Na tarde desta Sexta-feira Santa, o Cardeal D. Américo Aguiar presidiu à solene Celebração da Paixão do Senhor na Sé Catedral de Setúbal. Durante a homilia, o prelado convidou os fiéis a uma profunda reflexão sobre o significado da Cruz e do sofrimento de Cristo como “uma autêntica explosão de Amor”.
O Bispo de Setúbal recordou o contraste entre a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos e o caminho para o Calvário. “Se olharmos com atenção, hoje também se corre por entre as ruas, também há uma pressa no ar. Mas não existem ramos, nem cânticos, nem a alegria das crianças. Jesus vai passar, mas vergado pelo peso de uma cruz, coroado de espinhos, o rosto marcado pela dor”, afirmou.
D. Américo Aguiar questionou os presentes sobre o significado do sofrimento: “No fundo do coração de cada um de nós, é legítimo encontrar-se a dúvida, mesmo que escondida: para quê tanto sofrimento? O que justifica a adoração da Cruz? Se é o Filho de Deus, porquê?”
A Cruz de Jesus é, disse D. Américo Aguiar, “um espinho na vida da Humanidade”. “Mas como todos os espinhos, que podem criar feridas más e purulentas, também se podem tirar e conseguimos ver a maravilha da pele sarada, a marca que o tempo esbate… precisamos de refletir sobre os espinhos que temos e que colocamos uns aos outros. E aqueles que conseguimos retirar, da nossa pele e do corpo dos outros. Precisamos de refletir sobre a dimensão do mal e a redenção do Bem”, pediu.
Na sua reflexão, o Cardeal sublinhou que, paradoxalmente, o Calvário “torna-se uma explosão de Amor e de Esperança” através das últimas palavras de Jesus na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem”; “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”; “Mulher, eis o teu filho”, “João, eis a tua Mãe”.
“Precisamos de não ter vergonha de falar sobre este Amor que salvou o mundo. Um homem bom morreu, um homem em tudo igual a nós exceto no pecado. Um homem, filho de Maria, tão amado por Sua Mãe e o Filho Amado do próprio Deus”, destacou o Bispo de Setúbal.
Um dos momentos da homilia foi a referência ao gesto de Jesus ao entregar Maria como Mãe da humanidade. “Quando o Papa Francisco nos disse que, em Fátima, todos temos Mãe, acredito que seja esta consciência plena de que Jesus entregou a Sua tão Amada Mãe a cada um de nós”, referiu D. Américo Aguiar.
O prelado enumerou vários títulos marianos, sublinhando: “Maria, a Mãe de Deus Vivo, Rainha do Céu, da Família, da Paz, Fonte da Alegria, Porta do Céu, Estrela da Manhã, refúgio dos pecadores, saúde dos enfermos, auxílio dos cristãos, Rainha dos Apóstolos, dos profetas e dos Mártires, Maria é a nossa Mãe.”
D. Américo Aguiar não deixou de abordar a realidade contemporânea, marcada por conflitos e injustiças. “Vivemos um tempo de dor. Um tempo de guerras testemunhadas diariamente, na Terra de Jesus, na massacrada Ucrânia e em mais de outros 50 países. Uma guerra mundial ‘aos bocadinhos’, como afirma o Papa Francisco”, lamentou.
O Cardeal alertou também para “um tempo de ganância, uma espécie de guerra económica mundial, de descalabro de valores e referências, de destruição da nossa Casa Comum”. Citando a Presidente da Comissão Europeia, referiu que “o Ocidente como o conhecíamos até ao presente acabou”, afirmação que, segundo ele, “deve-nos fazer refletir e orar”.
A concluir a sua homilia, D. Américo Aguiar deixou uma mensagem de esperança, lembrando que “no Calvário onde hoje fomos e somos convidados a revisitar, foi-nos dada a maior prova de Amor. O Pai permitiu o sofrimento e a morte do Seu Filho, para salvar cada um de nós e assim salvar a Humanidade”.
“Que nunca o esqueçamos, nem nos cansemos de dizer: Deus espera por nós, por cada um de nós, por todos. Todos, todos, todos. Espera pelo nosso testemunho de cristãos, espera pela conversão do coração de uma humanidade que fere e é ferida”, exortou o Bispo de Setúbal, terminando com um apelo: “Deus espera pela Peregrinação da Esperança, farol de transformação do mundo em que vivemos”.
A Celebração da Paixão do Senhor, um dos momentos mais solenes da Semana Santa, prosseguiu com a adoração da Cruz e a comunhão, num ambiente de profundo recolhimento e oração.




