O Papa Leão XIV, eleito esta quinta-feira, dia 08 de maio, proferiu hoje a sua primeira homilia, na Missa que assinalou o final do Conclave, apelando ao anúncio da fé numa sociedade marcada pelo “ateísmo prático” e a “perda do sentido da vida” para muitas pessoas.
A Missa, em latim, com momentos em inglês, italiano e inglês, teve duas mulheres a proclamar as leituras antes do Evangelho. No final da celebração, Leão XIV passou entre os cardeias e foi aplaudido pelos participantes, até à saída da Capela Sistina.
O calendário divulgado pela Prefeitura da Casa Pontifícia anuncia uma audiência com os cardeais, este sábado, e no domingo o novo pontífice volta a encontrar-se com os peregrinos, na Praça de São Pedro, para recitar o ‘Regina Coeli’ (oração que substitui o ângelus no tempo litúrgico da Páscoa) desde a varanda central da Basílica do Vaticano, ao meio-dia de Roma (11h00 em Lisboa).
Na segunda-feira, 12 de maio, Leão XIV vai conceder uma audiência aos jornalistas, pelas 10h00 locais, no Auditório Paulo VI.
Transcrição da Homilia:
“Começarei com umas palavras em inglês, e o resto é em italiano.
Mas quero repetir as palavras do Salmo Responsorial: “Cantarei um cântico novo ao Senhor, porque Ele fez maravilhas”.
E, de facto, não só comigo, mas com todos nós. Meus irmãos Cardeais, ao celebrarmos esta manhã, convido-vos a reconhecer as maravilhas que o Senhor fez, as bênçãos que o Senhor continua a derramar sobre todos nós através do Ministério de Pedro. Chamastes-me para carregar esta Cruz e para ser abençoado com esta missão, e sei que posso contar com cada um de vós para caminhar comigo, à medida que continuamos como Igreja, como comunidade de amigos de Jesus, como crentes para anunciar a Boa Nova, para anunciar o Evangelho.
Por isso, em italiano:
“Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Com estas palavras, Pedro, interrogado pelo Mestre, juntamente com os outros discípulos, sobre a sua fé n’Ele, exprime em síntese a herança que há dois mil anos a Igreja, através da sucessão apostólica, guarda, aprofunda e transmite.
Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo, ou seja, o único Salvador e o revelador do rosto do Pai. Nele, Deus, para se tornar próximo e acessível aos Homens, revelou-se a nós nos olhos confiantes de uma criança, na mente viva de um jovem, nos traços maduros de um homem (cf. CONC. VAT. II, Past. Const. Gaudium et spes, 22), até aparecer aos seus, depois da ressurreição, com o seu corpo glorioso. Mostrou-nos assim um modelo de humanidade Santa que todos nós podemos imitar, juntamente com a promessa de um destino eterno que ultrapassa todos os nossos limites e capacidades.
Pedro, na sua resposta, capta estas duas coisas: o dom de Deus e o caminho a percorrer para ser transformado por Ele, dimensões inseparáveis da salvação, confiadas à Igreja para que a proclame para o bem do género humano. Confiados a nós, escolhidos por Ele antes de sermos formados no ventre materno (cf. Jr 1,5), regenerados na água do Batismo e, para além dos nossos limites e sem o nosso mérito, conduzidos até aqui e enviados para que o Evangelho seja anunciado a toda a criatura (cf. Mc 16, 15).
De modo particular, portanto, Deus, chamando-me através do vosso voto a suceder ao Primeiro dos Apóstolos, confia-me este tesouro para que, com a sua ajuda, eu seja o Seu fiel depositário (cf. 1 Cor 4, 2) em benefício de todo o Corpo Místico da Igreja; para que ela seja cada vez mais uma cidade colocada sobre o monte (cf. Ap 21, 10), uma arca de salvação que navega através das ondas da história, um farol que ilumina as noites do mundo. E isto não tanto pela magnificência das suas estruturas ou pela grandeza dos seus edifícios – como os monumentos em que nos encontramos – mas pela santidade dos seus membros, desse “povo que Deus adquiriu para anunciar as obras admiráveis Daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2,9).
No entanto, a montante do diálogo em que Pedro faz a sua profissão de fé, há também uma outra pergunta, pergunta Jesus, “quem dizem os Homens que é o Filho do Homem?” (Mt 16,13). Não se trata de uma pergunta trivial, mas sim de um aspeto importante do nosso ministério: a realidade em que vivemos, com os seus limites e potencialidades, as suas interrogações e convicções.
