Meus irmãos e irmãs,
queridos homens e mulheres da Marinha Portuguesa, autoridades civis e militares, famílias dos nossos marinheiros,
Celebrar o Domingo de Pentecostes neste Dia da Marinha Portuguesa tem uma profundidade muito especial. A Palavra de Deus fala-nos hoje de vento forte, de sopro, de travessia, de coragem e de missão. E quem conhece o mar sabe bem que o vento tanto pode assustar como pode conduzir. Um barco sem vento fica imóvel; mas quando o vento é acolhido e orientado, transforma-se em caminho e horizonte. Também a vida humana é assim. Há ventos que desorientam — o medo, a violência, o egoísmo, a guerra, a indiferença —, mas há um vento que salva e renova: o Espírito de Deus.
Os Apóstolos estavam fechados, presos ao medo e à incerteza. Tinham caminhado com Jesus, tinham visto os sinais da Ressurreição, mas continuavam sem coragem para sair. E é precisamente nesse contexto que Jesus entra no meio deles e oferece aquilo de que mais necessitavam: a paz. “A paz esteja convosco.” Esta saudação de Cristo não é uma formalidade; é uma missão. Porque a paz não acontece por acaso. A paz constrói-se, protege-se e serve-se.
Talvez por isso, neste dia, a Igreja queira agradecer de modo muito particular todos os homens e mulheres da Marinha Portuguesa que, muitas vezes longe das suas famílias, em silêncio e discrição, garantem segurança, socorro, vigilância e serviço ao bem comum.
Portugal tem uma ligação única ao mar. O mar faz parte da nossa identidade, da nossa memória e da nossa vocação histórica. Mas seria um erro pensar o mar apenas como espaço económico ou estratégico. O mar é também uma escola humana e espiritual. Ele ensina humildade, porque recorda constantemente que ninguém controla tudo. Ensina solidariedade, porque no mar ninguém se salva sozinho. Ensina vigilância, disciplina e coragem.
E neste contexto recordo uma intuição belíssima da nossa querida Sophia de Mello Breyner Andresen, quando afirmava que os navegadores portugueses navegavam “com o mapa que iam desenhando”. Que imagem tão profunda para a vida humana e para a própria fé! Os nossos navegadores não esperaram possuir todas as certezas para partir. Avançaram, arriscaram, enfrentaram tempestades e desconhecido, desenhando o mapa enquanto navegavam.
Também hoje somos chamados a isso. Nenhum de nós possui o mapa completo da vida. Também a Igreja, também Portugal, também cada família e cada jovem são chamados a caminhar muitas vezes sem garantias absolutas, confiando que Deus continua presente no meio das tempestades. A fé não elimina todos os medos, mas impede-nos de ficar parados no porto da resignação.
Na primeira leitura, cada povo escutava os Apóstolos falar na sua própria língua. Deus mostrava assim que a diferença não é ameaça, mas riqueza. Num mundo tantas vezes marcado por divisões, agressividade verbal, conflitos e polarizações, Pentecostes recorda-nos que o Espírito Santo cria comunhão sem apagar identidades. São Paulo dizia-nos: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.” Também numa embarcação existem diferentes funções, responsabilidades e serviços, mas todos trabalham para o mesmo objetivo. Assim deve ser também a sociedade e assim deve ser Portugal: um país onde ninguém viva apenas para si próprio, mas onde todos se sintam responsáveis pelo bem comum.
Hoje rezamos também por aqueles que perderam a vida em serviço, pelos que estão neste momento longe das suas casas e pelas famílias que sustentam silenciosamente esta missão exigente. Pedimos ao Senhor que nunca faltem ao nosso país homens e mulheres capazes de servir com honra, verdade e espírito de missão.
Que Nossa Senhora, Estrela do Mar, acompanhe todos os marinheiros portugueses. E que o Espírito Santo seja sempre vento favorável nas travessias da vida de cada um de nós.
Amen.




