«Com todas as minhas forças, procuro mostrar e provar a estes pobres irmãos perdidos que a nossa religião é toda caridade, toda fraternidade, que o seu emblema é um coração» (&179)
– Esta carta-encíclica do Papa Francisco dirige-se ao coração de todos os que procuram, trabalham, e esperam o dom excelso da Paz; ou seja, é para nós, cujo coração permanece inquieto, enquanto – ou quando não repousa no Coração de Cristo. É um convite para descansarmos um pouco o nosso coração, no recolhimento do Coração de Jesus;
– Este texto é um auxílio oportuno, humano e espiritual, para o tempo deste mundo, e para o espaço das nossas vidas, desestabilizadas pela agitação e pela opressão: “(…) é necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência”; (&2).
– E é também um convite, para os povos e as nações destroçadas e abatidas pelo drama da guerra – alguns destes cenários distantes das nossas fronteiras geográficas, e das nossas casas, mas não dos nossos corações –, para não desanimarem nem desesperarem, confiando no Coração d’Aquele que traz em Si mesmo o apelo e o dom da Paz;
1. Visitar o [nosso] Coração
Adverte-nos o Papa para a “importância de considerar o ser humano não como uma soma de diferentes capacidades, mas como um complexo anímico-corpóreo com um centro unificador que dá a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orientação.”(&4). A chave hermenêutica para descodificar o sentido último da nossa existência, e do mundo que nos rodeia, é o coração: precisamos de nos reencontrar a partir do coração.
Porque “Frequentemente, esta verdade íntima de cada pessoa está escondida debaixo de muita superficialidade, o que torna difícil o autoconhecimento e ainda mais difícil conhecer o outro: «Nada mais enganador que o coração, tantas vezes perverso: quem o pode conhecer?» (Jr 17, 9)”. (&6).
i) Deixar-se interrogar
Para entrar no dinamismo do coração é necessário um esforço pessoal, acessível, mas exigente: mergulhar no universo do conhecimento de si e dos outros. Assim nos diz o Papa: “Em vez de procurar uma satisfação superficial e de representar um papel diante dos outros, é melhor deixar que surjam perguntas decisivas: quem realmente sou? O que procuro? Que sentido quero dar à vida, às minhas escolhas e ações? Por que razão e para que fim estou neste mundo? Como vou querer avaliar a minha existência quando ela terminar? Que sentido quero dar a tudo o que vivo? Quem quero ser perante os outros? Quem sou diante de Deus? Estas perguntas conduzem-me ao meu coração.” (&8).
ii) Mundanismo
A incapacidade de escuta do coração conduz a uma deformação [ideológica] do processo de conhecimento, e assim, o “(…) homem contemporâneo encontra-se com frequência transtornado, dividido, quase privado de um princípio interior que crie unidade e harmonia no seu ser e no seu agir. Modelos de comportamento infelizmente bastante difundidos, exaltam a sua dimensão racional-tecnológica, ou, ao contrário, a instintiva. Falta o coração”. (&9).
Entrar no coração significa sempre regressar a nós mesmos, à nossa identidade humana e espiritual mais profunda; no fundo, ao registo da autenticidade humana: “(…) poder-se-ia dizer que eu sou o meu coração, porque é ele que me distingue, que me molda na minha identidade espiritual e que me põe em comunhão com as outras pessoas”. (&14).
2. O coração [humano] de Cristo
Perante as inúmeras dificuldades de aceder ao recinto do nosso próprio coração, o Papa afirma e sublinha que “o Coração de Cristo é êxtase, é saída, é dom, é encontro. N’Ele tornamo-nos capazes de nos relacionarmos uns com os outros de forma saudável e feliz, e de construir neste mundo o Reino de amor e de justiça. O nosso coração unido ao de Cristo é capaz deste milagre social”. (&28).
