A chuva, o frio e até o granizo não foram suficientes para deter a devoção de milhares de fiéis que esta quinta-feira encheram as ruas e o santuário de Wiltz, no Luxemburgo, em honra de Nossa Senhora de Fátima. A tradicional peregrinação e procissão, um dos momentos mais emblemáticos da comunidade portuguesa e lusófona naquele país, reuniu peregrinos vindos de diferentes pontos do Grão-Ducado e também dos países vizinhos, numa celebração marcada pela fé, pela saudade e pela esperança.
A celebração deste ano revestiu-se de um carácter particularmente solene. Presidiu à eucaristia o cardeal português Américo Aguiar, bispo de Setúbal, convidado pelo cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo, que também esteve presente. A presença de dois cardeais sublinhou a dimensão fraterna de um encontro que vai muito além do ritual religioso — é, para muitos emigrantes, um reencontro com as raízes.
Entre as autoridades presentes encontravam-se ainda o primeiro-ministro do Luxemburgo, Luc Frieden, o presidente da Chambre des députés, Claude Wiseler, e o presidente da Assembleia da República de Portugal, José Pedro Aguiar-Branco, que se encontra em visita oficial ao Luxemburgo acompanhado por uma delegação de deputados portugueses, no âmbito das relações de amizade entre os dois países.
Na homilia, o cardeal Américo Aguiar dirigiu-se com especial calor aos emigrantes portugueses e lusófonos presentes, enaltecendo o seu testemunho de fé e resiliência. O prelado agradeceu aos peregrinos por continuarem a transmitir aos filhos a língua, as tradições e os valores humanos e cristãos, e por serem “pontes entre culturas, construtores discretos de comunidade e de esperança”.

O cardeal não fugiu às dificuldades do tempo presente. Na sua homilia, evocou os dias de inquietação que se vivem — guerras, divisões, solidões escondidas, famílias feridas, jovens sem horizonte, idosos esquecidos, migrantes que procuram dignidade e paz —, recordando que também no Luxemburgo muitos carregam no coração a saudade, o cansaço e as preocupações com os filhos, o trabalho e o futuro. Mas, perante tudo isso, a mensagem foi de esperança: “Maria aparece sempre como Mãe. Não vem condenar. Não vem afastar. Não vem dividir. Maria vem aproximar-nos de Jesus.”
Américo Aguiar centrou a sua reflexão nos três pedidos que Nossa Senhora fez em Fátima — oração, conversão e paz —, declarando-os “profundamente actuais”. Defendeu que “um mundo sem oração torna-se um mundo sem alma” e que, quando se deixa de falar com Deus, perde-se a capacidade de escutar os outros, de acolher, de amar, de perdoar.
Numa revelação que surpreendeu muitos dos presentes, o cardeal partilhou que na véspera celebrara a Eucaristia no centro penitenciário do Luxemburgo. Descreveu a experiência como “profundamente tocante”, referindo ter encontrado “rostos humanos, histórias de sofrimento, mas também sede de esperança, vontade de recomeçar e corações à procura de misericórdia”. A mensagem foi clara: “ninguém pode ser reduzido ao seu erro” e “nenhuma pessoa perde a sua dignidade de filho de Deus”.
A homilia incluiu ainda uma prece especial pelo Papa Leão XIV, evocando com gratidão o primeiro aniversário da sua eleição para a Cátedra de Pedro, e pedindo que Maria o acompanhe “com ternura maternal” e lhe conceda “saúde, sabedoria e coragem apostólica”.
“A emigração traz oportunidades, mas também feridas silenciosas”
Antes da missa, o cardeal Américo Aguiar proferiu uma catequese centrada no tema “Maria acompanha sempre os que sofrem”, em que colocou os emigrantes no centro da sua reflexão. Evocou “quantos homens e mulheres deixaram a sua terra à procura de trabalho, dignidade e futuro para as suas famílias”, partindo “com a coragem no rosto e as lágrimas escondidas no coração”.
O prelado reconheceu que muitos emigrantes vivem o esforço diário da integração, o cansaço do trabalho, as dificuldades económicas, a solidão e “a sensação de nunca pertencer completamente nem ao país de origem nem ao país de acolhimento”. E, precisamente por isso, afirmou que Maria é uma figura com quem os emigrantes se podem identificar de modo singular: “Ela própria experimentou a condição de refugiada quando, com José e o Menino Jesus, teve de fugir para o Egipto. Também a Sagrada Família conheceu a insegurança, o medo, a necessidade de partir para uma terra estrangeira.”

A catequese foi também um momento de gratidão institucional. O cardeal deixou “uma palavra de reconhecimento ao Luxemburgo e ao seu povo, como a tantos outros países da Europa e do mundo, que receberam milhares de portugueses com humanidade, respeito e fraternidade”. E lançou um desafio à própria comunidade emigrante: “A memória da nossa própria emigração deve tornar-nos hoje mais conscientes, mais humanos e mais solidários para com todos os migrantes e refugiados que procuram segurança, trabalho e esperança.”
No encerramento da homilia, o cardeal sublinhou que Fátima não deve ser encarada como uma memória do passado, mas como uma missão para o presente. “Sempre que escolhemos o amor em vez do ódio, a reconciliação em vez da vingança, a esperança em vez do desânimo, a solidariedade em vez da indiferença, aí continua a acontecer Fátima”, afirmou, numa frase que resumiu o espírito do dia.
Apesar das condições meteorológicas adversas, a procissão e a celebração decorreram com normalidade, e o fervor dos fiéis manteve-se inabalável ao longo de toda a jornada. Para milhares de portugueses e lusófonos que vivem longe da sua terra, Wiltz foi, mais uma vez, um pedaço de Portugal no coração da Europa.
Texto: Ricardo Perna (com suporte de IA)
Fotos: Estifanos Fikadu




