Jornada de Pastoral da Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira de São João de Deus
“O SORRISO DE DEUS – O HUMOR NOS CUIDADOS DE SAÚDE E NA ATENÇÃO PASTORAL”
“O sorriso de Deus também se revela no riso partilhado entre quem cuida e quem é cuidado.”
1. Agradecimentos
2. A história de São João de Deus
É sempre bom ter a oportunidade de conhecer ou lembrar a vida de um santo. E quero começar precisamente por recordar alguns dados sobre a vida de São João de Deus: nasceu em 1495, em Montemor-o-Novo e sabemos os nomes do seu pai e da sua mãe, André e Teresa.
Sabemos que um sacerdote o levou para Espanha aos oito anos de idade e desde então, a sua vida foi marcada pelo trabalho de pastor e de militar, com partidas e regressos a Espanha. Mas o acontecimento que marcou o seu destino, a sua conversão aconteceu em Granada, quando após escutar os sermões do padre São João de Ávila, confessou publicamente todos os erros da sua vida passada e percorreu a cidade ferindo-se com pedras, e manchando o rosto com lama. Foi então dado como louco e internado num hospício, onde permaneceu por algum tempo.
Mais sereno, e com a ajuda de São João de Ávila, João saiu do hospício e foi visitar o Mosteiro de Guadalupe. Voltando de seguida para Granada onde fundou em 1539 um hospital para doenças contagiosas e incuráveis. Daí em diante dedicou-se ao serviço neste hospital. O Papa Leão XIV refere-o na sua primeira e recente Exortação Apostólica DILEXI TE, no número 50: “No século XVI, São João de Deus, ao fundar a Ordem Hospitalar que leva o seu nome, criou hospitais modelo que acolhiam a todos, independentemente da sua condição social ou económica. A sua famosa expressão – “Fazei o bem, irmãos!” – tornou-se lema da caridade ativa com os doentes”.
Estava iniciado um caminho de total dedicação aos doentes, concretizado na fundação da Ordem dos Irmãos Hospitaleiros, espalhada por todo o mundo e que nos traz hoje aqui.
Pergunto-me muitas vezes, o que seria do mundo, sem homens e mulheres como São João de Deus, que se deixaram e deixam tocar pelo sofrimento, pela pobreza, pela fragilidade de homens e mulheres em tudo iguais a nós…?
Também me interrogo sobre os momentos de alegria e de paz que terão sentido, ao longo das suas vidas, tantas vezes testadas pelas dores e incompreensões… mas acredito profundamente que São João de Deus deve ter sorrido muitas vezes para os seus doentes…

3. Ao ler o convite que me foi dirigido, lembrei-me de imediato da oração que o Papa Francisco nos disse rezar todos os dias, uma oração escrita por São Thomas More:
Senhor,
dai-me uma boa digestão, mas também algo para digerir.
Dai-me a saúde do corpo, mas também o bom humor, necessário para mantê-la.
Dai-me, Senhor, uma alma simples, que saiba aproveitar tudo o que é bom e que não se assuste quando o mal chegar, e sim que encontre a maneira de colocar as coisas no lugar.
Dai-me uma alma que não conheça o tédio nem os resmungos, suspiros e lamentos, e não permitais que eu me atormente demais com essa coisa incômoda demais chamada “eu”.
Dai-me, Senhor, senso de humor!
Amém.
Assim como de um livro de orações, já publicado há algum tempo, cujo título nunca esqueci – «Um Deus que dança, itinerários para a oração». Orações escritas por um poeta, o Cardeal Tolentino de Mendonça que escreve sobre um Deus que dança e que nos remetem para uma proximidade com o nosso Pai do Céu, muito bela e expressiva.
4. Não sendo poeta, desejo falar-vos sobre um Deus que provoca sorrisos e gargalhadas. Um Deus que sorri como uma mãe sorri para o seu filho recém-nascido, um Deus que sorri, como o nosso melhor amigo quando escuta pela enésima vez a mesma história, um Deus que sorri como um pai, ao ver o filho a jogar à bola… Existem sorrisos que nos anunciam a beleza da eternidade, a doçura da maternidade, a certeza de que estamos destinados a muito mais do que este mundo em que vivemos e que estragamos repetidamente com os mesmos erros, as mesmas guerras, os mesmos resmungos, suspiros e lamentos de que nos fala a oração que vos li.
5. Não sou poeta, mas tive um sonho de infância – ser palhaço. E sei a razão deste querer… sempre gostei de ver sorrisos e pessoas felizes à minha volta. Para um rapazinho de uma terra do Norte, os palhaços eram essas pessoas fantásticas que nos arrancavam gargalhadas só de os ver. A vida não me levou para um qualquer circo, mas conduziu-me até ao Seminário e trouxe-me até vós. Com o mesmo sonho de fazer as pessoas felizes à minha volta. Também por esta razão, gosto tanto do título destas Jornadas e do desafio de encontrar o sorriso de Deus no riso partilhado entre quem cuida e quem é cuidado.
6. Gosto de pensar que cuidar é privilégio e ser cuidado é um abandono nas mãos dos outros, e assim, nas mãos de Deus.
Bem sei que os dias e hoje, só nos falam de falhas, de carências, de problemas inultrapassáveis, de erros do passado e do presente; muita coisa pode ser verdade, mas diariamente há milhares de mãos que cuidam de milhares de vidas entregues aos seus cuidados.
Não podemos falar do mundo da saúde sem esta insistência em afirmar o bem, o bom e o belo que acontece todos os dias. Trabalhei no mundo da comunicação social e sei a importância dos dramas, o impacto dos acidentes, a procura das culpas, nas audiências…, mas temos de aproveitar todas as oportunidades para afirmar que existe outro lado. E nesse outro lado, estão os profissionais de saúde, os voluntários dos hospitais, os cuidadores. Peço-vos este cuidado, o de chamar sempre a atenção para o bem que acontece, para os sorrisos e risos que continuam a dar alento e esperança aos doentes.