“Por isso, ninguém deve pensar que esta devoção possa separar ou distanciar-nos de Jesus Cristo e do seu amor. De modo espontâneo e direto, ela dirige-nos a Ele e só a Ele, que nos chama a uma amizade valiosa, feita de diálogo, afeto, confiança e adoração”. (&51).
i) Espiritualismo
Também no coração do tecido eclesial há a tentação de pensar e viver a fé num modo não conforme ao Evangelho, que em todas as coisas e com todos estabelecia relações propriamente humanas, não a pretexto de outros fins, nem como disfarce para apresentar o Reino de Deus, mas como o único e exclusivo modo de seguir Jesus, abraçando a realidade, tal e qual como se apresenta e nos confronta. “Dito tudo isto, não devemos esquecer que esta imagem do coração nos fala de carne humana, da terra, e por isso nos fala também de Deus que quis entrar na nossa condição histórica, fazer-se história e partilhar o nosso caminho terreno. Uma forma de devoção mais abstrata ou estilizada não será necessariamente mais fiel ao Evangelho, porque neste sinal sensível e acessível se manifesta o modo como Deus quis revelar-se e tornar-se próximo de nós”. (&58).
“Poder-se-ia afirmar que hoje, mais do que o jansenismo, enfrentamos um forte avanço da secularização que visa um mundo livre de Deus. Acrescenta-se a isso, a multiplicação na sociedade de várias formas de religiosidade sem referência a uma relação pessoal com um Deus de amor, que são novas manifestações de uma ‘espiritualidade sem carne’. Isto é real. No entanto, devo advertir que, no seio da própria Igreja, o nefasto dualismo jansenista renasceu com novos rostos. Ganhou força renovada nas últimas décadas, mas é uma manifestação daquele gnosticismo que já nos primeiros séculos da fé cristã causava dano à espiritualidade e ignorava a verdade da “salvação da carne”. Por isso, dirijo o meu olhar para o Coração de Cristo e convido a renovar esta devoção. Espero que possa ser atrativa também à sensibilidade atual e que nos ajude assim a enfrentar estes velhos e novos dualismos, aos quais oferece uma resposta adequada”. (&87).
“Gostaria de acrescentar que o Coração de Cristo nos liberta, ao mesmo tempo, de um outro dualismo: o de comunidades e pastores concentrados apenas em atividades exteriores, em reformas estruturais desprovidas de Evangelho, em organizações obsessivas, em projetos mundanos, em reflexões secularizadas, em várias propostas apresentadas como requisitos que, por vezes, se pretendem impor a todos. O resultado é, muitas vezes, um cristianismo que esqueceu a ternura da fé, a alegria do serviço, o fervor da missão pessoa-a-pessoa, a cativante beleza de Cristo, a gratidão emocionante pela amizade que Ele oferece e pelo sentido último que dá à vida. Em suma, outra forma de transcendentalismo enganador, igualmente desencarnado” .(&88).
ii) A fé do povo, simples, encarnada
A propósito da tentação gnóstica e dualista de separar o humano do divino na pessoa de Cristo – e assim, também na proposta cristã para os seus discípulos -, o Papa confirma a devoção ao Coração de Cristo, exactamente como expressão fiel do mistério da encarnação, cuja fé do povo é expressão e garantia segura: “Peço, portanto, que ninguém ridicularize as expressões de fervor devoto do santo povo fiel de Deus, que na sua piedade popular procura consolar Cristo. E convido cada um a perguntar se não há mais racionalidade, mais verdade e mais sabedoria em certas manifestações desse amor que procura consolar o Senhor do que nos atos de amor frios, distantes, calculados e mínimos de que somos capazes aqueles que julgamos possuir uma fé mais reflexiva, cultivada e madura.” (&160).
3 O perdão (ou a reparação do mal)
Finalmente, depois de falar da Consolação, explicando o sentido da Reparação do [no] Coração de Cristo, exorta-nos no concreto das nossas relações, a receber e oferecer o perdão, quando somos ofendidos, e quando ofendemos alguém: “Faz parte deste espírito de reparação o bom hábito de pedir perdão aos irmãos, que revela uma enorme nobreza no meio da nossa fragilidade”. (&189).
Possam estes excertos servir de aperitivo e estímulo à leitura integral do documento, rico da mais nobre tradição eclesial sobre a devoção ao Coração de Cristo, com renovadas sugestões para melhor compreendermos e repousarmos nesta fonte inesgotável de vida espiritual.
P. Carlos Filipe (Almada, 1.Novembro.2024)


