Hoje já não tão jovem, mas desde muito jovem que me habituei a viajar.
Já corri muito mundo, mas poucas vezes optei por resorts, programas pré feitos, excursões e outros que tais. Desde cedo me habituei a correr para mundos menos explorados, experiências de proximidade aos ambientes locais e, sobretudo, tantas vezes, à contemplação da obra da Criação e das grandes obras da civilização. Já pisei nas 7 Maravilhas do Mundo Moderno, já explorei florestas, desertos, praias, montanhas, ilhas, calor e gelo.
Sei de onde me veio este espírito e o que me ensinou a sonhar com grandes projetos, mas também sei que (nunca desconsiderando os que me acompanhavam) me questionava: “E se cá estivessem?”
E é aqui que entronca o cerne do tema de hoje. Do muito que um jovem católico pode fazer nas férias, conciliando um descanso ativo com a contemplação da criação, há um plus com que só o “bicho” escuteiro sonha quando tem uns dias de descanso: Acampar e estar com os seus!
Aquela coisa que nos desinstala das nossas preguiças e da vidinha cómoda, que começa na maioria das vezes com resistência no sofá, mas acaba com vontade de ficar para sempre.
Aquela coisa que nos permite viver intensamente dias e noites com aqueles estranhos que nos foram emprestados como irmãos, porque filhos do mesmo Pai.
Aquela coisa que, no calor da fogueira ou no frio da madrugada, nos traz a evidência de Deus, tão bem espelhada nas palavras de Péguy, quando diz que “para não (O) ver em verdade seria necessário que a pobre humanidade fosse cega.”
É neste desinstalar que a coisa acontece.
E é nesta azáfama que entendemos que muitas vezes são os adultos que, cansados, cansam quem está à sua volta, que travam os sonhos dos que ainda têm o arrojo de viver intensamente, que mega protegem as “suas” criaturas, que se assustam com o desconhecido e passam o medo às crianças e jovens que têm ao seu cuidado…
É noite de 2 de agosto, o dia de me fazer entrar no Campo.
O dia de ontem, que podia ter sido especial por várias ordens de razões e, desde logo, porque celebramos um ano do início da JMJ de Lisboa, porque nos traz à recordação tantas outros momentos em atividades que foram ficando para trás e, com eles, tantos rostos de saudade, também por ser conhecido mundialmente como “o dia do lenço Escutista” e, neste enquadramento, deveria ter sido um dia para comemorar e recordar tantas coisas boas, foi um dia difícil. Tudo a acontecer ao mesmo tempo, alguns empecilhos e contrariedades, o tempo a encurtar, a própria mochila por preparar e… o desânimo de procurar soluções quase impossíveis, planos B, C e D, para que tudo esteja impecável na entrada dos que nos foram confiados… na verdade, já nos fomos habituando, mas… a responsabilidade é grande porque fomos nós que ousámos desafiá-los a sonhar.
E é aqui, no silêncio da noite, mais rezada do que dormida, que se volta a entender que só nos resta confiar e na hora tudo estará no seu lugar.
Na certeza de que, no limite, a centelha vital de todas as criaturas nos é dada pelo próprio Criador, que nunca, mas nunca, desiste de nós, colocando-nos uma e outra e outra vez no Caminho, seja no Sesimbra Natura Park ou num outro parque qualquer do mundo, desde que seja a viver os sonhos de Deus.
E há lá melhor maneira para viver a espiritualidade em férias do que um bom acampamento de Escuteiros? E se for em Setúbal, então?!
Texto de Ana Margarida Chagas, Chefe Regional de Setúbal do Corpo Nacional de Escutas



