tem um livrinho com uma listinha onde vai apontando os nossos pecados, as nossas falhas. Deus tem aquela fonte que jorra permanentemente misericórdia e perdão sobre todos e cada um de nós.
Mas o que eu vos peço, meus caros jovens, e jovens há mais tempo, que é para estarmos todos, o que eu peço é que nós não percamos esta consciência da nossa fragilidade e do nosso pecado. Este bom ladrão, este homem que mesmo na iminência de morrer tem a abertura, tem a grandeza de apesar do seu pecado não ter problemas em pedir a salvação, em pedir, a estender aquilo que era a sua mão, o seu braço, o seu coração, a sua vida, para que Jesus, o Salvador que estava ali ao seu lado, o pudesse verdadeiramente salvar.
E este caminho que fizemos e que fazemos é muito para isto. É para termos consciência da nossa fragilidade, todos. Às vezes os jovens, em fases diversas da sua vida, têm mais dificuldade em entender o que é que Deus lhes pede, às vezes há vidas mais complicadas, há outros que têm a vida mais facilitada, mas quando nós descobrimos qual é o nosso papel, quando nós descobrimos o que é que Deus quer de nós, nós vivemos depois tudo com outra força e com outra coragem e encaramos a vida e as dificuldades de outro modo.
Nós vimos aqui ontem à noite um filme, um documentário sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, de uma religiosa, Maria Margarida Alacoque, que depois vão ver ao Dr. Google e vão estudar isso tudo, mas para verdes, que essa religiosa teve a graça de sentir a presença de Jesus e do Sagrado Coração de Jesus na sua vida e sentir até ao limite físico de o sentir no seu coração. Ou seja, o fervor, o calor, a ação do Coração de Jesus na sua própria vida. E o que nos é pedido é que nós sejamos capazes disso mesmo, sejamos capazes de permitir que Cristo vivo habite nos nossos corações.
Ao ponto de olharmos para os irmãos e para as irmãs e os acolhermos verdadeiramente como irmãos. Porque, é assim, há muitos problemas na nossa vida, há muitas dificuldades na nossa comunidade, na nossa sociedade, no nosso país. Porquê? Porque nós não nos vemos uns aos outros como irmãos.
E vemo-mos uns aos outros, às vezes, como concorrentes, como ameaças. E, ultimamente, infelizmente, parece que estamos a bombar por esse lado. Sempre a colocar o outro como uma ameaça, sempre a colocar o outro que é de outra cor, que é de outra cultura, que é de outra nacionalidade, que é de outra origem, que é de outra não sei o quê. O outro sempre como um obstáculo, o outro sempre como um problema. Ora, isso vai resultar em andarmos a pancada uns com os outros. É o resultado final quando nós não nos vemos como irmãos, mas começamos a descobrir-nos como concorrentes e como ameaça uns dos outros.
E por isso é que é urgente, emergente, importante, inadiável, nós permitirmos que o Coração de Jesus habite nos nossos corações. Que este Cristo Rei seja proclamado por todos e cada um de nós. Que este ano que termina e este ano que vai começar, nós tenhamos presentes que reina verdadeiramente no dia-a-dia das nossas vidas.
Naquilo que é a minha vida como namorado, como noivo, como amigo, como colega, como marido, como esposa, como pai, como mãe, como filho. As noras e as sogras é mais complicado, a melhor não dar como exemplo, mas enfim. E como patrão, como empregado, como isto e como aquilo.
Ou seja, nós temos diariamente tantas provocações que só o Coração de Jesus nos pode ajudar a vivermos tudo na plenitude, que é o pedido que o Senhor nos faz a todos e a cada um de nós. Por isso, meus caros jovens e todos aqueles que se empenharam neste dia, nesta semana, neste ano pastoral, que não entendamos que hoje acabou, mas pelo contrário, entendamos que hoje vai começar. E vai começar um tempo novo que nos levará a proclamar ao mundo o nascimento, a encarnação do Filho de Deus.
E porquê? Porque nós permitimos que Ele habite nos nossos corações. E termino pedindo por todos aqueles que neste ano que agora termina regressaram à casa do Pai. Certamente nós temos amigos, temos conhecidos, temos figuras mais ou menos conhecidas do mundo inteiro que regressaram à casa do Pai.
E de um modo especial, o nosso muito querido Papa Francisco que regressou à casa de Deus. Pedimos-lhe a ele e pedimos a todos e a todas os que regressaram à casa de Deus que intercedam junto de Deus por cada um de nós, pelas nossas comunidades, pelas nossas famílias, pelos nossos projetos, para que nós sejamos capazes, mesmo sendo bons ladrões, nós sejamos capazes de estar sensíveis à presença de Cristo Rei nas nossas vidas e sejamos capazes de sentir da parte de Jesus esta resposta que ele recebeu no Calvário: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
Que nós possamos ouvir da parte de Jesus estas mesmas palavras. Assim seja.




