Numa entrevista recente ao semanário Nascer do Sol, o nosso Bispo, Cardeal D. Américo Aguiar, deixou uma reflexão clara e exigente sobre o serviço público, a participação cívica e os desafios éticos do tempo presente. Partindo da provocadora afirmação de que “é preciso ser-se louco ou mártir para se ser candidato a um cargo público”, o Bispo de Setúbal convida a sociedade e em particular os cristãos a um discernimento sério sobre a forma como se vive a política e o compromisso com o bem comum
Ao longo da entrevista, D. Américo Aguiar sublinha que a política, quando vivida com autenticidade, não é um espaço de privilégio ou de poder pessoal, mas um lugar de serviço, frequentemente marcado pela incompreensão, pela crítica fácil e pelo desgaste humano. Ainda assim, recorda que não podemos desistir da política, sob pena de deixar o futuro nas mãos de interesses que pouco têm a ver com a dignidade da pessoa humana e a justiça social
O Bispo alerta também para o empobrecimento do debate público, marcado por discursos simplistas, populismos e desinformação, que fragilizam a democracia e afastam as pessoas, sobretudo os mais jovens, da participação cívica. Neste contexto, a Igreja é chamada a ser espaço de formação de consciências, ajudando a distinguir entre propostas que promovem verdadeiramente o bem comum e aquelas que instrumentalizam valores ou símbolos religiosos
Para D. Américo Aguiar, os cristãos leigos têm um papel insubstituível na vida pública. Não para impor uma visão confessional, mas para testemunhar, com coerência e humildade, valores como a solidariedade, a justiça, o cuidado pelos mais frágeis e a responsabilidade intergeracional. Uma presença que exige preparação, espírito crítico e uma fé que se traduz em opções concretas
A entrevista termina como um apelo à esperança ativa: apesar das dificuldades, continua a valer a pena acreditar na política como forma elevada de caridade, quando vivida como verdadeiro serviço. Um desafio particularmente atual para a Diocese de Setúbal, marcada por realidades sociais exigentes e por uma forte tradição de compromisso cívico e solidário.