7. São João de Deus, abriu novas estradas e rasgou corações, permitindo que doentes abandonados e ostracizados pudessem ser vistos como pessoas de corpo inteiro; Santa Teresa de Calcutá, procurou os moribundos e trouxe-os para sua casa, para que morressem com a dignidade que todos merecem; e assim aconteceu e acontece com tantos homens e mulheres que conseguiram e conseguem que o amor se torne palpável, coerente, ativo, consequente.
8. Nesta transformação de vida e de vidas, quero destacar três pontos:
– A importância de estarmos atentos aos gestos discretos;
– A importância das coisas pequenas;
– A importância dos afetos que se traduzem em sorrisos;
9. Atenção, humildade, sorrisos… enquanto capelão de um hospital (Hospital da Prelada – Santa Casa da Misericórdia do Porto e Hospital Conde de Ferreira) e agora, capelão nacional dos bombeiros, tenho passado algumas horas sentado, junto a doentes.
Sei pessoalmente o que é perceber um pequeno gesto que pede água ou revela uma dor; sei o valor de um simples Pai Nosso rezado com um bombeiro queimado ou de simples um terço que é recebido como um tesouro; as coisas pequenas, os gestos discretos que acontecem nos corredores dos hospitais, nos quartos dos doentes, em tantas enfermarias…
Sei pessoalmente como somos consolados com um sorriso de uma criança doente, de uma mãe que mantem a esperança ou um marido que não desiste de animar a sua mulher.
10. Penso muitas vezes em como seria o sorriso de Jesus, as suas gargalhadas… Calculo que ao entrar em casa dos seus amigos, os cumprimentaria com um sorriso; que as refeições pudessem ter momentos de riso; que ao deixar as crianças se aproximarem, tb estaria feliz e sorridente
Se Ele, o nosso Mestre, Jesus que nos reúne, nos chama, nos envolve, nos desafia a mais e melhor, foi assim, certamente que espera algo semelhante da nossa parte.
Sejamos cuidados ou cuidadores, médicos ou auxiliares, velhos ou novos, a todos nos é pedida uma capacidade de amar os outros; é uma capacidade que se conquista diariamente, que é particularmente exigente para quem tem saúde e trata de quem a perdeu.
11. Na verdade, nós somos o sorriso de Deus. Nos corredores dos hospitais, junto à cama dos doentes, ao consolar pais, maridos e mulheres, nós somos o sorriso de Deus. E também é verdade que os doentes, os mais frágeis, os debilitados no corpo e na alma, também são o sorriso de Deus, também nos podem encher o coração de alegria e de esperança.

12. Não quero parecer demasiado poético – não sou poeta – nem inocente e sonhador. Não há nada mais palpável do que a dor física e o sofrimento. Mas a minha Fé, a minha certeza de que Jesus está Vivo no meio de nós, pede-me que vos diga que é possível, urgente e decisiva a certeza de que “o sorriso de Deus também se revela no riso partilhado entre quem cuida e quem é cuidado.”
13. Venham os doutores palhaços, os visitadores, os hospitais humanizados pelas pessoas e pelas paredes. Venham os médicos, as enfermeiras, o pessoal auxiliar, os condutores das ambulâncias, os paramédicos, venham todos. Há uma multidão de gente que vos espera todos os dias, que precisa de cada um de vós para viver mais um dia, para sorrir na hora das visitas, para ter a esperança de sair de pé, daquele quarto, enfermaria ou hospital. Venham os risos, os sorrisos e as gargalhadas. Venha o silêncio, a espera. Venham todos e tudo, mas de uma forma nova, plena, capaz de dar fruto.
14. Por último, talvez porque é esperado que o diga, talvez porque seja necessário e certamente porque estou convicto da sua importância, sejamos capazes de manter e de lutar pelo lugar dos capelães hospitalares e pelo acompanhamento dos doentes nas suas diferentes religiões. Cuidar de uma vida é também cuidar da sua alma. São João de Deus deu toda a sua vida por esta certeza.
Fátima, Steyler Hotel, 24 de outubro 2025
+ Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal




