Luísa Santana é a responsável pela Comissão Diocesana da Pastoral da Saúde da diocese de Setúbal. Ao aproximar-se o Jubileu dos Enfermos e do Mundo da Saúde, que se celebrará na nossa diocese no dia 6 de abril, em comunhão com Roma, onde também se celebra o mesmo Jubileu, estivemos à conversa para perceber melhor que trabalho é este da Pastoral da Saúde e de que forma podemos todos ajudar a que ele seja desenvolvido.
Luísa, porquê celebrar o Jubileu também dos Enfermos e do Mundo da Saúde neste ano jubilar da nossa diocese?
Esta pastoral está muito ligada à questão dos doentes, tem sido por tradição muito ligada à questão dos doentes, mas neste momento importa terem atenção que queremos olhar para o ciclo de vida toda das pessoas, do nascimento até à morte, olhando a todos os aspetos físicos, psicológicos, sociais, do ambiente, que às vezes é tão esquecido. E, portanto, este é um momento em que podemos olhar para esta importância de caminharmos juntos e com esperança, que faz tanta falta no mundo de hoje, encontrar os pequenos sinais de esperança que existem por todo o lado e muitas vezes ficam um pouco escondidos. E a área da saúde, arrisco dizer, é uma área onde a esperança joga um papel muito importante.
Exatamente, e nós às vezes falamos tão mal das questões de saúde, mas temos que nos lembrar, nos hospitais, nos lares, em todos os sítios onde se cuidam doentes, temos sempre, todos os dias, pequenos milagres e pequenos apontamentos de esperança que importa muito ressalvar e dar atenção a isso tudo.
Quando nós pensamos na pastoral da saúde, temos a tendência para pensar imediatamente no apoio aos doentes, que é sem dúvida um aspeto importante daquilo que a pastoral faz, mas há muito mais do que isso.
Muito mais, porque quando falamos em doentes estamos a falar em cuidadores e todos aqueles que circulam à volta dos doentes. Queria chamar aqui a atenção para a importância das profissões às vezes mais humildes, que não são tanto faladas, os assistentes operacionais, os assistentes técnicos que circulam nos nossos hospitais e que às vezes são o primeiro contacto que a pessoa tem quando se desloca a um sítio desses e muitas vezes não são olhados. Olhamos mais muitas vezes para os enfermeiros, para os médicos, mas queria chamar aqui a atenção para a importância de reconhecermos essas profissões que às vezes não estão chamadas, não vêm tanto nas notícias, não vêm tanto na nossa atenção. E também os cuidadores, porque quem tem doentes, os doentes precisam de cuidadores.
Os cuidadores hoje em dia é um tema que também nos deixa muitas inquietações, porque as pessoas têm muitas dificuldades, muitas vezes muito pouco apoio e temos que nos lembrar deles. É fundamental lembrarmos a questão dos cuidadores e tentarmos dar todo o apoio possível.
E olhando aqui para este espectro mais alargado dos doentes, dos cuidadores, do pessoal médico e do pessoal de apoio aos doentes nos hospitais, que tipo de trabalho faz a Pastoral da Saúde com toda esta gente?
Pois, aí é a dificuldade da Pastoral da Saúde. A Pastoral da Saúde, em termos de Igreja, é relativamente recente. Estamos a falar de 1985, quando o Papa João Paulo II lançou esta Pastoral e, portanto, em termos de evolução da Igreja, isto é recentíssimo. É uma Pastoral difícil neste momento, pela mudança que vamos tendo na sociedade e há alguns anos que eu estou ligada a esta Pastoral, temos encontrado imensas mudanças na sociedade, nos cuidados de saúde, nos problemas de envelhecimento e temos que nos ir adaptando.
O que nós hoje tentamos fazer é criar redes, criar redes interligadas, criar redes que às vezes vão rompendo aqui e ali, portanto, vamos ter de que as refazer e é preciso muita resiliência, dar importância a todos os pequenos passos que são possíveis de dar e criar uma linha condutora em toda a diocese, que às vezes é difícil pela, sei lá, como é que vou dizer, pelas dificuldades e pela extrema variedade de ações que nós podemos ter. Eu num sítio posso olhar mais para as questões da ecologia, porque tenho gente mais virada para aí, no outro sítio posso olhar mais para os cuidadores, portanto, nós estamos a tentar lançar sementes aqui e ali, lançar pistas e estar disponíveis para o apoio que é possível dar e estamos muito disponíveis para todas as paróquias que possam precisar de apoio na formação, apoio nos primeiros passos, mas isto de qualquer maneira, muito como a sinodalidade, está muito dependente de cada comunidade, portanto, não existem receitas, não existem guiões e daí esta dificuldade que hoje temos.

