Regaço Materno: Onde cada criança encontra colo, segurança e memórias felizes

Dez 16, 2025

 

O livro infantil “Um Presente para o Menino Jesus”, escrito por Graça Alves e ilustrado por Carla Pinto, do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja, nasceu com o desejo de unir fé, criatividade e solidariedade. Parte das vendas desta obra reverte para uma causa concreta: 1 euro por cada livro vendido apoia o projeto Regaço Materno, do Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro, na Cova da Piedade, instituição escolhida para beneficiar desta iniciativa solidária.

É neste contexto que damos a conhecer o Regaço Materno, um Centro de Acolhimento Temporário para crianças dos 0 aos 12 anos, que é muito mais do que uma resposta social. É casa, é família, é porto de abrigo para quem chega fragilizado e precisa de reencontrar um lugar seguro no mundo.

Criado em 1998, no âmbito de um projeto de luta contra a pobreza, o Regaço Materno nasceu da visão do padre Ricardo Gameiro e da então diretora Ana Luísa, hoje vice-presidente da instituição. Perceberam que a comunidade carecia de um espaço onde crianças em perigo pudessem ser acolhidas com dignidade e amor. Desde então, esta casa tem sido a resposta para dezenas de meninos e meninas encaminhados pela CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens) ou pelos tribunais, sempre com um objetivo: proteger, cuidar e preparar o futuro.

“Criar momentos felizes.” É assim que a equipa descreve o seu lema. Mais do que suprir necessidades básicas como a alimentação, higiene, saúde e a educação, a missão é garantir que cada criança encontra aqui colo, tempo, atenção e afeto.

 

 

“Eles chegam muito fragilizados. Precisam de se reencontrar e de encontrar também aqui o amor”, partilha a assistente social Dra. Patrícia Salgueiro. As primeiras horas são, muitas vezes, desafiantes: dar banho, oferecer comida, vestir roupa adequada, acompanhar durante toda a noite se necessário. Tudo para que o desconhecido se torne, pouco a pouco, familiar.

Num ambiente que procura ser o mais parecido possível com uma casa, as rotinas são simples e quotidianas: escola, CATL (Centro de Atividades de Tempos Livres), trabalhos de casa, brincadeiras, jantares em família e noites tranquilas. Mas o maior desafio é comunitário: treze crianças a viver como irmãos, cada uma com a sua história, personalidade e marcas do passado. Construir unidade é um trabalho diário, paciente e profundamente humano.

O acolhimento deveria ser uma etapa breve de, no máximo, seis meses. Mas a realidade nem sempre permite que assim seja. Há crianças que ficam anos: quatro, cinco ou mais. Não por falta de trabalho da equipa, mas porque o sistema judicial e social avança, por vezes, a um ritmo lento.

“Nós queremos acelerar o processo, porque isto é um local de passagem”, explica Dra. Vanda Pinheiro, diretora da área da infância. “Mas há bloqueios, há timings, há prioridades diferentes… e as crianças ficam aqui, à espera que a vida avance.”

 

 

Ainda assim, a equipa não desiste. A técnica Patrícia Salgueiro torna-se ponte entre entidades, defendendo o melhor interesse de cada criança e tentando sempre garantir que o “projeto de vida”, seja ele o regresso à família de origem, uma família de acolhimento ou a adoção, chegue a bom porto.

O Regaço Materno vive da dedicação de uma equipa técnica comprometida e também do apoio precioso de voluntários e estagiários.

A Marta Portugal, voluntária há 12 anos, descreve assim o seu motivo para continuar:
“O que lhes posso dar é o meu tempo e o meu afeto. Estes meninos são nossos. Cuidamos, amamos, educamos.”

Já a Raquel Faria, estagiária, resume numa frase o impacto deste lugar:
“Nós não mudamos o mundo, mas para eles nós somos o mundo.”

São estas presenças discretas, constantes e generosas que transformam esta casa num verdadeiro regaço materno.

 

 

O cuidado não é apenas funcional: é profundamente pessoal. Cada criança tem o seu aniversário celebrado de forma especial; cada uma recebe, sempre que possível, presentes personalizados e roupa só sua. Existem também várias entidades que ajudam a proporcionar atividades diferentes fora da rotina diária, uma delas foi, este ano, a Fundação Benfica, que possibilitou momentos únicos às crianças. Há idas ao McDonald’s, visitas a museus, passeios e a esperança contínua de que um dia seja possível garantir a todas uma atividade extracurricular.

A casa também procura manter-se acolhedora e renovada: pintura nova, móveis adequados, espaços pensados ao detalhe para garantir conforto e ambiente familiar.

Por isso, iniciativas solidárias como o livro infantil “Um Presente para o Menino Jesus”, cujos lucros revertem parcialmente para o Regaço Materno, são muito bem-vindas. Pequenos gestos permitem adquirir eletrodomésticos, produtos de higiene, fraldas, cremes específicos, ou até concretizar desejos simples das crianças.

São contributos que se transformam em bem-estar, em memórias felizes, em dignidade.

 

 

No silêncio desta casa, nas rotinas simples que se constroem todos os dias, nas mãos que acolhem, educam e amam, vai-se desenhando um caminho de esperança. Aqui, cada criança reencontra o direito a crescer em segurança. Aqui, aprende-se que o amor transforma. Aqui, descobre-se que uma passagem pode tornar-se uma semente de futuro.

 

Artigo e fotografias: Lara Franquelim Alves

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