“Quem dizem os Homens que é o Filho do Homem?” (Mt 16,13). Pensando na cena sobre a qual estamos a refletir, poderíamos encontrar duas respostas possíveis que esboçam outras tantas atitudes.
Em primeiro lugar, há a reação do mundo. Mateus sublinha que a conversa entre Jesus e os seus sobre a sua identidade tem lugar na bela cidade de Cesareia de Filipe, cheia de palácios luxuosos, inserida numa paisagem natural encantadora, no sopé do Hermon, mas também sede de círculos de poder cruéis e cenário de traições e infidelidades. Esta imagem fala-nos de um mundo que considera Jesus como uma pessoa totalmente sem importância, uma personagem no mínimo curiosa, que pode causar admiração com a sua maneira invulgar de falar e de atuar. E assim, quando a Sua presença se torna incómoda pelas exigências de honestidade e de moral que invoca, esse “mundo” não hesitará em rejeitá-lo e eliminá-lo.
Depois, há a outra resposta possível à pergunta de Jesus: a das pessoas comuns. Para eles, o Nazareno não é um “charlatão”: é um homem justo, corajoso, que fala bem e diz coisas justas, como outros grandes profetas da história de Israel. É por isso que O seguem, pelo menos enquanto o podem fazer sem grandes riscos e inconvenientes. Mas consideram-no apenas um homem e, por isso, no momento do perigo, durante a Paixão, também eles O abandonam e partem, desiludidos.
O que chama a atenção nestas duas atitudes é a sua atualidade. Elas encarnam ideias que poderíamos facilmente encontrar – talvez expressas numa linguagem diferente, mas idênticas em substância – nos lábios de muitos homens e mulheres do nosso tempo. Ainda hoje, não são poucos os contextos em que a fé cristã é considerada uma coisa absurda, para pessoas fracas e pouco inteligentes; contextos em que lhe são preferidas outras seguranças, como a tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder, o prazer.
São ambientes onde não é fácil testemunhar e anunciar o Evangelho, e onde aqueles que acreditam são ridicularizados, contrariados, desprezados, ou, na melhor das hipóteses, suportados e apiedados. E, no entanto, precisamente por isso, são lugares onde a missão é urgentemente necessária, porque a falta de fé traz consigo, muitas vezes, dramas como a perda do sentido da vida, o esquecimento da misericórdia, a violação da dignidade da pessoa nas suas formas mais dramáticas, a crise da família e tantas outras feridas de que a nossa sociedade sofre e não é pouco.
Ainda hoje não faltam contextos em que Jesus, embora apreciado como homem, é reduzido a uma espécie de “líder carismático” ou de “super-homem”, e isto não só entre os não crentes, mas também entre muitos baptizados, que acabam por viver, a este nível, num ateísmo prático.
Este é o mundo que nos foi confiado, no qual, como tantas vezes nos ensinou o Papa Francisco, somos chamados a testemunhar a fé alegre em Cristo Salvador. Por isso, também para nós, é essencial repetir: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). É essencial fazê-lo, antes de mais, na nossa relação pessoal com Ele, no empenho de um caminho quotidiano de conversão.
Mas depois também, como Igreja, vivendo juntos a nossa pertença ao Senhor e levando a todos a sua Boa Nova (cf. CONC. VAT. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, 1).
Digo-o antes de mais por mim, como Sucessor de Pedro, ao iniciar esta minha missão de Bispo da Igreja que está em Roma, chamado a presidir na caridade à Igreja universal, segundo a famosa expressão de Santo Inácio de Antioquia (cf. Carta aos Romanos, Proémio). Ele, conduzido, acorrentado a esta cidade, lugar do seu iminente sacrifício, escreveu aos cristãos: “Então serei verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo não vir o meu corpo” (Carta aos Romanos, IV, 1). Referia-se ao facto de ser devorado pelas feras do circo – e assim aconteceu -, mas as suas palavras recordam, num sentido mais geral, um compromisso inalienável para quem, na Igreja, exerce um ministério de autoridade: desaparece para que Cristo permaneça, faz-te pequeno para que Ele seja conhecido e glorificado (cf. Jo 3,30), gastando-se ao máximo para que não falte a ninguém a oportunidade de O conhecer e de O amar.
Que Deus me dê esta graça, hoje e sempre, com a ajuda da terna intercessão de Maria, Mãe da Igreja.”
Fotografia: Vatican Media