Mas falou aí numa multiplicidade de ações que podem ser feitas. Em termos práticos, que tipo de trabalho desenvolve ou que exemplos pode dar de trabalhos que a Pastoral da Saúde desenvolve?
Nós fazemos alguma formação, nomeadamente nos anos da pandemia fizemos formação online disponível para toda a diocese, neste momento fizemos, temos algumas ações locais em que nos deslocamos, temos um grupinho disponível para fazer formação, às vezes, para grupos de voluntários. Estamos a tentar desinquietar os jovens também a ligarem o seu trabalho aqui à nossa pastoral e temos muitos jovens também nos cursos de saúde e será muito importante que eles sejam capazes de começar desde já a interagir connosco e a apoiar-nos todos, porque muitas vezes temos as questões muito divididas ainda nas nossas paróquias, temos o grupo daqui, o grupo dos jovens, o grupo da catequese, o grupo social, mas esta Pastoral da Saúde envolve todos e, portanto, criar esta rede não é fácil. Temos depois as visitas a alguns lares, temos grupos que fazem visitas, dependente também, muito diferente em cada paróquia, isto depende também muito do prior da paróquia, do entendimento que têm e, portanto, às vezes não é muito fácil avançar, portanto, temos que ir tentando, sobretudo, lançar sementes e desinquietar as pessoas, explicar a importância de começar mesmo com passos muito pequenos, duas ou três pessoas numa comunidade que estejam sensíveis para estas questões podem ser a semente para começar a lançar alguns movimentos e ir ensaiando processos. Às vezes não correm bem, temos que os abandonar, portanto, temos que ter a noção que vamos muito por aí.
Falou da importância de visitar, de estar, qual é a real importância para um doente, para um cuidador, para um profissional de saúde, de um acompanhamento naquilo que é o seu trabalho do dia a dia ou a sua dor do dia a dia, no caso dos doentes?
Olhamos aqui para a parte espiritual e muitas vezes isso faz toda a diferença, às vezes não é preciso fazer muito, é preciso estar presente, sobretudo, e aqui esta dificuldade também de termos os nossos voluntários com formação para fazerem esta abordagem dos doentes e este trabalho de proximidade bem feito. Temos necessidade de uma formação bem feita à medida de cada circunstância, porque as circunstâncias são todas diferentes, e para um cuidador que está muitas vezes em casa, com um doente a seu cargo, com pouca formação, sem apoio de lado nenhum, ter alguém que se lembra dele e que às vezes pode prestar um pequeno apoio, uma ajuda à farmácia, uma conversa, muitas vezes só um telefonema é suficiente para aligeirar as solidões que existem por aí.
Não providenciamos curas, mas ajudamos nesse processo?
É evidente, curas, vamos lá, podemos pedir um milagre, podemos rezar, mas curas são com os profissionais de saúde. Mas sobretudo este acompanhamento, esta proximidade, hoje em dia existe muita solidão nas nossas sociedades, mesmo nas nossas comunidades, e é muito importante ser capaz de estar presente.
Era isso que eu dizia, portanto, porque efetivamente isso ajuda, ou seja, está comprovado que essa presença ajuda no processo de cura.
Hoje em dia está comprovado, temos imensos estudos que comprovam isso, que este acompanhamento espiritual, esta proximidade, é muito importante em todos os processos de cura e da aceitação da doença e da situação em si.
Este trabalho da Pastoral da Saúde é um trabalho virado para as comunidades, ou é também um trabalho virado para os não-crentes e para quem não está necessariamente dentro da igreja?
Nós queremos que seja virado também para os não-crentes. Às vezes é um bocadinho difícil chegar, e estamos a fazer tentativas de criar algumas pequenas formações em cada paróquia, coisas pequenas em que podemos chamar pessoas menos ligadas à vida da Igreja, para ir criando estas redes, porque é evidente que nós queremos muito chamar também quem não faz parte da comunidade mais presente na Igreja.
Portanto, isto é virado para todos. Todas as paróquias já têm qualquer coisa da Pastoral da Saúde em funcionamento?
Não, infelizmente não.
Falta essa sensibilização?
Falta a sensibilização. Tem havido alguma dinâmica de mudanças aqui também na nossa diocese, que também não tem ajudado muito, e depois também depende muito da sensibilidade. Muitas vezes os nossos párocos têm muitas atividades, têm muita coisa, e às vezes é difícil encontrarmos aqui um caminho para começarmos a ter grupos pequenos que possam fazer este tipo de apoio, mas infelizmente não temos ainda grupos em todas as paróquias.

Naquilo que diz respeito a hospitais, lares que não estão ligados às paróquias, outras estruturas de apoio à Terceira Idade, é fácil estar, acompanhar, entrar? Como é que é esse diálogo e que desafios levanta?
