Homilia – Vigília REJOICE | Parque D. António Francisco dos Santos | Lamego

Jul 26, 2026

 

Queridos jovens, queridos irmãos e irmãs,

Que alegria estarmos juntos nesta noite!

Antes de mais, permitam-me uma palavra de gratidão. Esta vigília acontece, pela primeira vez, neste espaço que passa a chamar-se Parque D. António Francisco dos Santos.

Quero agradecer à Câmara Municipal de Lamego e ao seu Senhor Presidente esta iniciativa tão simples e, ao mesmo tempo, tão cheia de significado. É uma homenagem bonita e justa a um filho desta Diocese de Lamego, que foi Bispo de Aveiro e, depois, do Porto, e que deixou em tantos corações a marca da sua bondade, da sua proximidade e da sua forma profundamente evangélica de ser pastor.

Dar um nome a um parque nunca é apenas colocar uma placa. É dizer às novas gerações que há vidas que merecem ser recordadas, não pelos cargos que ocuparam, mas pela forma como amaram, serviram e fizeram o bem. Que este Parque fale sempre de D. António Francisco dos Santos e inspire muitos jovens a acreditar que vale a pena viver uma vida entregue a Deus e aos irmãos.

Permitam-me também uma nota muito pessoal. O lema episcopal de D. António era In Manus Tuas – «Nas Tuas mãos». É também o meu lema episcopal. Não foi coincidência… foi minha escolha e homenagem…sei que estas palavras resumem um programa de vida: colocar tudo nas mãos de Deus. Confiar-Lhe as alegrias e as preocupações, os sucessos e os fracassos, os sonhos e os medos. Foi assim que D. António viveu. Foi assim que procurou servir a Igreja. E acredito que, se hoje pudesse dirigir-vos uma única palavra, seria esta: não tenham medo de colocar a vossa vida nas mãos de Deus. Nunca ninguém perdeu por confiar n’Ele.

Talvez sem o saber, D. António deixou-nos, com o seu lema e com a sua vida, a melhor introdução às leituras desta noite: uma vida só encontra a sua verdadeira grandeza quando é colocada nas mãos de Deus.

É precisamente isso que São Paulo nos pede, quando escreve aos cristãos de Roma: «Não vos conformeis com este mundo.»

Que força têm estas palavras! Vivemos num tempo em que parece haver sempre alguém a dizer-nos quem devemos ser, como devemos vestir, o que devemos pensar, quantos seguidores devemos ter ou quantos “gostos” precisamos para sentirmos que valemos alguma coisa. E São Paulo responde-nos: não deixem que seja o mundo a definir a vossa identidade. Deixem que seja Cristo.

Porque o mundo muda de opinião todos os dias. Hoje aplaude, amanhã esquece. Hoje coloca alguém num pedestal, amanhã derruba-o. Jesus nunca muda o Seu olhar sobre cada um de nós. Para Ele, ninguém é um número, ninguém é um perfil, ninguém é um erro. Cada um é um filho amado de Deus.

Por isso, São Paulo convida-nos a fazer da nossa vida uma oferta. Não uma oferta de coisas, mas da própria vida. Cada gesto de amor, cada perdão concedido, cada serviço prestado, cada mão estendida, cada palavra de esperança é um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. A verdadeira oração não termina quando dizemos “Ámen”; continua na forma como vivemos e como tratamos os outros.

E acrescenta ainda uma verdade extraordinária: somos diferentes porque Deus quis precisar de todos. Todos, todos, todos como os ensinou o saudoso Papa Francisco. Ninguém possui todos os dons, mas ninguém está vazio de dons. Há quem saiba cantar, há quem saiba ensinar, há quem saiba organizar, há quem saiba escutar, há quem tenha o dom de consolar, há quem tenha simplesmente o dom de fazer sentir o outro em casa. A Igreja não é um lugar onde alguns fazem tudo e os outros assistem. A Igreja é um corpo vivo onde cada pessoa tem um lugar único e insubstituível. Também tu. Mesmo que aches que tens pouco para oferecer. Mesmo que ainda não tenhas descoberto o teu caminho. Deus continua a acreditar em ti e conta contigo.

Depois escutámos uma das orações mais belas de Jesus. É impressionante pensar que, poucas horas antes da Sua paixão, Jesus não reza por Si. Reza por nós. E faz apenas um grande pedido ao Pai: «Que todos sejam um.»

Não pede sucesso. Não pede poder. Não pede riqueza. Pede unidade. Porque sabe que um mundo dividido dificilmente acreditará no Evangelho.

Vivemos tempos em que é tão fácil criar divisões. Divide-se por ideias, por opiniões, por gerações, por sensibilidades, até dentro das famílias e, por vezes, até dentro da própria Igreja. Jesus pede-nos exatamente o contrário: que sejamos construtores de pontes. Que saibamos escutar antes de julgar, dialogar antes de condenar, perdoar antes de desistir. O mundo não precisa de mais pessoas a levantar muros; precisa de homens e mulheres capazes de abrir caminhos de encontro.

Queridos jovens, o REJOICE não pode terminar quando acabarem os cânticos, quando se apagarem as luzes ou quando cada um regressar a casa. Também não pode ficar reduzido às fotografias e aos vídeos desta noite. O verdadeiro milagre acontecerá se regressarmos diferentes: mais próximos de Deus, mais próximos uns dos outros, mais disponíveis para servir e mais felizes porque descobrimos que vale a pena confiar em Cristo.

E esta noite é também um passo num caminho maior. O Papa Leão XIV continua a desafiar os jovens de todo o mundo a prepararem-se para a próxima Jornada Mundial da Juventude, em Seul, em 2027. Mas esse caminho não começa quando entrarmos no avião. Começa hoje. Começa aqui. Começa em Lamego.

Seul começa quando um jovem decide colocar a sua vida nas mãos de Deus. Seul começa quando deixamos de viver apenas para nós e começamos a viver para os outros. Seul começa quando construímos unidade onde há divisão, esperança onde há desânimo, paz onde há conflito.

A Igreja precisa de vós. Não amanhã. Hoje. Precisa da vossa coragem, da vossa criatividade, da vossa alegria e da vossa capacidade de sonhar. Não esperem ser perfeitos para responder ao Senhor. Nenhum santo começou perfeito. Todos começaram por dizer um “sim”, muitas vezes cheio de medo, mas cheio de confiança.

Talvez a melhor homenagem que esta noite possamos prestar a D. António Francisco dos Santos, neste Parque que agora guarda o seu nome, seja precisamente esta: viver também nós com a vida inteiramente entregue nas mãos de Deus.

In Manus Tuas.

E permitam-me terminar com um desafio muito simples.

Jovens, não tenham medo de colocar a vida nas mãos de Deus. O mundo muda quando um jovem acredita em Cristo. A Igreja renasce quando um jovem diz: “Senhor, podes contar comigo!”

Que Nossa Senhora dos Remédios, Mãe tão querida desta Diocese e do coração dos lamecenses, nos acompanhe, nos proteja e nos ensine a confiar sempre no Pai.

E que, quando esta vigília terminar, possamos partir daqui com uma única certeza gravada no coração: vale a pena colocar a vida nas mãos de Deus, porque só Cristo é capaz de fazer novas todas as coisas.

Ámen.
+ Cardeal Américo Aguiar
Presidente da CELFV

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