Saudações a todos, todos, todos.
Escrevo estas linhas num tempo de incertezas. A guerra na Ucrânia não acaba. Já se passaram três anos e os bombardeamentos continuam a destruir o que já está destruído; no Médio Oriente, o ódio continua a determinar comportamentos e aquilo que hoje é decidido em favor da paz, amanhã pode não acontecer.
As cinzas que iremos receber revestem-se de todo o seu significado. Somos pó e ao pó iremos retornar. Somos cinzas, como são «cinzas» os soldados mortos nos campos de batalha, as viúvas que choram os seus maridos, as crianças órfãs vítimas de redes de tráfico infantil, os pais e as mães que recebem os corpos dos seus filhos. Mas recordo-me de ouvir dizer, em criança, que as cinzas colocadas nos vasos de barro e nas hortas dos quintais, faziam bem à terra.
Nesta Quaresma, o nosso desafio pode e deve ser este: de que forma conseguiremos que as cinzas do nosso tempo nos ajudem a crescer, a sermos capazes de dar mais fruto e fruto em abundância como nos pede o Senhor da vida e da morte? De que modo conseguiremos revolver a terra da vida e lançar-lhe vida nova? De que forma seremos capazes de transformar as cinzas do sofrimento, da morte, do egoísmo, da mentira, das faltas de coerência e de respeito pelo próximo, em sofrimentos que se partilham, tristezas que se superam, generosidade que se dá sem nada esperar em troca? Como seremos exemplos de vida para os mais novos, para os que não têm Fé, para as nossas famílias e amigos? Bem sei que são demasiadas perguntas, mas o que será de nós se não formos capazes de as fazer, se não formos determinados a procurar respostas?
Este ano, o Papa Francisco deu-nos a graça da celebração de um Jubileu (a que juntamos o Jubileu Diocesano dos 50 anos da criação da diocese sadina pelo Papa S. Paulo VI a 16 de julho de 1975), a grande festa da Esperança, capaz de contrariar tudo o que vemos acontecer.
O lema deste Jubileu, “Peregrinos de Esperança”, é o ponto de partida da Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma e convida-nos a sermos peregrinos na vida, capazes de nos interrogarmos, de caminharmos juntos, de efetivarmos a conversão à sinodalidade, algo que tanto nos ocupou a nível individual e comunitário nos últimos anos.
Sabemos que, como cristãos, a nossa vida está marcada por uma permanente tensão, claramente explicada no mandamento da Lei que nos diz: amarás os teus inimigos como a ti mesmo… um mandamento que se vai declinando em tantas, mas tantas propostas de amor. Ignorar as ofensas que nos fazem. Colocar o bem dos outros à frente dos nossos desejos e vontades. Retirar da nossa linguagem as palavras que magoam e ofendem. Tornar rotineiro o exame diário de consciência. Perder o hábito dos queixumes e de má-língua. Rezar. Acolher quem tem fome. Visitar um doente, um preso, um idoso. Tantas, mas tantas propostas de amor, que estão ao alcance das nossas mãos e dos nossos corações. Tantas propostas que nos podem e devem inquietar…
A Mensagem do Papa termina com a Esperança como apelo à conversão, confiantes em Deus e na Sua promessa de que nos espera a eternidade.
Não sabemos o que irá acontecer nos próximos dias, semanas ou meses. Não sabemos se a Paz vai chegar ao povo martirizado da Ucrânia, se a Terra Santa se poderá visitar no próximo Verão, nem se a Palestina encontrará o seu território. Mas sei que Deus nunca nos abandona e que cada um de nós é muito amado. Sei que a Humanidade é capaz do pior, mas também do melhor.
Confiando nesta certeza, suportada pela Fé, gostaria de vos pedir que fossemos capazes de encarar os dramas das violências na nossa Diocese. E que juntos, procurássemos encontrar a melhor forma de erradicar a violência doméstica capaz de matar; a violência verbal, capaz de destruir; a violência da fome, do desemprego e de tantas outras carências. Que cada cristão, cada homem e cada mulher, cada jovem da Diocese de Setúbal, assuma o seu papel, nesta luta que mata e destrói à nossa volta.
Tenhamos um objetivo concreto, que nos permita chegar ao Domingo de Páscoa, mais inteiros, mais completos, mais cristãos porque capazes de fazer a diferença, nem que seja na vida de uma pessoa, de uma família, de um casal.
Tal como o Papa Francisco nos diz “que a Virgem Maria, Mãe da Esperança. Interceda por nós e nos acompanhe no caminho quaresmal”.
Santa caminhada quaresmal rumo à Páscoa do Senhor!
Setúbal, 5 de março de 2025
Quarta-feira de Cinzas
† Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal
RENÚNICA QUARESMAL 2025
Na Diocese de Setúbal, a Renúncia Quaresmal 2025 será encaminhada para duas realidades de carência, de natureza interna e externa.
A parte que concerne à realidade interna destina-se ao apoio de situações de emergência na Diocese, através do Fundo de Emergência Diocesano. O restante valor recolhido reverterá, novamente, para o apoio às crianças visadas no conflito armado da Terra Santa, nomeadamente, e será entregue ao Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém. Em 2024 foram entregues a Jerusalém € 55.527,10.
A renúncia é uma prática concreta que a Igreja indica aos fiéis para melhor viver o espírito da Quaresma. Consiste em abdicar de certas coisas legítimas para ajudar a viver o desapego e o desprendimento. Depois, o valor monetário que resulta das renúncias realizadas, em espírito de oração e conversão, é encaminhado para uma situação de carência socioeconómica. Contamos com todos, todos, todos. A entrega deve ser feita na sua comunidade no Domingo de Ramos, este ano a 13 de abril (uma semana antes da Páscoa).