Depende, depende dos sítios. Há sítios onde se entra muito facilmente, há outros onde nem tanto, onde há algumas dificuldades, e penso que os sítios que funcionam melhor e que estão mais abertos ao exterior não põem tantos problemas. Mas infelizmente temos alguns sítios que nos põem alguma dificuldade na entrada. Portanto, vamos fazendo, vamos tentando ir aproximando, não é muito fácil em todos os lados.
Quando nós olhamos para a estrutura do voluntário na Pastoral da Saúde, há um perfil definido? Que tipo de pessoa pode efetivamente ser voluntária na Pastoral da Saúde?
Esta é uma boa pergunta. Nós tínhamos, nos primeiros grupos, um perfil de voluntário, uma questão muito estruturada, e que depois foi decaindo, e as coisas foram morrendo. Neste momento, estamos a tentar que os voluntários, e como temos muitas áreas onde é possível trabalhar, podem ser pessoas um bocadinho com uma formação não tão virada para estas questões da saúde. Estamos a tentar que quem visita hospitais, quem visita lares, tenha que ter alguma formação, porque nem toda a gente tem a sensibilidade necessária para fazer um trabalho bem feito, e temos que ter algum cuidado, sobretudo se queremos ir em nome da Igreja, em fazer uma aproximação correta. Mas temos muita coisa, por isso, como eu digo, podemos ser todos voluntários da Pastoral da Saúde. Se eu tiver gente que não sai de casa, mas que está disponível para ir fazendo telefonemas, algumas pessoas que estão mais sozinhas, as pessoas que vivem sós, ter alguém que controla, se não aparece na Igreja, há uns dias que não se vê, alguém que se preocupa e que vai saber o que é que aconteceu, isto alguém que está em casa pode ser voluntário.
Se a pessoa tiver algumas preocupações com ecologia, também está a trabalhar nesta pastoral. Portanto, esta pastoral é muito abrangente, e portanto, independentemente do trabalho de campo, mais local, no voluntariado, de visita aos hospitais, aos lares, ao apoio aos cuidadores, temos também os outros aspetos onde é possível envolver toda a comunidade, e portanto, estamos a tentar muito lançar pistas e desafios. A questão da solidão é a questão que secalhar mais preocupa a nível dos doentes.
Nós tivemos ainda há pouco tempo o caso muito famoso de um ator americano, cuja esposa faleceu sem ele dar por isso, e ele esteve sete dias, em virtude da sua condição de demência, teve sete dias sozinho em casa, sem saber, e não há ninguém durante uma semana, que dê por falta destas pessoas. Este problema da solidão é, de facto, uma das maiores desgraças do tempo moderno?
É. Cada vez que vem uma dessas situações que é noticiada, é muito preocupante perceber que há pessoas e gente, não tinham dificuldades económicas, não era por aí, mas uma solidão terrível. Como é que é possível tantos dias seguidos sem ninguém saber nada? E portanto, nós queremos muito lançar também esse desafio das comunidades estarem alertas para essas solidões.
Hoje em dia vive-se muito sozinho, as famílias são muito pequenas, os filhos andam muito por aí, e, portanto, às vezes não é fácil a pessoa ter estas redes. A pessoa está sozinha, sai às vezes, até vai à igreja, vai à Eucaristia, depois vai embora e mais ninguém sabe dela, não se sabe o que é que aconteceu. Portanto, queremos muito chamar a atenção para essas questões e ir desafiando toda a gente, todo o povo de Deus a participar neste trabalho.
E não é necessariamente um trabalho de evangelização, ou seja, ninguém está à espera que as pessoas vão pregar a palavra quando visitam estas pessoas, nem nada disso…
Não é, a não ser que a pessoa peça. Estamos disponíveis para apoiar os pedidos de apoio, que a pessoa possa receber a comunhão em casa, mas não vamos na tentativa de evangelizar. Estamos à disposição daquilo que a pessoa entende ser necessário nesse momento, crentes ou não crentes.
Neste tempo de Jubileu, em que celebramos também os 50 anos da diocese e em que lançamos os próximos 50 anos da diocese, de que forma é que gostava que a Pastoral da Saúde pudesse evoluir e pudesse fazer caminho nesta nossa diocese?
Gostava muito que a Pastoral da Saúde fosse um chapéu que envolvesse todas as outras pastorais, porque no fundo a saúde é tudo. Todas as outras pastorais podem ter aqui o seu papel e pensamos que na Pastoral da Saúde podemos integrar todas essas vivências, cada uma com as suas particularidades, mas a Pastoral da Saúde pode envolver toda a gente e queríamos que cada vez mais as pessoas se sentissem todos voluntários da Pastoral da Saúde, cada um na sua vida, nas suas particularidades, todos podem ter aqui uma ação. É assim que eu vejo o desafio para esta pastoral nos próximos anos.
Entrevista e fotos Ricardo Perna




