NOTA EPISCOPAL
A propósito do Dia Mundial da Saúde
A celebração de mais um Dia Mundial da Saúde, no passado dia 7 de abril, provocou a realização de diversas conferências, protestos, rastreios por todo o nosso país, colocando a Saúde no centro da atenção mediática e de todos nós.
Pessoalmente, e como Bispo da Diocese de Setúbal, onde vivem cerca de um milhão de pessoas, a Saúde é um tema prioritário, porque a defesa da vida é prioritária. Estejamos a falar dos idosos que vão morrendo aos poucos, nas suas casas, ou das mães grávidas que procuram um hospital perante o nascimento do seu bebé… estejamos a recordar a criança que partiu um braço no intervalo da escola ou o trabalhador que se magoou numa fábrica, ou tantos outros casos que surgem com caráter de urgência na vida de todos, todos, todos.
O facto de receber no telemóvel as indicações relativas à rotatividade das especialidades em urgência nos hospitais da Península de Setúbal permite-me partilhar muita da insegurança que se sente, perante uma situação que, até ao dia de hoje, não se consegue resolver.
De forma alguma ponho em causa o trabalho e a dedicação de todos os agentes envolvidos na vida de um hospital, desde os médicos aos enfermeiros, o pessoal auxiliar e das ambulâncias, os técnicos e até mesmo as autarquias, bem como a tutela governamental. Mas insisto na urgência de se encontrar uma alternativa à solução vigente. Precisamos de ser claros nas palavras e firmes na verdade: não temos condições para oferecer aos nossos utentes, todos os dias, em todos os hospitais, todas as especialidades médicas. Não temos médicos, nem enfermeiros, nem pessoal auxiliar… sendo esta a realidade, seremos capazes de chegar a algum acordo que nos liberte de uma insegurança permanente, que exige pesquisas diárias para que cada pessoa, cada família que vive deste lado do Tejo, descubra onde se deve dirigir, de acordo com os sintomas que apresenta?…
Não tenho qualquer pretensão de ser capaz de apresentar soluções milagrosas para um problema desta natureza, mas, perante esta situação, procurei o conselho de pessoas experientes e, das informações que recebi, permito-me partilhar quatro ideias que me parecem úteis e assertivas no caso específico das grávidas e dos recém-nascidos, sabendo que, em Portugal, cerca de 50 concelhos estão a mais de uma hora de distância de uma maternidade:
1. Devemos olhar para tantos exemplos, desde os regionais até aos internacionais, onde foram implementados modelos de urgências metropolitanas e urgências regionais. Assim foi possível concentrar recursos, prever o trabalho, e encontrar uma resposta eficaz e segura aos utentes. Replicar bons exemplos na Península de Setúbal seria um bom começo.
2. Os exemplos já citados implicam a existência de um ou dois polos de urgência obstétrica com condições logísticas, clínicas e assistenciais; só assim se podem prestar cuidados capazes de responder à complexidade que implicam.
3. Este tipo de decisões são muito exigentes e vão para lá dos compromissos das tutelas e da gestão local; na verdade, atingem o âmago da decisão de trabalhar no mundo da Saúde. Falaram-me de palavras como «altruísmo, generosidade, espírito de grupo, colocar o bem comum e a saúde das grávidas e dos recém-nascidos à frente dos seus próprios interesses», na certeza do reconhecimento social e material implícito.
4. Tudo deverá ser pensado, planeado e executado, partindo da certeza de que não estamos perante uma situação temporária ou passageira. A falta de ginecologistas e obstetras vai muito para lá da Península de Setúbal, do Centro, do Norte, do Sul ou das ilhas de Portugal. É uma crise global, que exige uma adaptação por parte de todos. Centralizar serviços faz, assim, todo o sentido.
Independentemente da concordância de todos, perante o que aqui deixo escrito, a minha experiência de vida diz-me que, quando todos remamos para o mesmo lado, quando conseguimos colocar o interesse dos mais fracos e dos mais frágeis à frente de todos os outros interesses, os problemas se resolvem. Só peço que se sentem à mesma mesa os que participam de forma ativa neste mundo da Saúde: escutem-se uns aos outros e encontrem soluções.
O Papa Francisco entregou-me à Diocese de Setúbal, que sirvo desde o primeiro momento. O que significa que estou atento ao que se passa à minha volta, disponível para todos e empenhado em melhorar, na medida do possível, a vida de cada pessoa, mais nova ou mais velha. É o que faço, independentemente da sua raça, credo ou condição social, como nos pede o Evangelho de Jesus. Às portas da Semana Santa, assumo a minha oração por todos, todos, todos, para que Cristo Vivo ilumine os vossos corações.
Setúbal, 11 de abril de 2025
† cardeal Américo, bispo de Setúbal




